Artista mostra “Trilha para Dois Lugares e Trilha para Dois Lugares”, no MAM do Rio, e “Variações para Citera e Santa Rosa”, na Galeria Millan, em São Paulo

O público é desafiado ao entrar no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, onde um obstáculo bloqueia a passagem e emite um som quando é tocado

O público é desafiado ao entrar no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, onde um obstáculo bloqueia a passagem e emite um som quando é tocado

Os quatro atos de Método Poético para Descontrole de Localidade, uma ópera poético-visual de Nelson Felix, trazem em seus títulos significados ambíguos que desnorteiam o espectador. O último ato, que encerra a série de quase 30 anos, Trilha para 2 Lugares e Trilha para 2 Lugares, é uma instalação que corta, friamente, a sala do MAM do Rio, com um cabo de aço esticado de 32 metros, a 60 centímetros do chão, como uma corda de violão presa nas pilastras do museu. O forte estiramento, quando tocado, vibra e emite um som oco, gostoso de ser ouvido. Aqui é difícil definir a fronteira entre música e ruído.

Há, nessa corda, uma sedução perversa, e uso aqui uma licença literária. O aço é uma malha cortante que atravessa o museu, atrai o visitante, mas não o deixa passar, conquistando sua cumplicidade. A simplicidade da intervenção espacial e do diálogo que propõe com a arquitetura tangencia o racionalismo minimalista.

As extremidades do cabo de aço apontam com precisão rítmica para duas direções: se uma ponta prosseguisse indefinidamente, ela chegaria na ilha grega de Citera, e a outra chegaria na cidade de Santa Rosa, no pampa argentino. “Esses dois lugares vieram a mim pelo acaso, inspirado no poema Um Lance de Dado Jamais Abolirá o Acaso, do poeta francês Mallarmé (1842-1898), a quem dedico a exposição.”

A escolha se pautou por uma espécie de jogo. “Joguei um dado sobre o mapa-múndi com o número seis em todas as faces, em data e hora estabelecidas, e os dois locais foram escolhidos. Tudo é aleatório. Os dois locais sobre os quais os dados pararam foram: Citera, para onde viajei, trabalhei de forma alucinante e lancei o dado ao mar, e Santa Rosa, onde igualmente desenhei muito e enterrei o dado.”

Still do vídeo inspirado no poema Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, do poeta francês Mallarmé, experiência de Nelson Felix naI Ilha de Citera, na Grécia.

Still do vídeo inspirado no poema Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, do poeta francês Mallarmé, experiência de Nelson Felix naI Ilha de Citera, na Grécia.

Como diz o urbanista e escritor americano Kevin Lynch, “olhar para as cidades pode dar um prazer especial. A grande aventura do inconsciente está na comoção, no assombro que os objetos, espaços citadinos, causam em nós”. Os dois municípios, de países diferentes, impactaram Nelson Felix, que desenhou compulsivamente logo que neles desembarcou, como se tivesse que concluir a célula-base dessa experimentação.

Os registros em desenhos tratam de uma interioridade existencial e temporal, além de revelar a dimensão geográfico-espacial do lugar, como fica evidente nos três segmentos anteriores desta série – 4 Cantos, Verso e Um Canto para Onde Não Há Canto – realizados em Portugal (2007/08), Brasília (2009/11) e São Paulo (2011/13) – e no último segmento, agora, simultaneamente, no MAM do Rio e na galeria Millan, em São Paulo.

Com essa “ópera” em quatro “atos” e considerando o tempo de dedicação e reelaboração da obra (em três décadas), Nelson Felix mostra nova possibilidade de fazer história sobre sua própria história, produzindo vibrações irregulares sobre registros regulares. Centenas de desenhos foram feitos, compulsivamente, exercendo nova forma de documentação, que passa pela poesia da comunicação, pelo tempo, pela memória, e se une à arte conceitual.

