Curitiba, Dramaturgia e Poder

Por Tales Ab´Saber * |

A política foi submetida ao mesmo espírito que move a grande vida imaginária das mercadorias, da cultura espetacular

No último lance público polêmico envolvendo a Operação Lava Jato e sua força-tarefa – do famoso juiz e dos midiáticos procuradores de Curitiba à Polícia Federal espetacular –, foi preso por cautela judiciária o ex-ministro da Fazenda dos governos Lula e Dilma Guido Mantega. Ele foi preso e solto, depois de algumas horas, como se sabe por motivos humanitários, uma vez que sua mulher se encontrava em um hospital, em tratamento de um câncer. Foi mesmo do próprio hospital, onde estava acompanhando a esposa doente, que o economista foi levado à prisão da Polícia Federal na qual deveria ter sido recolhido. A celeridade do despacho do juiz, que pode mandar prender e pode mandar soltar no mesmo dia, tudo indica, de acordo com elementos públicos que dizem respeito mais ao circuito das imagens, das opiniões e das fantasias ideológicas das massas do que ao próprio processo judiciário, ficou, outra vez, publicamente muito bem exposta.

Como se observou naquele momento, se era possível mandar soltar Guido Mantega horas depois de ele ser preso, então, também não havia necessidade preventiva de prendê-lo horas antes. O que se estava prevenindo com aquela ação, que se revelou apenas verdadeiramente supérflua? Para muitos de nós, é possível pensar que, mais uma vez, o peso da decisão equivocada do juiz estivesse ligado ao caráter estratégico próprio da imediatez da política, uma esfera em que a Lava Jato, desde a divulgação ilegal da fita da conversa do ex-presidente Lula com a então presidente Dilma Rousseff, adentrou abertamente. Pode-se pensar que os cálculos políticos da ação seriam precisos e efetivos. Faltando pouco mais de uma semana para a realização das eleições municipais, a prisão, que se revelou desnecessária, se explicava provavelmente como mera intervenção judiciária e policial no espaço da política corrente, não como necessidade de justiça substantiva, mas como ingerência estratégica na esfera das opiniões políticas, de fato, como uma espécie especial de propaganda.

Desse modo, através do ato, mais um quadro do xadrez imaginário antipetista deveria cair, alimentando a segunda etapa da nova política nacional de propaganda judiciária, a da inevitável escalada midiática anticorrupção petista nos dias que se seguiriam. E, com cálculo e sorte, a prisão estratégica já programada de Antonio Palocci, que aconteceria quatro dias depois, de fato na segunda-feira da semana das eleições municipais gerais – que foi anunciada cordialmente com antecedência de modo escandaloso pelo próprio ministro da Justiça do novo governo de direita –, duplicaria as apostas da política eleitoral do Judiciário, levando as cenas da corrupção petista para mais uma grande rodada de exploração universal pela imagem das massas, que certamente produziria ainda mais efeitos contra o partido de esquerda alijado do poder presidencial, agora nas eleições municipais de todo o País.

Por tudo isso, é importante notarmos como o efeito da figuração melodramática clássica no caso de Mantega, do homem à beira do leito de uma mulher doente, em que pese o direito humano envolvido do casal e lesado pela ação judicial policial, importou muito rapidamente ao juiz, tão ciente do efeito público de seus atos. Porque esses verdadeiros elementos humanitários eram também verdadeiras estruturas de linguagem tradicionais, topoi do campo das formas melodramáticas, nas quais as massas midiáticas são educadas cotidianamente – exatamente como o discurso apolítico, ou falsamente político, moralista contra a corrupção brasileira, desde que petista, também o é –, e essas formas simbólicas fortes poderiam fazer efeito reverso na política de imagem e de linguagem de massa, caso alguma coisa viesse a dar errado no episódio da doença difícil. O recuo rápido do juiz, sinalizado pelo interesse humanitário, que ele nunca apresentou em outras situações, indicava de fato um cálculo estratégico de linguagem, de fato de linguagem afeita ao espetáculo. Ele sabia que havia entrado em uma armadilha dos sentidos das coisas e necessitava proteger a sua própria construção de herói paladino, não deixando se confundir com o perverso vilão novelesco capaz de prender o marido de uma mulher doente que dele necessitava vitalmente.

Desse modo, desse ponto de vista, a política do juiz é uma política que produz imaginário espetacular e industrial, para ser operado e retransmitido infinitamente pela grande indústria, visando intervir na própria esfera da política. Ela é uma política de estruturas de sentido desenhadas precisamente para a máquina de repercussão que se criou ao seu redor, como uma novela da Globo necessita do Projac e da rede nacional de teledifusão para ser o que é. Como não poderia deixar de ser, nos nossos tempos, política, jogos de linguagem de massa e manipulação de mídia, que aparece como legítima e normal, sempre andam juntos. A política foi submetida ao mesmo espírito que move a grande vida imaginária das mercadorias, da cultura espetacular. E é o nosso desejo acrítico por elas, e sua vida dura, mas feliz na imagem, que alimenta esse estado regredido, sem conceito nem história, da política em quiasma com o espetáculo.

