Ator faleceu na noite dessa terça-feira (9), em decorrência de uma doença pulmonar. Em reportagem da CULTURA!Brasileiros, Xavier falou de sua atuação como protagonista de “Comeback”, que estreia em 25 de maio

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O ator Nelson Xavier, morto na noite desta terça-feira. Foto: Divulgação / Rede Globo

Morreu na noite dessa terça-feira (9) em Uberlândia (MG), aos 75 anos, Nelson Xavier. O ator, que recentemente havia enfrentado um câncer de próstata, sofria com o agravamento de uma doença pulmonar, segundo informações do hospital Santa Genoveva. Xavier já estava em tratamento há alguns meses em uma clínica geriátrica da cidade. O corpo deve ser levado no início da tarde para o Rio de Janeiro.

A filha do ator, Tereza Villela Xavier, usou sua página no Facebook para falar do pai. “Lamento informar a quem possa interessar que meu pai, Nelson Xavier, faleceu esta noite em Uberlândia. Seu corpo será transferido, celebrado e cremado no Rio de Janeiro em cemitério ainda não determinado. Agradeço desde já as mensagens de apoio. Ele virou um planeta! Estrela ele já era. Fez tudo o que quis, do jeito que quis e da sua melhor maneira possível, sempre”, escreveu ela.

Longe das telas do cinema há três anos, prestes a estrear em circuito comercial no dia 25 deste mês com o filme Comeback, de Erico Rassi, que valeu a ele o prêmio de Melhor Ator no Festival do Rio de 2016, Xavier conversou este mês com a reportagem de CULTURA!Brasileiros. Leia abaixo a matéria na íntegra.

Diário de um pistoleiro zen 

por Marcelo Pinheiro

Depois de enfrentar um câncer e, com a prática da meditação, reinventar a relação mente/corpo, o ator Nelson Xavier rompe um hiato de três anos longe dos cinemas no papel de Amador, matador de aluguel aposentado que protagoniza Comeback, longa-metragem de estreia do cineasta goiano Erico Rassi, que entra em circuito comercial no dia 25 deste mês. 

Presente em grandes títulos da filmografia nacional, como Os Fuzis, de Ruy Guerra (1964), ABC do Amor, de Eduardo Coutinho (1967), Dois Perdidos Numa Noite Suja (1967), de Braz Chediak, Vai Trabalhar, Vagabundo, de Hugo Carvana (1973), e Eles Não Usam Black-Tie, de Leon Hirszman (1981), Xavier repete a boa atuação de A Despedida, de Marcelo Galvão, seu trabalho mais recente na tela grande, em que fez par romântico com Juliana Paes e, assim como a atriz, conquistou o prêmio de melhor atuação no Festival de Gramado de 2014.

Com quase 60 de carreira profissional, a cancha do veterano redime problemas, como inconsistências do roteiro, e redimensiona as qualidades de Comeback, como a tensão gradual das sequências, que dialoga com a monótona rotina de Amador. Experiência à parte, em entrevista à CULTURA!Brasileiros, Xavier enfatizou a importância de um elemento que, segundo ele, reinventou sua dinâmica de atuação. “Atribuo o sucesso que tive com o Amador ao fato de meditar regularmente há sete anos. A meditação aumentou minha sensibilidade e me permitiu lidar com a interpretação de uma maneira nova. Um dos significados de protagonizar esse filme foi confirmar que a meditação me enriqueceu. Não só como pessoa, mas também na capacidade de lidar com a matéria da interpretação. Em A Despedida e em Comeback, senti uma liberdade que nunca tinha experimentado em minha carreira”, diz.

Ambientado em Goiás, na periferia de Anápolis, cidade natal de Rassi, Comeback narra o dia a dia ordinário do ex-justiceiro, que abandona o antigo ofício, mas continua a atuar no submundo do crime, exercendo a tripla função de intermediário de locação, entregador e reparador de máquinas caça-níqueis em bares decadentes, como o da cena inicial do filme. Nesse primeiro plano-sequência, rodado em um desses botecos xexelentos, Amador é procurado pelo neto de Davi, um velho amigo seu, parceiro dos tempos de pistolagem. Propenso ao crime, o rapaz, que não tem o nome revelado na trama, voluntariamente acompanha o dia a dia do matador para aprender o ofício que outrora deu a ele fama e respeito no meio da bandidagem.

Desconfortável com a insignificância de sua nova ocupação e também com a falta de traquejo para lidar com seus clientes, encerrado o expediente, Amador passa horas a folhear um álbum com cerca de 50 páginas em que, por meio de colagens de recortes de jornais da imprensa policial dos anos 1980 e 1990 – “superstar do Notícias Populares”, parafraseando os Racionais MCs –, mantém viva a memória dos crimes que cometeu. Repleto de manchetes assombrosas, como “chacina deixa seis mortos”, “banho de sangue na madrugada” e “casal morto a tiros”, para aqueles que desconhecem o ímpeto violento de Amador, o álbum serve como atestado de que ele, de fato, foi um sujeito barra pesada.

“Gostei do personagem porque ele traz uma visão independente da realidade brasileira, nunca abordada em nosso cinema, apesar da diversidade de nossa produção. Lembro de Ozualdo Candeias ter feito um filme sobre o assunto (Manelão, o Caçador de Orelhas, de 1982), mas com uma abordagem completamente diferente. Gostei muito de fazer o filme também porque tive plena liberdade para fazer o que eu sentia e escolhia”, diz Xavier.

Exibido em primeira mão no Festival do Rio de 2016, Comeback (o título faz referência a um possível retorno de Amador ao antigo ofício) rendeu a Xavier o prêmio de Melhor Ator na mostra carioca e foi considerado por alguns críticos signatário da estética western. Rassi, no entanto, parece mais norteado pela cartilha “faroeste do Terceiro Mundo” de O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla. No bangue-bangue à brasileira do diretor goiano, a inspiração para o roteiro, também de sua autoria, veio de um personagem real, mitificado pelo escritor e jornalista João Antônio.

“O filme surgiu a partir de entrevistas que fiz com o jogador de sinuca chamado Carne Frita, que serviu de inspiração para o personagem do Amador. Os dois se assemelham, na medida em que se apegam a feitos do passado como uma maneira de se sentirem relevantes, e talvez escaparem do ostracismo. Acho que o filme possui alguns elementos de faroeste, o mais forte deles a ambientação em um local onde lei e ordem não estão plenamente constituídas. Há também alguns aspectos visuais da periferia, como as ruas empoeiradas e pouco movimentadas, que podem remeter a um cenário de faroeste, mas de forma mais incidental”, defende o diretor.

Parcialmente financiado por meio de crowdfunding, Comeback também contou com uma rede de colaboradores. “A escolha de Anápolis se deu tanto por aspectos estéticos quanto por viabilidade de produção. Primeiro, a gente queria um cenário de periferia que trouxesse algum ineditismo, fugindo de uma requentada periferia paulistana ou favela carioca. E a possibilidade de filmar em Anápolis, com todo o apoio que nos foi oferecido – de parentes, amigos e moradores locais, certamente por lá ser nossa cidade natal –, acabou unindo as duas coisas”, conclui Rassi.

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Veja o trailer oficial de Comeback  

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