Uma forma de trabalho comunicacional que encontra no vídeo seu veículo mais direto: no MAM, em uma pequena sala acolchoada, fechada como um útero, os monitores reverberam imagens captadas por Guilherme Begué e Cristiano Burlan, em paisagens na Grécia e na Argentina, e, com o cabo de aço, compõem a exposição, com curadoria afinada de Fernando Cocchiarale e Fernanda Lopes; na galeria Millan, em montagem também bem resolvida, mas sem curadoria, os monitores aparentes são presos na parede e se confundem com a exposição.

Como expressa o título, esses trabalhos procuram traduzir uma ideia de espaço simultâneo, e Nelson Felix consegue isso, literalmente, ao expor sua construção poética em duas cidades simultaneamente. Se no Rio o impacto fica por conta do aço, cortando o espaço interno do museu, em São Paulo, um cubo limpo, perfurado do teto ao chão por um fio delicado e dourado, sintetiza o conceito da mostra: simples e racionalista. Enquanto a instalação do MAM trabalha força e tensão, a mostra paulista, que tem o título Variações para Citera e Santa Rosa, promove uma navegação leve entre “arquivos”, esculturas, desenhos, mapas rabiscados pelo viajante; e uma densa pintura com lacre vermelho dá força ao conjunto.

A complexa apreensão do todo requer a compreensão de variáveis, algumas das quais estão nos desenhos, gráficos e mapas desenvolvidos durante as viagens. Para Felix, a confluência desses espaços diversos, fundamentados em experiências, “só pode fazer sentido e ser produzida com base num método poético para descontrole de localidade, marco que separa a ambiguidade poética característica da arte da experimentação cientificamente regulada”.

Em sua passagem por Citera, o artista descobriu que algumas obras de Watteau, Verlaine, Victor Hugo, Debussy e Baudelaire foram inspiradas em visita deles a essa ilha. Soube ainda que eles frequentavam o Closerie des Lilas, em Paris, fundado em 1847. Sem jogo de dados, surgiu daí um terceiro local, e ele partiu para o famoso café, onde registrou imagens que incorporou à “opera”. “Nos três locais, Citera, Santa Rosa e La Closerie, lancei, enterrei e abandonei dados de bronze e desenhei compulsivamente. O trabalho é finalizado agora quando uso o MAM como objeto, duplicando assim a ideia de lugar. É como se fossem, poeticamente, três locais em dois lugares de um mesmo espaço.”

No método poético, explica Nelson Felix, “ao utilizar sempre uma poesia, me aproximo do processo dos livros de poesia moderna, em que desenhos ou gravuras criavam uma relação entre texto e imagem”. Ele georreferencia, classifica, cataloga e gera narrativas a partir das viagens, formando um conceito de lugar, que se submete ao desenho.

Às três obras anteriores da série soma-se a observação multifacetada do olhar de Nelson Felix sobre novos significados, história, hierarquia, tempo. “Nosso espaço em arte não é mais tão limpo. Este quarto e último trabalho, assim como os primeiros, tem ambientes externos e internos, mas meu interesse está no duplo significado criado no local da mostra.”

A documentação é o recurso aglutinador desta “ópera” que se encerra, desenvolvida num conjunto de ações encenadas em várias latitudes, envolvendo profissionais de vários países e cidades. “A ópera não vai parar, vou transformar toda a documentação em livros, e é isso que farei nos próximos anos, paralelo ao meu trabalho em artes visuais”.

 

Trilha para 2 Lugares e Trilha para 2 Lugares
Até 4 de junho
Museu de Arte Moderna
Avenida Infante Dom Henrique, 85,
Centro, Rio de Janeiro – RJ

NELSON FELIX – Variações para Citera e Santa Rosa
Até 20 de maio
Galeria e Anexo Millan
Rua Fradique Coutinho, 1.360/1.416
11 3031-6007

Link curto: http://brasileiros.com.br/KGZta
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