Organizada pela Galeria Vermelho em parceria com o Videobrasil, a mostra reúne cerca de 25 performances que tratam de temas como a violência contra a mulher e os desastres ambientais

"Mulher-espinho", Julha Franz. Foto: Divulgação

“Mulher-espinho”, Julha Franz. Foto: Divulgação

Pequeno e aparentemente frágil, o porco-espinho precisou se adaptar para sobreviver ao mundo animal. Seu corpo desenvolveu espinhos muito duros que, assim que um inimigo se aproxima, podem ser uma eficaz arma de defesa. Foi pensando nesse exemplo da natureza que a artista Julha Franz concebeu a sua performance Mulher-espinho. Nua e coberta por mais de 1000 percevejos, a artista encara o público, numa metáfora da condição feminina. A ação faz parte da mostra VERBO, que começa nesta terça-feira (11/7) na Galeria Vermelho.

Iniciada em 2005, a VERBO foi criada com o objetivo de divulgar a performance, sendo um espaço de encontro entre artistas nacionais e estrangeiros. Em sua 13ª edição, a mostra reúne cerca de 25 ações, quase todas inéditas, que serão apresentadas na galeria ao longo de quatro dias. Outra novidade deste ano é a parceria com a Associação Cultural Videobrasil. Em uma sala da Vermelho, serão exibidas obras do acervo do Videobrasil que dialogam com a mostra. Além disso, a instituição apresenta uma temporada de dança, com a bailarina Clarissa Sacchelli, que integra a programação da VERBO.

Com temáticas politizadas, os trabalhos desta edição foram escolhidas perante um total de 220 projetos inscritos. O diretor artístico do evento, Marcos Gallon, explica que os eixos curatoriais da mostra foram construídos junto com a seleção. “Nosso primeiro passo é ler todos os projetos inscritos. A partir daí identificamos quais são os temas mais abordados pelos artistas”. Ele afirma que, neste ano, sobressaíram-se as questões das minorias, representadas pela pauta feminista e trans, e também do meio-ambiente, como o caso do desastre da cidade de Mariana (MG).

Na performance Transbordação, por exemplo, um paredão de mulheres lado a lado, em pé, vestindo calças e roupas sóbrias, inspiram e expiram em uníssono. Concebida pela artista Dora Smék, a ação problematiza a posição da mulher no contexto atual. O belga Anthony Nestel, por sua vez, convida o público a refletir sobre o deslocamento de refugiados e os discursos da extrema direita que emergem no cenário político contemporâneo.

As obras chamam atenção para os corpos das minorias, muitas vezes violentados pela sociedade ou pelo próprio Estado: “ Embora sejam corpos fragilizados, essa fragilidade cria porosidade e uma capacidade muito maior de transformação. E a performance tem tudo a ver com isso. Quando um artista apresenta algo ao vivo, seu corpo precisa ser totalmente permeável ao contato com o observador”, pontua Gallon.

O organizador do evento também comenta as diferenças entre essa edição e a anterior. “No ano passado, o Brasil havia sofrido um golpe. Muitos trabalhos traziam a ideia do não fazer, da impossibilidade de criar algo tão potente quanto os protestos que aconteciam nas ruas. Neste ano, já digerimos melhor o que aconteceu, os artistas têm um léxico mais afiado”.

Na nova edição também se destacam as ações que contam com grandes elencos, como a de Dora Smék, que envolve cerca de 40 participantes, ou a de Maurício Ianês que, no último dia da mostra, deve reunir mais de 100 pessoas na galeria. Com tantas gente envolvida, a mostra é vista, por Gallon, como uma ação coletiva. “Não penso na VERBO como um conjunto de projetos individuais, mas uma grande atitude, um acontecimento que tem algo a dizer”, afirma.

Um dos poucos eventos da cidade dedicado à performance, a mostra também reforça a relevância dessa linguagem. Segundo Gallon, as performances vendem menos do que outros tipos de obras. “Essa forma de arte ainda não tem uma completa inserção no mercado. Há uma série de dificuldades que tem a ver com o suporte, ou seja, o fato de serem ações efêmeras”. Mas, acima de tudo, Gallon arrisca dizer que a performance ainda não está amplamente inserida por ser uma linguagem muito “contundente”: “Ela traz críticas ao próprio contexto onde a arte está inserida: os museus, as galerias e centros culturais”.

Serviço- VERBO 2017: Mostra de Performance Arte
De 11 a 15 de julho
Galeria Vermelho – Rua Minas Gerais, 350, São Paulo – Tel.: 11 3138-1520
Galpão VB – Av. Imperatriz Leopoldina, 1150, São Paulo – Tel.: 11 3645-0516

Link curto: http://brasileiros.com.br/dM5HC
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