Bárbara Wagner cria obras a partir da observação de cultos evangélicos, do universo do funk e de outros fenômenos de massa e expressões coletivas

Universal, foto que integra a série Crentes e Pregadores (2014), de Bárbara Wagner

Universal, foto que integra a série Crentes e Pregadores (2014), de Bárbara Wagner

De 2005 a 2007, Bárbara Wagner fotografou os banhistas de Brasília Teimosa, bairro popular na zona sul do Recife. Em suas andanças pelo local, conheceu Charles, um segurança que costumava frequentar a praia. O novo amigo começou a ajudá-la no trabalho, segurando o flash enquanto a artista fotografava. Quando as imagens finalmente foram exibidas em uma galeria, Charles foi o primeiro a ver a exposição. Com semblante sério, o segurança andou pela mostra inteira e pronunciou-se para a artista, já ansiosa: “Bárbara, que molduras bonitas”.

Rindo, ela relembra essa história para ilustrar o caráter de troca que caracteriza sua produção: “É engraçado. Para Charles, a moldura era a verdadeira manifestação de arte e não as fotos. Diálogos como esse são essenciais para o meu trabalho, é assim que vejo como tudo é relativo. Aquilo que muitas vezes consideramos excepcional, pode ser tomado como ordinário pelo outro”, diz. O olhar voltado para o “corpo popular”, como define a artista, é o ponto central de sua obra, que investiga estratégias de visibilidade adotadas pelas classes populares.

Formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco, Bárbara começou a trabalhar como artista nos anos 2000, atuando na fronteira com o documental. A brasiliense, que já expôs em mostras como a 32ª Bienal de São Paulo e o 33º Panorama de Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, foi selecionada para a nova edição do Festival Sesc_Videobrasil, além de ter uma exposição individual programada para o segundo semestre na galeria Fortes D’Aloia & Gabriel.

Paralelamente à produção na arte contemporânea, Bárbara também frequenta bailes funks, os salões de beleza e igrejas da periferia. “Desde meu primeiro trabalho – que foi a série de fotos Brasília Teimosa – eu me atenho ao tema do popular, não no sentido da tradição, mas sim a partir da ideia de uma classe que consome muito e tem compreensão da própria imagem.”

A artista comenta que voltou seu olhar para as conquistas sociais do brasileiro e para o poder aquisitivo obtido pelos mais pobres antes da crise observada no governo Dilma (2011-2016). “Em 2005, por exemplo, as câmeras digitais não eram tão populares. Já em 2012, havia claramente uma nova classe média estabelecida, que se manifestava nas selfies, nas redes sociais e nos videoclipes”, afirma.

Esse novo panorama aparece nas duas obras que a artista apresentou na última Bienal de São Paulo: o vídeo Estás Vendo Coisas e a série de fotos Mestres de Cerimônias, ambos de 2016. A primeira é uma história de ficção de um cabeleireiro e de uma bombeira que sonham em se tornar estrelas da cena musical do Recife. O vídeo foi feito com Benjamin de Búrca, artista parceiro de Bárbara desde 2013, e concorreu ao prêmio de melhor curta-metragem no Festival de Berlim deste ano. E a última retrata a indústria dos videoclipes do brega, no Recife, e a do funk, em São Paulo.

Os dois trabalhos foram concebidos paralelamente, em um esforço da artista em entender o que a cerca. “Eu tinha uma urgência de documentar o que acontecia nas ruas do Recife. E, para mim, a cultura do brega representava essa visibilidade de uma nova classe, unindo consumo, ostentação e a ideia de celebridade.”

Nas duas obras citadas acima, a artista mostra como DJs e MCs (mestres de cerimônia, como são chamados os rappers) saem dos bailes da periferia e alcançam o mainstream, apropriando-se dos símbolos historicamente pertencentes às classes dominantes. “Os códigos do dominador estão em todos os níveis de apresentação dessa indústria, desde os carros importados até as roupas de grife. A meu ver, isso é uma grande subversão, pois é a partir dessa apropriação que o brega e o funk se estabelecem no mercado e são consumidos inclusive pela elite. Entra nas novelas, toca nas baladas caras, vira hype, né?”, provoca.

Bárbara defende que esses gêneros musicais ainda são malvistos pela academia e o Estado, mas que isso tende a mudar. “Tudo que vem de uma tradição popular costuma ser enquadrado pela elite intelectual, que define o que é e o que não é arte, tachando o que não é como algo menor. Foi assim com o maracatu, o frevo e o próprio samba, que hoje são tidos como patrimônio cultural.” Ela compara os MCs com os caboclos de lança, figura emblemática do Carnaval pernambucano: “O brega, para mim, é um novo tipo de ritual, no qual a máscara é substituída pelo boné, a corrente e o tênis de marca. No meu trabalho, eu documento como esse ritual se constrói”.

A união entre o novo e a tradição também aparece na obra Faz que Vai, lançada em 2015 em parceria com De Búrca. O vídeo retrata quatro bailarinos que dançam frevo durante o Carnaval e, em outras épocas do ano, ganham dinheiro com os demais ritmos musicais. Um dos dançarinos, por exemplo, trabalha numa casa noturna como drag queen, outros dois dançam swing e ainda há um que dá aulas de vogue.

