Conhecido por apresentar o “Big Brother Brasil” durante 14 anos, Pedro Bial tem um passado ofuscado pela fama conquistada no reality show. Antes de seguir a lei do mercado, como ele mesmo disse, e de se tornar uma das figuras mais conhecidas da televisão do País, foi jogador de basquete profissional e, durante oito anos, correspondente internacional em Londres pela Rede Globo

Pedro Bial durante a entrevista para Revista Brasileiros. Foto: Hélio Campos Mello

Pedro Bial durante a entrevista para Revista Brasileiros. Foto: Hélio Campos Mello

Em uma mesa no canto de um restaurante tradicional de São Paulo, o Rei do Filet, conhecido pelo famoso Filé do Morais, Pedro Bial, um dos apresentadores mais populares da televisão brasileira, aguardava a reportagem de Brasileiros tomando uma cerveja gelada e aproveitando seu dia de folga depois de encarar uma maratona de gravações de seu novo programa, o talk show Conversa com Bial. Conhecido por apresentar o Big Brother Brasil durante 14 anos, o jornalista tem um passado ofuscado pela fama conquistada no reality show. Antes de seguir a “lei do mercado” e se tornar uma das figuras mais conhecidas da televisão aberta do País, Pedro Bial foi também jogador de basquete profissional e correspondente internacional em Londres pela Rede Globo, durante oito anos. A trajetória do apresentador é tão diversificada que antes de iniciarmos a conversa ele se levantou e foi ao banheiro para jogar uma água no rosto. “Fico nervoso quando tenho que falar de mim”, justificou.

De correspondente internacional a apresentador do BBB. Do “hard news” para o entretenimento. Da adrenalina dos campos de guerra para o climatizado ar condicionado dos estúdios da emissora carioca. Um personagem que coleciona muitos fãs, mas também críticos. Para conseguir encarar todas essas mudanças, Bial se diz “adepto da psicanálise”. Quando correspondente, o jornalista, que beirava os 30 anos, viu o século 20 “cair” em suas mãos. Ele cobriu o colapso da União Soviética, a Guerra do Golfo, assim como diversos conflitos na Europa Oriental, como e de Sarajevo, na Sérvia, onde ficou mais de 20 dias, “sua pior experiência de guerra na vida”. Em 1989, entrou ao vivo na programação de Globo para, em frente ao Portão de Brandemburgo, documentar a unificação da Alemanha. Além disso, oito anos de trabalho em Londres lhe custaram o casamento.Eu achava que nunca voltaria. No último ano me separei, não há companheira que suporte uma vida dessas.”

 

Pedro Bial durante a cobertura dos conflitos na Romênia

Pedro Bial durante a cobertura dos conflitos na Romênia em 1989

Durante o período fora do Brasil, o então repórter passou a lidar com uma dimensão de fama até então desconhecida por ele. “Quando eu estava fora, era preservado dessa compreensão de ser uma pessoa pública, principalmente porque não existia internet. Foi muito difícil voltar, porque, entre outras coisas que aconteceram, rolou um deslumbramento. Até cair a ficha eu dei uma deslumbrada e foi um preço pessoal muito grande que paguei. Sou um adepto da psicanálise desde sempre e procuro me tratar. Mas a crise, quando eu voltei para o Brasil, foi tão profunda que eu tive que ir para a psiquiatria mesmo. Entrei em depressão, tomei remédio. Isso me salvou. Eu ia me foder.”

Em seu regresso, Bial conta que passou por duas transições muito difíceis em sua carreira. A primeira foi o desafio de superar uma guerra. “Você não passa impunemente pela cobertura de uma guerra, um terremoto. Aquilo fica. Você passa o dia em um submundo, um inferno, e quando você volta para casa, não tem interlocução possível, ninguém vai entender de onde você veio. Estou terminando de montar um filme sobre a vida dos agentes penitenciários, e tem um entrevistado que descreve esta sensação de maneira linda.  Ele conta: ‘teve um dia que fiquei como refém, me deram porrada, botaram faca no meu pescoço, decapitaram um cara na minha frente. Eu cheguei em casa e contei para minha mulher tudo que tinha acontecido. Ela respondeu: Fiz macarrão’. São experiências que você não consegue compartilhar.”

