Treze anos após a morte do amigo Itamar Assumpção, idealizador e ex-líder da banda, os músicos do Isca de Polícia surpreendem velhos e novos fãs com “Volume 1″, álbum de estreia repleto de boas parcerias e do vigor de sempre

Da esq. para a dir., Luiz Chagas, Suzana Salles, Vange Milliet, Paulo Lepetit, Marco e Jean Strad. Foto: Gal Oppido

Da esq. para a dir., Luiz Chagas, Suzana Salles, Vange Milliet, Paulo Lepetit, Marco da Costa e Jean Trad. Foto: Gal Oppido

Dono de uma verve poética e composicional das mais distintas, ao lado de pares geracionais como Arrigo Barnabé e Grupo Rumo, Itamar Assumpção operou um verdadeiro rebuliço estético nas convenções da MPB e iluminou caminhos para o gênero em meio a um início de década frívolo, a transição dos anos 1970 para os 80. Ícone do movimento que ficou conhecido como Vanguarda Paulista, entre 1980, quando lançou Beleléu, Leléu, Eu, seu primeiro álbum, até 2003, quando partiu precocemente aos 53 anos, vitimado por um câncer, Itamar deixou um legado inabalável em trabalhos tão inspirados quanto seu disco de estreia, caso do sucessor, Às Próprias Custas, de 1981, Sampa Midnight – Isso Não Vai Ficar Assim, de 1983, Intercontinental! Quem diria! Era Só o Que Faltava!!!, de 1988, e Pretobrás, lançado dez anos depois. 

Inventivo, bem-humorado, provocativo e avesso às ingerências do mercado fonográfico, a concisão de sua música, independente até a medula, jamais teria alcançado a dimensão conferida em seus trabalhos não fosse o auxílio luxuoso das diversas formações de sua banda, a Isca de Polícia. Atuantes desde a morte do músico, em shows em que reavivam o repertório acumulado em duas décadas de parcerias com o paulista nascido em Tietê e apaixonadamente radicado na Penha, zona leste da capital, os remanescentes do Isca demoraram, no entanto, 14 anos para registrar em estúdio seu primeiro trabalho autoral. Produzido no final de 2016, Volume 1 veio à tona em produção independente, com distribuição da Tratore, e flagra o vigor inesgotável de Paulinho Lepetit (contrabaixo), Luiz Chagas e Jean Trad (guitarras), Suzana Salles e Vange Milliet (vozes) e Marco da Costa (bateria) – Marquinho, como é chamado pelos amigos, recentemente deixou a banda e foi substituído por Vitor Cabral.

Apresentado no final de abril em dois shows lotados no Sesc Pinheiros, o repertório de Volume 1 reúne dez canções compostas por diversos parceiros. São eles: Péricles Cavalcanti, autor de Arisca, a faixa de abertura; Arnaldo Antunes, que divide com Lepetit as canções Dentro Fora e Xis; Arrigo Barnabé, Ortinho, Zeca Baleiro, Carlos Rennó e Alice Ruiz, respectivamente coautores, com o contrabaixista, de Meus Erros, As Chuteiras do Itamar, É o que Temos, É o Melhor, Atração Pelo Diabo e Eu é Uma Coisa. Vange Milliet, também parceira em As Chuteiras de Itamar, assina sozinha Corpo Fechado. Concluindo a seleção – e o álbum – Tom Zé empresta letra e “música incidental” para Itamargou. Volume 1 também conta com as colaborações de Hugo Hori (sax soprano e barítono), Adriano Magno (teclado), Tiquinho e Bocato (trombones). Sobre este último e ao comentar as distinções técnicas entre fazer música no passado e no presente, em entrevista à CULTURA!Brasileiros o guitarrista e jornalista Luiz Chagas (aliás, nosso colunista da seção Discos) relembrou um inusitado episódio de bastidores de Sampa Midnight.

“A tecnologia evoluiu. Não a tecnologia de execução, mas de gravação. No Sampa Midnight, por exemplo, um disco feito (com arranjos de) pelo Paulinho e Itamar, quando tudo ficou pronto chamaram o Bocato e o Gigante Brasil (ex-baterista da banda, morto em 2008) para gravar trombone e bateria em um só canal. O estúdio tinha uma mesa de 14 canais, mas eles viajaram: gravaram um monte de coisas em 13 canais e deixaram o que sobrou para a bateria e o trombone.”

