O novo livro de Boaventura

Redação |

Intelectual com visão de mundo equilibrada e abrangente, o escritor português Boaventura de Sousa Santos tem estreita relação com o Brasil

Boaventura de Sousa Santos nasceu em Coimbra, em 1940. Seu pai foi chefe de cozinha do Café Nicola, ao lado da histórica universidade da cidade portuguesa. Em uma entrevista para o Cepedoc da Fundação Getulio Vargas ele contou ter sido o primeiro filho de operário a lá cursar a faculdade de Direito. Com notas excelentes, foi para Berlim e Yale, nos Estados Unidos, e na volta ajudou a fundar a faculdade de Economia e a de Ciências Sociais em Coimbra.

Recebeu Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso, de quem é amigo. Darcy Ribeiro deu aulas por lá. O CES, o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, dirigido por ele, é parada obrigatória de professores e intelectuais brasileiros.

Sua ligação com o Brasil vem desde que os avós imigraram na época do governo Washington Luis (1926/1930). Aqui trabalharam na implantação dos trilhos do bonde na Lapa, no Rio. Durante a ditadura brasileira, Boaventura deu aulas na PUC-RJ e morou no Jacarezinho, para um trabalho sobre favelas. Ele é professor catedrático emérito, em Coimbra, distinguished legal scholar na Universidade de Wisconsin-Madison e doutor em Sociologia do Direito em Yale. É também coordenador do projeto Alice – Estranhos Espelhos, Lições Insuspeitas, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação, projeto que busca renovar o conhecimento científico-social do Hemisfério Norte através de interação com o Hemisfério Sul e sua diversidade.

Publicamos aqui um trecho de A Difícil Democracia, lançado pela Boitempo. Outro se encontra no editorial da página 8.

“Quando um dia se puder caracterizar a época em que vivemos, o espanto maior será que se viveu tudo sem antes nem depois, substituindo a causalidade pela simultaneidade, a história pela notícia, a memória pelo silêncio, o futuro pelo passado, o problema pela solução. Assim, as atrocidades puderam ser atribuídas às vítimas, os agressores foram condecorados por sua coragem na luta contra as agressões, os ladrões foram juízes, os grandes decisores políticos puderam ter uma qualidade moral minúscula quando comparada com a enormidade das consequências de suas decisões. Foi uma época de excessos vividos como carências; a velocidade foi sempre menor do que devia ser; a destruição foi sempre justificada pela urgência em construir. O ouro foi o fundamento de tudo, mas estava fundado numa nuvem. Todos foram empreendedores, até provar-se o contrário, mas essa prova em contrário foi proibida pelas provas a favor. Houve inadaptados, mas a inadaptação mal se distinguia da adaptação, tantos foram os campos de concentração da heterodoxia dispersos pela cidade, pelos bares, pelas discotecas, pelo Facebook. A opinião pública passou a ser igual à privada de quem tinha poder para publicitá-la. O insulto tornou-se o meio mais eficaz de um ignorante ser intelectualmente igual a um sábio. Desenvolveu-se o modo de as embalagens inventarem seus próprios produtos e de não haver produtos para além delas. Por isso, as paisagens converteram-se em pacotes turísticos e as fontes e as nascentes tomaram a forma de garrafa. Mudaram os nomes às coisas para as coisas se esquecerem do que eram. Assim, desigualdade passou a chamar-se mérito; miséria, austeridade; hipocrisia, direitos humanos; guerra civil descontrolada, intervenção humanitária; guerra civil mitigada, democracia. A própria guerra passou a chamar-se paz para poder ser infinita. Também Guernica passou a ser apenas um quadro de Picasso para não estorvar o futuro do eterno presente. Foi uma época que começou com uma catástrofe, mas que em breve conseguiu transformar catástrofes em entretenimento. Quando uma catástrofe a sério sobreveio, parecia apenas uma nova série.”




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