Lava Jato e a Cultura

Por Celso Frateschi* |

O que tem a Lava Jato a ver com a cultura?

Talvez ela seja responsável pela maior mudança cultural em curso em nosso País. Ou talvez esteja apenas ampliando e consolidando comportamentos arraigados em nosso modo de ser e na nossa história. Talvez seja apenas uma recaída de nosso estado animal em que o que vale mesmo é a lei do mais forte, ou talvez seja a contraofensiva do projeto neoliberal para derrotar o projeto consagrado quatro vezes pelas urnas. A verdade é que a Operação Lava Jato, seus métodos e seus objetivos vêm se impondo como padrão de comportamento pela grande mídia, que vê na sua efetivação a garantia de seus privilégios. Estou me referindo à cultura da delação, do ódio de classe, da intolerância, do desrespeito aos direitos constitucionais do cidadão.

A Lava Jato se desenvolve do modo como se desenvolve porque há espaço na cultura brasileira para isso. Trata-se de uma cultura em que a delação, o favorecimento, o ódio de classes e a lei do mais forte são elementos fundamentais, ainda que convivam com elementos opostos, e a contundência com que vem se instalando é provocada pelo esboço do avanço das conquistas de direitos historicamente negados à maior parte de nossos cidadãos. Isso se observa no cotidiano de nossas relações em cada canto de nossas cidades e se observa também nos grandes acontecimentos políticos.

A Lava Jato reforça esses elementos da cultura brasileira e os utiliza a favor da manutenção de um sistema de poder. Ela cria uma narrativa que divide bem e mal, a narrativa de valores puritanos absolutos. Aproveitando um ressentimento profundamente arraigado em nosso modo de ser e a nossa baixa autoestima, acaba por reforçar com as delações premiadas a ideia de que os mais espertos se safam. Reforça a ideia de um bode expiatório, seja ele um líder, seja  um partido, um movimento, uma minoria, uma classe social, um membro de uma família ou grupo, tirando do foco as discussões conflitivas sobre o que realmente importa.

É preciso ressaltar que a operação teria potencialmente de positivo desmontar uma prática secular em nosso País que é a relação promíscua dos governos com setores do poder econômico, o que sem dúvida teria um efeito gigantesco sobre a nossa cultura política e  colocaria em xeque um modelo econômico que se abalaria profundamente com o fim dessas relações. O problema é que a operação se distanciou disso radicalmente, tornando-se o oposto. Só mesmo um idiota ou um mau caráter envolvido diretamente nesse embate pode considerar que o objetivo da Operação Lava Jato é combater a corrupção no País. A cada dia que passa fica mais claro que o foco dos procuradores e do juiz é bastante circunscrito. Se o alvo fosse a corrupção é cristalino que teriam que investigar e prender gente contra as quais existem muito mais que evidências geradoras de convicções duvidosas.

A grande mídia nos impõe uma mudança ainda mais perigosa: ao ser tão parcial e envolvida, não resiste à tentação de confundir realidade com ficção para forjar acontecimentos que favoreçam seus interesses. Essa confusão é fatal para qualquer sociedade. Para a grande mídia, o fato já não importa, mas apenas a versão que adiciona pontos a seu favor.

A Lava Jato já não se desenvolve como investigação, mas como roteiro de um reality show, ou de um teledrama em que o mocinho e o bandido devem vestir suas máscaras, sem deixar dúvidas para o espectador, que nunca presta muita atenção no que está assistindo. Transformaram os membros de nosso Poder Judiciário em celebridades e alguns parecem gostar da nova função. Assistimos à repetição exaustiva de um discurso ideológico e sem crítica que tanto lembra a ditadura.

A metodologia dos agentes da Lava Jato, procuradores, juízes e mídia, passa pelo estímulo moralista à delação e ao ódio aproveitando-se do ressentimento de uma classe média inconformada de dividir o seu status com aqueles que se beneficiaram com as políticas sociais dos governos eleitos nas últimas quatro eleições. A criação de uma espécie de pânico nessa classe média a partir de análises da crise econômica e a responsabilização dos programas sociais e da corrupção por essa crise, exclusivamente a dos petistas, geram nessas camadas o desejo de destruir e de matar tudo o que se caracteriza como diferente e que supostamente as ameaça, tudo o que se caracteriza como progressista de esquerda.

É evidente que a Lava Jato não existe por uma questão cultural  nem está preocupada especificamente com isso, mas seus efeitos no comportamento, no modo de agir dos brasileiros e, em última instância, na produção de conteúdos artísticos e culturais tendem a ser tão definitivos quanto os foram na ditadura militar.

A razão da Lava Jato está nos interesses do capital internacional e isso se revela cada vez mais. Esses interesses são contrários aos dos brasileiros, pois nos empobrecem, material e espiritualmente. Foi a partir da Lava Jato que essas forças efetivaram o golpe, nos impondo no governo aqueles que perderam as eleições presidenciais. Nas primeiras medidas do governo golpista estão as “flexibilizações” dos direitos sociais e individuais, amplamente defendidas pela grande mídia com os malabarismos verbais de seus comentaristas. Está também a reforma do ensino em que se defende a preparação de uma mão de obra barata em detrimento da formação do cidadão. É semelhante ao que aconteceu no período da ditadura militar, que condenou gerações e gerações à ignorância e ao estado em que ainda nos encontramos, apesar do esforço realizado pelos governos democráticos progressistas e que apenas começavam a dar algum resultado.

O desenvolvimento cultural e artístico de um povo está diretamente ligado ao desenvolvimento de sua cidadania e, por isso, desenvolvimento artístico e cultural acontece na democracia em sua plenitude. A arte só se concretiza na sua fruição. Ela não se produz nem se efetiva sem aquele ao qual o artista se dirige. Querem nos impor a volta a um tempo que já conhecemos. Um tempo que aprendemos a rejeitar pois não nos trouxe nada de útil. Um tempo de atraso. As riquezas que produzimos, materiais e imateriais, ou seja, a nossa cultura, mais uma vez serão desvalorizadas? Mais uma vez iremos nos deixar ser oprimidos pelas mentiras proclamadas pela grande mídia?

O que eles não conseguem entender é que não somos totalmente programáveis. Nós ainda raciocinamos e sempre nos restará um mínimo espírito crítico e isso basta para dizermos não e é esse não que nos fará permanecer vivos.

*Frateschi é ator, diretor e autor. É um dos fundadores do Teatro Núcleo Independente




Deixe um comentário / Leave a comment