A outra difícil adaptação teve como palco os estúdios de televisão para onde foi designado depois de voltar ao Brasil. “A minha volta foi um baque pessoal e profissional. Voltar da correspondência para apresentar o Fantástico me deixou muito desconfortável. Eu não entendia. Estava formado, muito careta, na escola ‘correspondente da BBC’ daí tive que apresentar um programa que mistura notícia e entretenimento. Foi difícil.”

Pedro Bial no muro de Berlim após a unificação da Alemanha

Pedro Bial na queda do Muro de Berlim após a unificação da Alemanha

Depois de três anos no Fantástico, Bial foi convidado para apresentar o Big Brother Brasil, o reality show mais longevo da história da televisão brasileira. Foi aí que sua carreira começou a tomar outro rumo. Sua imagem ficou muito mais conhecida no País, mas, ao mesmo tempo, as críticas ao novo posto começaram a pipocar. Como um correspondente internacional com uma bagagem jornalística tamanha se submete a apresentar um reality show? Para ele, a resposta é simples: “é a lei do mercado”.

Ao longo de 14 anos, Bial exerceu o posto de apresentador do programa, onde, entre outras coisas, popularizou o bordão “vamos dar uma espiadinha”. Agora, em seu primeiro ano “fora do aquário”, consegue entender as críticas que lhe foram feitas. “Na profissão a gente tem missões, e o BBB foi assim.  Me deram uma missão e eu fui cumprir. Me emburaquei. Hoje, até entendo melhor o tanto de porrada que tomei. Percebi que havia um amor nas porradas, no sentido de que o ‘correspondente traiu a todo mundo’. As pessoas se sentiram traídas. Como é que o Bial vai fazer esse programa? Mas também vi nobreza no BBB. Vi nobreza em fazer aquilo. Falei com vários tipos de públicos, com classes que nunca tinha falado na vida. Mas agora, quando vejo a coisa de fora penso: ‘Dá para entender porque as pessoas estavam dando tanta porrada’. Mesmo assim é horrível apanhar. Comprei minhas piores versões sobre a minha própria pessoa. Comecei a acreditar que eu era um merda, um vendido.

O divisor de águas para o atual momento de Pedro Bial foi o programa Na Moral, quando ele ainda apresentava o BBB e tentou ressuscitar sua veia jornalística. “Se não tivesse rolado o Na Moral, não teriam me chamado para fazer o Conversa. Eu estava há oito anos fazendo o BBB e pensei: ‘Se eu não criar alguma coisa, acabou. Eu tenho que juntar o correspondente que fui com esse apresentador do BBB, e foi então que surgiu o Na Moral. Uma diretriz desse programa que eu trouxe para o Conversa, é evitar a macropolítica e ir para a micropolítica.”

Pedro Bial foi apresentador do Big Brother Brasil por 14 anos

Pedro Bial foi apresentador do Big Brother Brasil por 14 anos. Foto: Reprodução / Rede Globo

Gravado em São Paulo, Conversas com Bial tem tomado boa parte do tempo de seu apresentador. Agora o jornalista se divide entre a capital paulista e o Rio de Janeiro, onde reside. Feliz com a repercussão positiva de seu novo programa, ele conta que vem trabalhando duro. “Estou no limite. Neste começo de temporada estou muito sobrecarregado e tenho de fazer coisas que parecem que vão me levar a pifar fisicamente. Ontem mesmo gravei três programas, anteontem outros três. Cada programa tem que render 50 minutos para botar no ar, além da loucura de no mesmo dia  ter de ‘mudar o canal’. Ontem, os primeiros foram Clarice e Ivo Herzog, Miriam e Matheus Leitão, para falar de memórias da ditadura. Imagina o peso desse programa? Ai, disso, partimos para um programa com os jogadores Marcel e Raulzinho, e o Davi, um publicitário que tem a tese de que o basquete que a NBA joga hoje é fruto do basquete brasileiro do Pan de 1987. E no último programa, o Nando Reis. Então, imagina…”

Aos 59 anos, Bial entra em uma nova fase de sua vida. Pai de cinco filhos, o apresentador se casou com a jornalista Maria Prata em 2015 e espera agora seu sexto filho, a pequena Laura. “Estou achando muito legal ser pai a essa altura do campeonato, algo tão inusitado. Com 60 anos eu vou estar trocando fraldas que não as minhas”, brinca.  