Na obra, os personagens alternam gestos e passos do frevo com os dos demais gêneros, em uma só coreografia. A artista fala do trabalho com entusiasmo: “É um vídeo bem bonito. Nós mostramos como um mesmo corpo pode ter um pé na tradição e outro no novo. Há uma nova geração que vivencia esse processo de transição entre o terreiro, o sentimento de comunidade, e o palco, o lugar do pop e da celebridade”. O trabalho será apresentado no 20º Festival Sesc Vídeo Brasil.

Frame do vídeo Estás Vendo Coisas (2016), de Bárbara Wagner e Benjamin de Búrca

Frame do vídeo Estás Vendo Coisas (2016), de Bárbara Wagner e Benjamin de Búrca


Sagrado espetáculo

Outra obra conhecida da artista é a série Crentes e Pregadores, de 2014, que trata do crescimento das igrejas evangélicas no País. São retratos de fiéis, além de registros dos cultos. Bárbara acredita que há uma relação entre a ascensão da chamada classe C e o aumento do número de evangélicos. Segundo a artista, a doutrina defendida pelas igrejas pentecostais é muito próxima de um ideal de consumo. “É uma religião que se parece com uma corporação. Não à toa, o culto é dividido em questões que o fiel quer resolver: doença, trabalho, dívidas. É algo pragmático, você entra na igreja, investe e isso volta pra você.”

Bárbara afirma que o assunto despertou seu interesse pela complexidade. “Não dá para dizer que é algo só ruim, é uma reinvenção da tradição. Tem um lado interessante, é como se a religião evangélica fosse um portal pelo qual finalmente a redenção vai acontecer: o empregado vai virar patrão sim, sabe? Isso é impactante. Ao mesmo tempo, quando eu penso na bancada evangélica no Congresso, eu me assusto, é um discurso muito violento e opressor”, pontua.

Um dos objetivos principais da série é desmistificar a imagem exótica, de irracionalidade muitas vezes associada aos fiéis. “Não estamos falando de uma minoria, mas de um fenômeno de massa, do qual é preciso se aproximar e entender. Eu sempre me perguntei por que essa realidade, tão próxima de nós, não está sendo abordada de forma consistente pela arte e os documentaristas.” Em suas fotos, Bárbara compara o culto à performance. “Para mim, os ritos evangélicos se associam à indústria do espetáculo, como a da música brega. Isso me interessava num sentido estético mesmo: o altar, as flores de plástico, as cortinas, a caixa de som, há toda uma construção de um ritual.”

Em seus trabalhos, Bárbara foge do estereótipo da artista que dá voz aos marginalizados. “Não se trata de olhar para os sujeitos a partir de uma perspectiva antropológica, de fazer uma representação do outro. Essas pessoas já criaram as suas representações autônomas, elas têm voz, produzem suas próprias fotos. No fundo, na nossa produção, tentamos entender como é feita essa construção da autoimagem. Essa é a nossa contribuição e para isso é preciso estabelecer uma relação de troca e colaboração com as personagens”, afirma.

Outra obra de Bárbara e Benjamin que trata do tema da representação é a série Como Se Fosse Verdade, comissionada pela prefeitura de São Paulo em 2015. A dupla montou um estúdio móvel em um terminal de ônibus na Cidade Tiradentes, bairro periférico da metrópole. As pessoas que passavam pelo local eram convidadas a responder um questionário, que continha questões objetivas (como renda mensal) e subjetivas (estilo musical favorito). Após preencherem o documento, elas eram fotografadas pela dupla, podendo escolher se seria um plano mais aberto ou fechado. Depois desse processo, a dupla convidou o designer Bobby Djoy para criar capas de CD a partir das fotos e informações disponíveis. Quarenta e cinco imagens foram ampliadas em um tamanho de dois metros por dois metros e fixadas nas grades do terminal.

As fotos reunidas simulavam o mostruário de um camelô fora de escala natural, dialogando com a própria arquitetura do lugar, marcada pelo comércio informal. Nessa série, assim como na maioria de seus trabalhos, a inspiração é a rua. Bárbara não se diz uma artista de ateliê, pelo contrário, gosta de conviver com as pessoas, investigando a realidade. “O meu processo de criação e o do Benjamin são muito dinâmicos, muitas vezes não sabemos para qual caminho estamos seguindo, vamos conversando com as pessoas, sentindo. Não é linear.”

Bárbara pontua que essa linha de criação muitas vezes se opõe às demandas do mercado. “O que importa de verdade para o mercado é que o artista tenha uma carreira coerente, que as coisas não sejam confusas. E isso pode ser um problema para a experimentação e o engajamento. Para mim, em especial, é algo muito complicado, tenho muita dificuldade de estar no mercado. A meu ver, o mais interessante é conseguirmos acompanhar as complexidades do mundo. Quando estabelecemos uma forma fixa para tratar dos assuntos, acabamos prevendo respostas em vez de procurarmos quais são as questões de fato.”

Atualmente, Bárbara e Benjamin vivem na cidade de Münster, na Alemanha, onde produzem um vídeo sobre a schlager, música popular alemã. Os dois também estão na fase de pós-produção do filme Terremoto Santo, que trata de um grupo de jovens brasileiros, membros de uma gravadora de música gospel chamada Mata Sul. Agora em outra cultura, Bárbara permanece investigando a realidade que a cerca, atenta às manifestações desse novo folclore, presente nas ruas, igrejas e boates do país.

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