Enquanto o governador removia favelas para embelezar a zona Sul do Rio de Janeiro, policiais afogavam mendigos em rios

Reportagem com Olindina, a mendiga que escapou da morte por afogamento  – Foto: Reprodução

Reportagem do Última Hora com Olindina, a mendiga que escapou da morte por afogamento – Foto: Reprodução

Olindina Alves Japiassu sabia nadar. Foi a sua sorte. Junto com outros cinco mendigos, ela foi atirada por policiais de uma ponte de mais de dez metros de altura sobre o rio da Guarda, no Rio de Janeiro. Em vez de tentar chegar logo à margem, ela deixou-se levar pela correnteza. Só saiu da água quando os policiais travestidos de exterminadores não podiam avistá-la.

“Com o corpo lanhado, uma série de cicatrizes no rosto, (Olindina) comunicou a monstruosidade a este jornal e, imediatamente, foi internada como louca no Hospital de Alienados do Engenho de Dentro, por determinação do Delegado do 36º DP, Ariosto Fontana”, publicou o Última Hora, em sua edição da quarta-feira 23 de janeiro de 1963.

Olindina foi tirada de circulação, mas a denúncia se espalhou. Um grupo de extermínio estava afogando os sem-teto que encontrava pelas ruas. Naquela altura, 13 mendigos haviam sido mortos no rio da Guarda ou no Guandu. O Última Hora, jornal de oposição ao governador Carlos Lacerda, só parou de publicar a notícia quando o grupo de extermínio foi preso.

O governador, por sua vez, não demorou a ser chamado de Lacerda, o Mata-mendigos, embora não existissem evidências de vínculos seus com o grupo. Só que, desde o suicídio do presidente Getúlio Vargas, de quem fora algoz, Lacerda ganhara fama como político que não gostava da população mais carente. Afinal, Getúlio fora clamado como o “pai dos pobres”.

O governador da Guanabara, Carlos Lacerda – Foto: Reprodução

O governador da Guanabara, Carlos Lacerda – Foto: Reprodução

Como se não bastasse, à frente do governo, Lacerda vinha removendo favelas da zona Sul e transferindo os moradores para conjuntos habitacionais construídos nos subúrbios da zona Oeste, como o da Cidade de Deus. O plano era embelezar a cidade. Não por acaso, correu o boato de que ele também desejava despachar favelados para suas cidades de origem.

O certo é que o delegado Alcino Pinto Nunes, chefe de uma bizarra repartição pública – o Serviço de Repressão à Mendicância –, seis policiais e um alcaguete foram condenados pelos crimes. No começo dos anos 1970, Alcino e dois desses homens cumpriam pena em um regimento da Polícia Militar, para onde foi transferido o preso político Álvaro Caldas.

Os dois homens ocupavam celas próximas à de Álvaro Caldas, que, no livro Tirando o Capuz, descreve um deles, o policial conhecido como Tranca-Rua, como “quase um gigante no tamanho e na força, mas sem o menor traço de inteligência”. O outro, seu Nílton, antigo contínuo do Jornal do Brasil, tinha sido alcaguete da polícia.

Com pena de mais de 200 anos de prisão, seu Nílton defendia-se dizendo que “apenas” acompanhou algumas vezes a operação: “Ele trabalhava na faxina do quartel e toda tarde, quando retornava para o seu canto, passava na nossa cela e fazia um discurso revoltado contra o ex-governador Carlos Lacerda, contra o delegado Alcino e os demais acusados no processo, que pegaram penas muito mais brandas.”

O escândalo na manchete do jornal Última Hora – Foto: Reprodução

O escândalo na manchete do jornal Última Hora – Foto: Reprodução

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