Guido Mantega foi um economista político muito importante na história do Brasil recente. Ministro do Planejamento, presidente do BNDES, ministro da Fazenda – depois de Antonio Palocci – de Lula e durante todo o primeiro mandato de Dilma Rousseff, ele assumiu uma missão político-econômica especial. Ele manteve viva durante anos a hipótese desenvolvimentista que buscava intervir na estrutura da economia brasileira orientada para financeirização do capital local, em detrimento do desenvolvimento industrial do País. Homem forte da política econômica de Dilma Rousseff, na medida limitada em que ela permitia que alguém pudesse ser chamado de homem forte, Mantega, em conjunto com Luciano Coutinho e a própria presidente, construiu as bases das práticas de governo que ficaram conhecidas como a nova matriz econômica, que mais tarde seria arrasada ideologicamente em uma intensíssima luta de interesses. Fazendo casar R$ 325 bilhões de desonerações fiscais visando o setor industrial nacional, com uma política de redução de juros ativa, que levou à queda da taxa Selic de 12,5% de agosto de 2011 a 7,5% em novembro de 2012 (nível que perdurou até abril de 2013) de modo a chegar ao menor patamar de todos os tempos e aí ficar, o governo visava criar condições para a conversão de capital em indústria e em atividades produtivas, o que o empresariado nacional, apesar de aceitar os estímulos com grande satisfação, não realizou. Dado o adiantado da hora da crise dos fluxos mundiais de capital que envolviam o Brasil – no período a China desacelerou a sua economia em mais de 50%, fechando dezenas de milhares de fábricas… – e a oposição financista dos bancos, que disparou o processo de crítica forte, e por fim radical, à tentativa do governo de manter o País aquecido e empregando, em um processo que organizou os textos de fundo das manifestações políticas, convocando a velha direita antissocial brasileira, que acabou por inviabilizar o governo petista, a nova política desenvolvimentista do governo e do ministro Mantega foi de fato plenamente derrotada.

Mas não há dúvida de que a tentativa de gestão política, o trabalho realizado e os horizontes buscados eram legítimos e desejáveis. As condições macroeconômicas globais e a tempestade da luta política interna, em grande parte regressiva – como se mostrou regressiva em direitos humanos e das minorias, em ataques aos itens sociais da Constituição, em aumento espetacular do poder do rentismo, etc. – derrotaram um projeto político econômico positivo e de interesse social amplo.
O que de fato impressiona no processo histórico movido pela nova/velha direita, e envolvendo aí a ação política de linguagem e seletiva da operação judiciária Lava Jato, é como todo tipo de dado histórico real sobre o passado recente, que situaria o fenômeno político para a sua avaliação, foi varrido do plano da consciência pública, como se jamais tivesse existido. Tudo o que foi feito nos anos de governos petistas – por exemplo, os cinco anos de crescimento acima do PIB mundial dos oito anos de governo de Lula, a efetiva mudança de posição na renda e no consumo de milhões de brasileiros, a liberdade de ação plena para a polícia federal, inexistente nos governos anteriores, a criação de 12 novas universidades federais, a expansão nacional dos pontos de cultura, entre tantas outras ações de interesse coletivo – simplesmente deixou de existir na nova consciência alinhada por um discurso à direita, que não se constituiu através do embate público democrático de uma eleição. A força de recalcamento, descontinuidade simbólica, desprezo pela história e pelo outro político, em nome de certezas autoimpingidas, e que precisam gritar o seu nome como ato, no limite da violência, nas ruas, impressiona. Ela demonstra de fato a existência de um corpo social insólito e dissociado, que não sabe distinguir processos históricos efetivos da força do desejo imediato do polo mais forte da vida social. E não há dúvida de que a Lava Jato tem servido muito, estrategicamente, como dispositivo produtor de ideologia, a isso.

Da perspectiva a-histórica alimentada pelo show midiático de direita da operação, Guido Mantega, como todo o campo da esquerda brasileira, não foi o portador do processo civilizatório, que durante anos, através de práticas democráticas, alterou patamares sociais e o semblante das classes no Brasil, aumentando de fato a riqueza coletiva. Não. Segundo o novo texto oficial, tratava-se apenas de uma facção criminosa que, operando com a estrutura corrupta universal da política brasileira, inventou a corrupção no Brasil. O economista não representou o projeto civilizatório que sustentou politicamente por anos. Não. Ele estava lá apenas para operar tráfico de valores entre o empresariado nacional e o PT.

Ele foi preso, e solto horas depois por motivos midiáticos, pelos cálculos dramatúrgicos do juiz, por ter pedido, em uma afirmação sem provas, dinheiro para o seu partido ao empresário Eike Batista, sabidamente um homem sério. Exatamente, precisamente, como Michel Temer teria pedido dinheiro para o seu partido ao ex-senador tucano Sérgio Machado, presidente da Transpetro, que o denunciou. Bem como também afirmou ter dado dinheiro ilegal para Aécio Neves e para as campanhas tucanas ao Congresso. Bem como, nas suas palavras na Lava Jato, também transmitiu dinheiro ilegal a 28 políticos, de oito partidos. O homem indicado pelo PMDB para uma diretoria da Petrobras, ex-político do partido e também tucano, teria repassado, apenas ao PMDB, ao menos R$ 100 milhões de modo ilegal. Mas, como se sabe, nenhum desses homens foi preso na semana das eleições municipais.

No jogo político pesado da Lava Jato, que é também um grande show de massas de invenção de vilanias, enquanto Temer se tornou presidente, implicado exatamente nos mesmos possíveis crimes de Mantega, o ex-ministro petista e o seu partido devem encarnar o mal da corrupção nacional, purgar para as massas uma falsa moralização da política e pagar o preço do Brasil sozinhos. Assim, apaga-se a história, liberam-se os falsos honestos da direita, para, sem o constrangimento das urnas e da oposição, fazerem do Brasil aquilo o que bem desejam, um imensa máquina efetiva e perversa que se tornou a nova ordem do poder no Brasil.

*Psicanalista e professor de Filosofia da Psicanálise da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)




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