Uma outra leitura das eleições municipais

Por François Huteau |

Talvez a eleição do domingo passado tenha aberto a porta a um modelo de representação política no Brasil que transforma a massa em povo.

Lima Barreto foi um grande escritor e jornalista negro do começo do século XX. Lúcido crítico da época da Primeira República no Brasil e do nacionalismo ufanista, ele denunciou a roupagem republicana que manteve os privilégios das famílias aristocráticas e militares. O Lima Barreto, dizia: “O Brasil não tem povo, tem massa”.

Até hoje, nem a esquerda nem a direita conseguiram politizar essa massa e torná-la povo. Nem sequer a classe média, mais ou menos escolarizada, tem noção da sua identidade e da sua responsabilidade cívica. Nega a sua condição de classe trabalhadora e precária, sonhando-se (trágica fantasia) como elite poderosa. Para FHC, num chamativo eco do que dizia Lima Barreto um século atrás, há uma massa política atrasada no País e a polarização entre PT e PSDB serve para tirá-la desse atraso. “Os dois partidos que têm capacidade de liderança para mudar isso são o PT e o PSDB. Em aliança com outros partidos. No fundo, nós disputamos quem é que comanda o atraso”, disse Fernando Henrique em 2004.

Nessas eleições municipais, o PT foi varrido do mapa político em grande parte do País. Em mais de 20 importantes cidades brasileiras a maioria dos cidadãos pobres e de classe média que precisam desesperadamente de políticas públicas do Estado escolheu votar em milionários neoliberais, ferozes militantes do tudo privado, para governarem as suas cidades. Parece que só fica o PSDB para comandar o atraso!

A casta política atual é profundamente corrupta, os mesmos esquemas de desvio de verbas públicas são utilizados pelos grandes partidos, PT, PSDB, PMDB, PP, DEM, PCdoB, etc… Quem está conjunturalmente no poder, federal ou local, rouba mais obviamente, faz parte, explicaria sabiamente Maluf. A mídia fez uma campanha massiva contra o PT corrupto, com sucesso e com toda a razão ética, a mesma mídia fez uma campanha massiva de ocultação da corrupção do PSDB e do PMDB, com sucesso e com toda a razão política e cultural do ponto de vista das elites tradicionais.

Uma primeira leitura dos resultados das eleições do domingo passado poderia fazer pensar que tudo continua igual, no movimento regular de um balanço desesperante entre uma esquerda corrupta e sem bases sociais sólidas e uma direita corrupta, elitista, mas hábil no manejo das massas. Existe uma outra leitura possível.

São Paulo e Rio de Janeiro não têm somente um peso demográfico especial. Têm a capacidade de influir o conjunto do País, pela importância econômica, cultural e política que representam. Nessas duas cidades, o resultado do domingo pode prefigurar o que seria um novo panorama político dos próximos anos no Brasil.

Essas duas cidades aposentaram claramente a atual e envelhecida classe política. Os clássicos PT, PMDB e PSDB, instrumentos dos caciques Lula, Temer, Aécio e comparsas, ficaram bem longe da escolha dos eleitores.

João Doria, 58 anos, não é um histórico do PSDB. Impôs a sua candidatura apesar da rejeição da maioria dos dirigentes do PSDB nacional. Ele faz parte de uma nova direita, liberal e empresarial, cujas referências não são mais a Casa Grande e a Senzala, mas sim Wall Street e a terceirização do trabalho. Entra na política sendo eleito e não nomeado ou cooptado. Escolheu o mesmo caminho que levou Mauricio Macri à presidência argentina, dinheiro e poder traduzidos em votos.

Fernando Haddad e Marcelo Freixo representam uma esquerda bem diferente da dos líderes dos seus respectivos partidos. São de outra geração: Haddad tem 53 anos e Lula 70 anos, Freixo tem 49 anos e Erundina 81 anos. Também não fazem parte dos históricos do PT ou do PSOL. Fernando Haddad, como prefeito, apostou numa política inovadora que deu aos temas urbanísticos, de mobilidade urbana e de meio ambiente, uma importância que é o futuro da esquerda, conjuntamente com a manutenção das exigências sociais.

Marcelo Crivella, 58 anos, representa a realidade evangélica brasileira. A omissão do Estado, dos serviços públicos e dos partidos nos bairros e cidades mais desfavorecidos do País deixou as igrejas evangélicas como única estrutura social ativa nesses lugares. A tradução dessa presença em poder político é inevitável. Tentar encaixar esse movimento numa classificação esquerda-direita ou progressista-conservadora não funciona. Só a existência de grandes partidos políticos laicos poderá garantir no futuro que esta força complemente e não desvirtue a democracia.

A curto prazo nada vai mudar. Continuaremos com um “debate” político do tipo “Lula na prisão” ou “Fora Temer”, bem longe do que precisa o Brasil. Mas talvez a eleição do domingo passado tenha aberto a porta a um modelo de representação política no Brasil que transforma a massa em povo pela capacidade de identificação com forças complementarias: uma direita liberal e moderna, uma esquerda progressista e ecologista e um movimento evangélico populista.




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