Origem
Filho de imigrantes alemães que fugiram para o Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, Bial foi criado no Rio de Janeiro. Companheiro de classe do cantor Cazuza no colégio Santo Ignácio, foi apresentado ao jornalismo da melhor maneira possível. Aos 11 anos de idade, teve como dever de casa fazer uma entrevista com algum desconhecido. Foi então que João Araújo, pai de Cazuza, levou os meninos para entrevistar nada mais nada menos que o poetinha Vinicius de Moraes. “A gente ficou das dez da manhã até às dez da noite, e o Vinicius nos deu um porre. Deu uísque pra gente. Foi a primeira entrevista que eu fiz na vida. Foi um bom começo de carreira.”

Com 1,92m de altura, Bial foi jogador profissional de basquete pela seleção brasileira e pelo Fluminense, time do qual é torcedor fanático devido a influência de seu pai. “Ele era viciado em corrida de cavalo e trocou os cavalos pelo Fluminense. Uma vez a gente foi para Campo Grande assistir a um jogo, o estádio estava lotado e só entravam sócios do clube mandante. Ele comprou os títulos do clube para assistirmos o jogo e o Fluminense perdeu.”

Questionado sobre o por quê de trocar o basquete pelo jornalismo, Bial passa a bola para Oscar Schmidt, um dos maiores jogadores da história do esporte no País. “Quando entrei em quadra para jogar contra o Oscar, percebi que aquilo não era para mim”. Formado em jornalismo pela PUC-RJ, o estudante teve bolsa para cursar a universidade. Metade pelo basquete e metade pelo governo alemão, que pagava uma “compensação de guerra”, pois seus pais tiveram que deixar a Alemanha durante o nazismo. 

Veja depoimento sobre a transição de Pedro Bial do basquete para o jornalismo

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Pelé, o nome que salva vidas
Em umas das coberturas de guerra, Bial foi a Angola, em 1992, cobrir as primeiras eleições livres que, no entanto, tinham dado errado. Ele conta que o país estava “uma zona”, como tiroteios na rua e corpos estendidos no meio da capital, Luanda. “Durante a cobertura fomos abordados, em uma estrada no meio do nada, por um grupo de rebeldes que queria matar o nosso motorista. Ele era angolano, mas de uma etnia oposta à deles e, por isso, queriam matá-lo. Na hora, comecei a falar com o guerrilheiro e consegui convencê-los a não matarem o cara. Levaram ele para um casebre do lado da estrada para interrogá-lo. Nessas horas você tenta desanuviar. Aí o Paulo Pimentel, que estava de câmera disse: ‘Somos Brasileiros. Brasil… Pelé’, o nome que salva vida da gente em tudo que é lugar. Aí o menino, que tinha sido criado no meio do mato, perguntou: Quem é Pelé? Eu pensei: ‘Fodeu, vamos morrer aqui!’. No final, liberaram nosso motorista e seguimos viagem.” Outro episodio de guerra relatado pelo correspondente ocorreu durante a Copa do Mundo de Futebol de 1994, vencida pelo Brasil nos Estados Unidos, quando Bial estava em Sarajevo, na Bósnia. “Os sérvios e os muçulmanos torciam pelo Brasil. Foi a trégua não declarada onde todo mundo parava para assistir o jogo da nossa seleção.”

Veja o apresentador narrar o tenso episódio vivido em Angola

Roberto Marinho
Além do BBB, outro episódio polêmico na vida de Pedro Bial foi o livro sobre Roberto Marinho, encomendado pela família do empresário fundador da Rede Globo e lançado em 2004. Hoje, o autor do livro vê uma atitude reativa quase infantil à obra. “Tinha uma atitude defensiva que não me foi pedida pelos filhos. Ninguém pediu para eu defender o Roberto Marinho, mas para dar sentido àquilo, apontei umas coisas defendendo o cara, que não precisava narrar. Eu acho uma história fascinante. O cara não era o diabo. Não adianta você querer demonizar um cara que foi o maior empresário da história da comunicação brasileira. Não dá nem para comparar o Roberto Marinho com o Chatô (o empresário Assis Chateaubriand, um dos pioneiros da TV no País)”.

