Com lâminas de aço, estantes para partituras, taças, louças e velhas fotografias, o artista compõe imaginário silencioso – porém ruidoso por baixo da superfície

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Ópera do vento (2017), Nino Nais, suportes para partituras . Foto: Patrícia Rousseaux

Existe ao menos um tema em evidência na individual que Nino Cais apresenta na Casa Triângulo até 13 de maio: 35 intervenções que ele fez em páginas extraídas de livros são protagonizadas por estrelas do cinema, em preto e branco. Esse foco foi, porém, estabelecido por um olhar randômico. Cais se interessou, antes de tudo, pela qualidade da impressão dos livros e não pelas imagens neles retratadas. “Depois que inicio o trabalho é que aqueles retratos começam a fazer algum sentido para mim e ganham alma.”

A recusa de um eixo temático pode soar estranha, porque existe unidade entre as figurações que surgem do conjunto de obras de Cais, não apenas nesta mostra, mas também em produções mais antigas. O artista paulistano permanece interessado em revelar algo por trás da superfície, perfurando com ironia as camadas de fetichização, de dramaticidade e de glamourização que encontra em seu caminho. Em uma obra específica, ele secciona o retrato de uma atriz na diagonal, precisamente no ponto onde está o pescoço dela; separada em duas partes, a imagem ganha naquele ponto a inserção de um objeto: uma lâmina de aço.

Sem Titulo, Nino Cais. Fotografia e faca. Foto: Divulgação

Sem Titulo, Nino Cais. Fotografia e faca. Foto: Divulgação

Cais considera que, durante seu processo de criação, não há exatamente a alteração do significado da imagem, mas sim uma amplificação, “como se eu colocasse ali uma lupa”, diz. “Eu me baseio em uma ideia de revelar uma imagem pela segunda vez”, sintetiza. Em outra obra, ele recorta, de uma fotografia, a figura de um barco e faz um retrato de sua própria mão, extraindo aquela imagem do plano dimensional, ressaltando a natureza metalinguística da obra, bem como o princípio de se apropriar de fotografias de autorias alheias.

Entre os objetos que pontuam a mostra, há taças, bijuterias, camisas masculinas brancas de algodão com pratos encaixados na extremidade das mangas. São menções que reiteram comentários sobre cerimônias – com máscaras sociais desdobradas pelas diversas construções espaciais e volumétricas da mostra. Cais faz vibrar ainda mais alto sua escuta sobre esta pretensa harmonia das louças e dos cristais em uma instalação de grande impacto, Ópera do Vento, que avança de uma parede lateral da galeria até quase o ponto central do ambiente.


Ópera do Vento
é composta por 85 estantes para partituras, sobre as quais o artista espalha imagens de conchas, também coletadas de livros antigos. Expansivamente visual, a obra sugere, com bastante efeito, uma paisagem sonora. Sabemos todos que, ao encostar uma concha no ouvido, escutaremos o som do ar que ali circula, algo que nos remeterá ao barulho feito pelo mar. Sinestésica até a alma, a obra nos convida à meditação e ao silêncio. Cais faz comparação com a obra mais famosa de John Cage, 4’33’’, em que o pianista deve abrir o piano e esperar o tempo referido no título, sem tocar, porém, uma nota sequer.

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