Pleno de frescor, e feito com produção bem mais esmerada do que o relato displicente acima, Volume 1, no entanto, tardou cinco anos para sair do forno. A ideia de lançar um primeiro álbum autoral do grupo foi anunciada em 2012, logo após a participação da Isca de Polícia no Calourada Unificada, festival realizado por alunos da USP em fevereiro daquele ano, que também reuniu Arrigo Barnabé, Patife Band e BNegão & Seletores de Frequência. “Resolvemos, enfim, fazer o disco no final do ano passado porque a gente viu que as entrevistas que demos falando sobre ele já tinham cinco anos e o prometido era que sairia no final de 2012. Sacanagem, né?!”, diverte-se Chagas.

Capa de Volume 1. O álbum tem fotos e projeto gráfico assinados pelo amigo Gal Oppido

Capa de Volume 1. O álbum tem fotos e projeto gráfico assinados pelo amigo Gal Oppido

Curiosamente, um dos motivos para o atraso alegado pelo guitarrista, que é pai da cantora Tulipa Ruiz e do produtor e também guitarrista Gustavo Ruiz, foi excesso de afinidade. “Faz tempo que o Paulinho tem a ideia de fazer um disco com a sonoridade da banda Isca. A gente falava sobre isso com alguma frequência, mas não levava o papo muito a sério, porque somos muito íntimos e perguntávamos: ‘Pra que fazer um disco? Faz sentido?’. Pensamos até que, se fosse para lançar um novo trabalho, era melhor fazer algo com outro nome, mas decidimos assumir o lance e fazer um disco do Isca com parceiros, amigos e admiradores do Itamar. Ou seja, é um disco da banda do Itamar sem o Itamar, mas que foi feito com gente que trabalhou com ele, que conviveu com ele e que gostava muito dele”, explica.

A predominância de Paulo Lepetit nas composições, Chagas explica, é algo naturalmente herdado dos dias de convívio com Itamar, desde os tempos mais remotos da Isca de Polícia. “Quando Itamar fez o Beleléu, ele obrigou a banda a tocar ao vivo tudo exatamente do jeito que ele queria. Entrei depois para improvisar, porque faltava esse elemento na Isca. Mas já no terceiro disco, Sampa Midnight, os arranjos ficaram na mão do Paulinho. Itamar dava a composição geral, mas era o Paulinho que completava tudo. Fazia umas puta frases complicadas”, diz.

A fluência na arte do improviso, apontada por Chagas como um dos fatores de seu ingresso na Isca durante a produção de Às Próprias Custas, reverbera em Volume 1 não só nas suas seis cordas elétricas, mas nos “diálogos” que ele mantém com o amigo Jean Strad. Chagas, no entanto, considera que, apesar da interlocução fluída, eles fazem parte de duas escolas assimétricas. “Toco totalmente diferente do Jean, que tem uma cultura infinita. Ele faz umas puta frases de jazz enquanto eu toco na base da intuição. Toco coisas que não estão no tom, que não estão na música. Cada um vai para um lado, fica torcendo pelo outro e, no final, tudo casa de uma maneira inusitada.”

Questionado sobre a recepção de Volume 1 no palco, Chagas demonstra satisfação – foi um delírio! –, e antecipa que há grande probabilidade de um segundo álbum, já finalizado e registrado em paralelo ao primeiro, vir à tona ainda em 2017. A concentração de um repertório novinho em folha sugere que as apresentações da banda devem ser mais regulares. O guitarrista, no entanto, diz que, a exemplo do País, o mercado musical anda para lá de morno, cenário que, segundo ele, transforma propostas indecorosas em algo natural. “Dias atrás recebemos um convite para tocar sem cachê.” A resposta? “Você tá loco, meu! Todo mundo aqui tem mais de 60. Tá doido?!”. Sessentões ou não, Volume 1 é prova inconteste que, detentores de uma invejável coesão, os músicos do Isca de Polícia mantém intacto o ímpeto jovem e a linguagem moderna que os tornou célebres.

MAIS 
Vejo o clipe de Dentro Fora, composição de Paulo Lepetit e Arnaldo Antunes 

Link curto: http://brasileiros.com.br/fj2E5
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