De que lado você samba
O chamado “fla-flu ideológico” é uma pauta que chama atenção na conjuntura atual do País. Para Pedro Bial, isso se torna ainda mais presente devido ao novo programa e seus respectivos convidados. Em uma de suas entrevistas, o apresentador perguntou a Ney Matogrosso se a deposição de Dilma Rousseff tinha sido um impeachment, de fato, ou um golpe e ele diz ter acordado na manhã seguinte com um linchamento virtual do MBL (Movimento Brasil Livre), que afirmava que o apresentador tentou induzir a resposta de Ney, classificando ainda a emissora carioca de “esquerdista”.  “A TV Globo esquerdista? É muita obtusidade”, conta aos risos.

Em meio a essa polarização, Bial acredita que em seu programa pode chamar pessoas de diferentes ideologias para tratar dos temas atuais. E mesmo com essa crise que assola o Brasil, ele defende que o mundo “nunca esteve tão bom”.  “Você pega o último século, a diminuição da pobreza absoluta é muito significativa, é enorme. Tem um monte de indicador bacana. No varejo é deprimente, mas você tem que olhar o atacado. As pessoas são tão apegadas às suas convicções e suas crenças que não têm o mínimo de compaixão pelas pessoas que sofrem com isso.”

Voltando à polarização entre direita e esquerda, o apresentador pondera estar mais à direita, mas diz que tal distinção é irrelevante para os dias de hoje. “Eu não sou de esquerda. Mas também não me sinto à vontade para dizer que sou de direita. Se você me pressionar, vou dizer que estou mais para direita. Pergunte como o Fernando Gabeira pensa. Eu penso um pouco como ele. Eu tenho o Gabeira como um farol. Se você me botar contra a parede eu vou mais para direita, mas acho isso quase irrelevante, por incrível que pareça. Uma vez que a esquerda não é o bem absoluto, a direita deixa de ser o mal absoluto. O ser humano que Shakespeare descreve é o mesmo que somos hoje.”

O jornalismo
Com quase 40 anos de carreira, a principal conquista para o apresentador são seus filhos, que ditam o sentido de sua vida. Prestes a repetir a experiência de ser pai, Pedro Bial concentra suas energias na gravidez de sua mulher e em seu novo programa. Na conclusão desta conversa, revelou ainda que, em 2018, pretende publicar um livro de poesias que escreveu ao longo de sua vida, e inclusive declamou uma delas para a reportagem da Brasileiros.  Questionado sobre o que é ser um jornalista, o apresentador abriu o bloco de notas do celular e leu em voz alta o primeiro parágrafo do livro O Jornalista e o Assassino, de Janet Malcolm, que tem gravado em seu celular:  “Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável. Ele é uma espécie de confidente, que se nutre da vaidade, da ignorância ou da solidão das pessoas. Tal como a viúva confiante, que acorda um belo dia e descobre que aquele rapaz encantador e todas as suas economias sumiram, o indivíduo que consente em ser tema de um escrito não ficcional aprende — quando o artigo ou livro aparece — a sua própria dura lição. Os jornalistas justificam a própria traição de várias maneiras, de acordo com o temperamento de cada um. Os mais pomposos falam de liberdade de expressão e do ‘direito do público saber'; os menos talentosos falam sobre a arte; os mais decentes murmuram algo sobre ganhar a vida.”

 

Pedro Bial em seu novo programa Conversas com Bial. Foto: Reprodução Facebook

Pedro Bial em seu novo programa Conversa com Bial. Foto: Reprodução / Facebook

 

 

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  • Sergio Citroni

    Ele só não falou que, além de apresentador do BBB, ele foi produtor, ou seja, ele comprou o programa da Globo e ganhou dinheiro com ele….