A história

Por Hélio Campos Mello |

O passado auxilia no entendimento do presente, explica nossas características, nossas qualidades e nossos defeitos

Tenho em mãos dois livros, um deles recém-lançado pela Editora Contexto, História do Brasil República da Queda da Monarquia ao Fim do Estado Novo, escrito por Marcos Napolitano, nosso colaborador. Ele é doutor em História Social pela USP e professor do Departamento de História na mesma Universidade de São Paulo.

É bom mergulhar na História. Além do prazer da leitura, isto ajuda a reavivar a memória. O passado auxilia no entendimento do presente, explica nossas características, nossas qualidades.

E nossos defeitos. Como o preconceito e a intolerância. É importante, por exemplo, não esquecer que, em 1888, fomos o último país do mundo a abrir mão da escravidão.

Na introdução do livro de Napolitano pode-se ler o seguinte trecho:
“Não por acaso, os escravos não eram considerados ‘cidadãos’, mas ‘bens que se movem’, e estavam fora do alcance das limitadas leis que definiam a cidadania e os direitos civis sob a Monarquia. Em nome desse mesmo liberalismo, os proprietários (de terras e escravos) que constituíam as elites brasileiras de então afirmavam direito absoluto à propriedade, incluindo-se aí a propriedade sobre outros seres humanos. O Brasil, como nação independente, nasceu sob essa contradição, e, ainda hoje, início do século XXI, não superou completamente seus terríveis efeitos sobre a sociedade em seu conjunto”.

O outro livro, em fase de lançamento pela editora Boitempo, é A Difícil Democracia, escrito pelo cientista político português Boaventura de Sousa Santos. Entre as prestigiadas conexões do autor estão a Universidade de Coimbra, onde é professor catedrático emérito na faculdade de Economia, a Universidade de Wisconsin-Madison, onde é distinguished legal scholar da faculdade de Direito, e a de Yale. onde é doutor em Sociologia do Direito.

A seguir alguns trechos da obra, que tem como subtítulo Reinventar as Esquerdas: “A partir do fim da década de 1980, o pluralismo e a diversidade foram desaparecendo, e o debate, ou o não debate, passou a centrar-se na democracia liberal, enquanto esta sub-repticiamente se transformava em algo bem distinto: a democracia neoliberal…Na primeira década do século atual, foram criadas na América Latina as condições políticas para repor o debate sobre o pluralismo e a diversidade democrática e, com isso, restabelecer na prática o princípio da demodiversidade. As condições foram, obviamente, as dos governos de esquerda que, no bojo de fortes movimentos sociais, chegaram ao poder… Infelizmente, perante as urgências da governança e os tipos de regimes políticos em que elas se inseriram, o debate nunca teve lugar ou, quando teve, ficou muito aquém das expectativas. A segunda década do milênio está dominada, talvez como nunca, pelo monopólio de uma concepção de democracia de tão baixa intensidade que facilmente se confunde com a antidemocracia. Com cada vez mais infeliz convicção, vivemos em sociedades politicamente democráticas e socialmente fascistas… Até quando o fascismo se mantém como regime social e não passa a fascismo político, essa é uma questão em aberto.”

Continuando no assunto e fiéis a um dos lemas da Brasileiros, “mais que informação, reflexão”, submetemos as turbulências políticas e econômicas nacionais, atual­mente experimentadas, à analise de especialistas de variadas tendências.

A proposta inicial era olhar a Operação Lava Jato, no que ela tem de bom e de ruim. Com os resultados das eleições municipais do dia 2 de outubro, ampliamos a abordagem – até porque os temas são conectados – para incluir a derrota do Partido dos Trabalhadores, que não conseguiu sustentar sua presença no poder, apesar de ter promovido e implementado importantíssimas conquistas sociais nos últimos anos, e o futuro da esquerda no País.

Para isso, cientistas políticos, juristas, economistas, filósofos, historiadores, psicanalistas, professores contribuíram com seus comentários sobre este Brasil e suas tempestades atuais. Os que por aqui não aparecem, não foi por falta de convite, como, por exemplo, Fernando Henrique Cardoso, o decano peessedebista. Convidado para falar sobre a democracia e o momento que vivemos, o destacado tucano, infelizmente, não pôde nos atender. O mesmo aconteceu com Geraldo Alckmin, a nova estrela do tucanato, e com José Aníbal e Andrea Matarazzo.

Mas o nível das análises aqui apresentadas faz desta edição consistente fonte de consulta sobre um momento da nação que está entre os mais importantes, conturbados e polêmicos e cujo julgamento provavelmente transcenderá o Supremo Tribunal Federal, as primeiras e as segundas instâncias.
O veredito, com certeza, ficará a cargo dela: a História. Boa leitura.




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