Em entrevista à ARTE!Brasileiros, a professora aposentada da ECA-USP, Ana Mae Barbosa, discute os desafios dos educativos de museus. Sobre o fim da obrigatoriedade da disciplina de Arte no Ensino Médio, ela diz: “É uma desgraça!”

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Ana Mae Barbosa. Foto: Divulgação

Quando se fala em arte-educação, é impossível não mencionar a obra de Ana Mae Barbosa. A pesquisadora foi a primeira a sistematizar o ensino de artes dentro dos museus. Com 80 anos, Barbosa, que é professora aposentada do Departamento de Artes Plásticas da USP e ex-diretora do Museu de Arte Contemporânea (MAC), expõe suas opiniões de forma veemente, defendendo que o setor educativo “ainda é visto como a classe inferior do museu”. Ela também fala sobre o fim do ensino de Artes no Ensino Médio – “uma tragédia” –, entre outros temas. Confira abaixo a entrevista na íntegra.

ARTE!Brasileiros: Quais são os atuais desafios dos núcleos educativos de museus?
Ana Mae Barbosa: O maior desafio dos educativos hoje é trabalhar de forma interdisciplinar, não sendo apenas um reflexo do pensamento do curador. Muitas vezes, o curador tem uma ideia que não se concretiza de fato. O educador precisa ter autonomia para propor outras chaves de análise e não ser um mero transmissor do discurso curatorial. Até porque uma exposição que tem apenas uma leitura possível é pouco democrática.

Falta, então, um diálogo entre a curadoria e o educativo?
Com certeza. O problema é que os museus no Brasil não são democráticos, há uma estratificação: o curador é o cargo mais valorizado, já o educador é visto como a classe inferior. Isso já perturba todo e qualquer processo de diálogo. Eu acho que o ideal é o que chamo de “curadoria dialogal”, na qual, desde o início do projeto, o educativo, o curador e o produtor trabalham juntos, discutindo as possibilidades de construção da exposição. Infelizmente, isso acontece muito pouco. Há um caso magnífico de uma exposição chamada Contido Não Contido, realizada no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, no Recife. Na mostra, a curadora, Clarisse Diniz, reuniu educadores, curadores e o público, não só para organizar a mostra, mas discutir a própria coleção do museu e verificar onde estavam os buracos culturais da coleção, o que faltava. Sempre cito essa exposição como um exemplo notável de curadoria dialogal.

Como tornar os museus mais democráticos?
Primeiro, seria importante que os diretores de museus fossem selecionados por projetos. Aqui no Brasil, a escolha é política, o processo de nomeação é muito arcaico. Na universidade, por exemplo, é preciso prestar concurso para dar aulas. Por que isso não se aplica para os museus? Outro problema é o que acontece com os educadores, que não possuem nenhum plano de carreira. Você pode entrar lá com 18 anos, sair com 50 e ganhar exatamente o mesmo salário. Por isso mesmo os educativos são todos terceirizados, compostos por estagiários.

Hoje também há toda uma discussão de descolonizar os museus. O que isso significa?
Esse debate é importantíssimo. O código europeu norte-americano branco ainda é o dominante nos museus. Onde podemos ver o olhar indígena? Ou o negro? Apenas nos museus específicos. Infelizmente nós copiamos o sistema americano de separação: há o museu das mulheres, o dos índios, o afro. Mas, no fundo, todo mundo quer expor no MoMA, que continua sendo o símbolo de distinção. Essa separação dos códigos culturais em caixinhas pode ser perigosa. A verdade é que as diferentes culturas coexistem no mundo, elas não ficam separadas. Então por que não exibi-las lado a lado? É isso que os museus não fazem.

"The Man in The Blue Hat", Fernand Léger

The Man in The Blue Hat, de Fernand Léger, artista citado na entrevista


Nas exposições de arte contemporânea, muitas obras não têm legendas. Isso não atrapalha a compreensão do público?
Eu não sou muito a favor do didatismo. A função do educador não é explicar a obra, mas estimular o público a construir suas próprias análises. É importante que as pessoas questionem o trabalho, dialoguem com ele. Depois, caso elas queiram saber mais sobre a obra, podem ir atrás das informações. Meu problema não é o didatismo, mas a educação, que é um termo muito mais amplo.

Depois da reforma do Ensino Médio, a disciplina de Artes não é mais obrigatória. Como a senhora enxerga essa mudança?
Como uma desgraça. Em primeiro lugar, a arte é uma linguagem muito importante para os jovens entenderem a si mesmos. O adolescente passa por uma série de transformações, mudanças hormonais, mudanças no corpo. Há sentimentos que eles não conseguem expressar com as palavras. O desenho, o gesto, o movimento, são essenciais para que os jovens organizem o seu pensamento. Em segundo lugar, a arte é importante para desenvolver a inteligência. Nos Estados Unidos, o pesquisador James Caterall desenvolveu um estudo famoso para provar que a arte desenvolve a capacidade racional medida pelo teste de QI. Ele constatou que, durante dez anos, os alunos de Ensino Médio que tiveram um bom desempenho no SAT, o equivalente ao ENEM deles, foram os que cursaram a disciplina de artes no Ensino Médio. Nos EUA, os alunos podem escolher as matérias que querem cursar. Mas isso é diferente do que foi aprovado aqui. Segundo essa nova lei, não é obrigatório oferecer a disciplina de Artes no currículo do Ensino Médio. Ou seja, serão os professores das outras disciplinas que poderão escolher se querem ou não abordar o tema. Um professor de história, por exemplo, pode dar uma aula de industrialização e mostrar algumas obras do Fernand Léger (imagem acima), que tratem desse tema. Não que isso seja ruim, mas o meu medo é que, desse jeito, a arte será uma mera ilustração de outra disciplina.

E ao mesmo tempo, vivemos em um mundo cada vez mais assolado por imagens. Os alunos não deveriam ser preparados para analisá-las?
Exatamente. Os estudantes devem aprender a decodificar as imagens de todas as categorias: arte, publicidade, jornalismo, televisão. Precisamos aprender a ler imagens, senão vamos assimilando supostas verdades e não temos capacidade de analisá-las.

Qual educativo de museu a senhora citaria como referência?
Um trabalho que sempre menciono é o da designer alagoana Maria Amélia Vieira. Ela e a equipe ficam instalados em um barco. Ao longo do ano, eles percorrem o rio São Francisco e param nas cidades ribeirinhas. Há uma exposição de arte popular montada dentro do barco. Eles levam os alunos para a exposição, além de ministrarem aulas para os estudantes e os professores. Esse museu pra mim é maravilhoso. Eu também gosto muito do Museu de Tudo, uma instituição que não tem sede e percorre a Europa, apresentando exposições de artistas locais que são relegados pelos códigos hegemônicos. Há vários outros, mas se é pra escolher, eu escolho esses dois.

Link curto: http://brasileiros.com.br/bT7MZ
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