O caminho de E. Macron vai ser, com toda certeza, cheio de pressões econômicas, lutas sociais e reivindicações da sociedade civil. Mas é exatamente disso que precisamos. Uma sociedade que respira, pensa, age e constrói tanto ao nível local como ao nível nacional

A leitura da grande maioria dos comentários dos porta-vozes da esquerda brasileira sobre a eleição de Emmanuel Macron deixa na boca um sabor amargo e assustador. E. Macron está descrito e condenado, a priori, como o candidato dos bancos e dos mercados financeiros. Contudo, o campo de ruínas que é a democracia brasileira,deveria abrir a porta a uma análise mais estrutural e baseada nos fundamentos vitais de qualquer sociedade moderna.

Como uma série de grandes democracias do mundo, a França e o Brasil estão ameaçados ficando presos emum face-a-face entre os que defendem a desregulamentação selvagem e aqueles que apostam em demagogia radical para derrubar a mesa e o jogo democrático.A esquerda está perdendo apoio massivo em quase toda parte em detrimento de partidos e grupos que reivindicam a representação dos esquecidos, dos condenados da globalização, dos que vivem abaixo do padrão mínimo que permite a inserção social.

O voto massivo em E. Macron inverteu essa tendência. O apoio claro de uma significativa parte da esquerda tradicional francesa e o apoio crítico da sua parte mais radical combinados com a adesão do centro-direita e de boa parte da direita clássica, significam uma única coisa: A defesa da democracia passa hoje pela consolidação de uma nova política, ética, positiva e criativa. A política é diálogo e concertação e de confronto.

Com uma única eleição, os cidadãos franceses explodiram um sistema político esquerda-direitaque, aqui no Brasil, só sobrevive nas andanças de figuras de mortos-vivos que ainda sonham em ser candidatos no futuro.

Lutar pela democracia eletiva, a entrada dos jovens na política, a exclusão dos corruptos e a eficiência econômica é profundamente progressista e pacificamente revolucionário. Lutar contra o desastre ambiental, a destruição social, a falência democrática e o abandono de valores republicanos são desafios imensos, mas inevitáveis.

O caminho de E. Macron vai ser, com toda certeza, cheio de pressões econômicas, lutas sociais e reivindicações da sociedade civil. Mas é exatamente disso que precisamos. Uma sociedade que respira, pensa, age e constrói tanto ao nível local como ao nível nacional.

Os eleitores escolheram um candidato jovem, competente política e economicamente. Escolheram um candidato representativo da sociedade francesa, um gestor e fiador da democracia e recusaram qualquer figura de messias ou salvador. Como a esquerda que deveria ter uma absoluta exigência democrática como princípio primeiro e absoluto não poderia aderir?

A primeira formação de Emmanuel Macron foi doutorado em Filosofia, mesmo antes da sua formaçãoem ciências políticas e econômicas na Sciences-po e na ENA (Escola Nacional de Administração). Aos 23 anos, E. Macron trabalhou como assistente do filósofo Paul Ricœur e com o seu amigo filósofo Olivier Mongin, grande voz do cristianismo social.

Paul Ricœur, em sua obra, estabelece uma relação entre a vontade eo desejo: “O quererseriasó ligeiramente eficaz se não fosse estimulado por uma ponta de desejo”. Entrevistado por um jornalista durante a campanha eleitoral sobre o que ele, como ator da vida política utilizava como “ponta do desejo” respondeu: A ação!


*François Huteau é cientista político e economista, doutor pelo InstitutÉtudes Politiques de Paris (Sciences-Po)

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