Última exposição de Tadeu Chiarelli na instituição cria diálogo entre artistas jovens e consagrados para refletir sobre a história e o cotidiano de São Paulo

1964-2017, Dora Longo Bahia. A instalação é composta por cadeira, caixa de fósforos, cinzeiro, copo de vidro, fios elétricos, fone de ouvido, galão de ferro cheio de água, garrafa de vidro, luminária,mesa e reprodutor de áudio. Foto: Divulgação

1964-2017, Dora Longo Bahia

No térreo da Estação Pinacoteca, ao lado da recepção, uma mesa chama atenção dos visitantes. Em cima dela, um copo d´água, um cinzeiro e um cassetete estão depositados ao lado de um fone. A cadeira vazia é um convite ao público que, ao se sentar, assume o ponto de vista de um preso político. No áudio, uma voz insistente faz as seguintes pergunta: “Onde você estava no dia 4 de abril? Você conhece essas pessoas?”  Sons de pessoas implorando se alternam ao barulho do cacete batendo na mesa. Em determinado momento, o interrogador fala: “É melhor você cooperar ou vamos levar você para a Cadeira do Dragão”.

Idealizada pela artista Dora Longa Bahia em parceria com a Cia. Marginal, a instalação simula uma sessão de interrogatório durante a ditadura militar brasileira. A obra, que tem grande impacto devido ao trabalho dos atores, ganha ainda mais força no edifício da Estação Pinacoteca, que, de 1940 a 1983, foi sede do Dops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo), uma das polícias políticas mais truculentas do País.

O trabalho de Bahia integra a exposição Metrópole: Experiência Paulistana, em cartaz no museu. São exibidas obras de 33 artistas, com nomes consagrados, como Carmela Gross e Leonilson, e profissionais mais jovens, cuja produção começa a ser conhecida. A exposição é a última da gestão de Tadeu Chiarelli, que será substituído por Jochen Volz.

Chiarelli, que também é o curador da mostra, fala sobre o projeto: “Em vez de enaltecer a iconografia paulista, que obviamente é belíssima, eu queria mostrar a perspectiva dos artistas sobre a metrópole, enfatizando as contradições de São Paulo, que no fundo são uma síntese do País”.

Para exibir esses múltiplos olhares, o curador partiu de três referenciais: o Pico do Jaraguá, o Monumento às Bandeiras e o próprio edifício da Pinacoteca. A maior parte dos trabalhos se encontra no segundo andar da instituição, mas também há obras espalhadas pelos elevadores, a biblioteca e os outros andares. O intuito é que o público percorra todo o edifício, que também abriga o Memorial da Resistência.

Junto com o trabalho de Bahia, outra obra que dialoga com o entorno do prédio é a de Raphael Escobar. O artista apresenta uma coleção de cachimbos utilizados para o consumo de crack. “Alguns eu compro, outros eu troco com conhecidos meus. O interessante é que esses objetos são bem específicos da região da Luz, sendo feitos de materiais eletrônicos como antena de rádio e capacitor de carro.”

Escobar também apresenta um manual que ensina como fazer seu próprio cachimbo. “Com os folhetos, eu mostro a criatividade que há nesses objetos. Produzi-los é algo complexo, eu mesmo sofri muito quando tentei fazer um. É por isso que há uma profissão que, dentro da Cracolândia, é a do cachimbeiro, alguém especializado nisso.”

O artista pontua que, ao expor esses objetos em um museu, sempre há um risco de eles serem fetichizados. “O trabalho carrega essa contradição. É muito interessante porque as pessoas dessa bolha que é a arte contemporânea olham os cachimbos, acham lindo ou qualquer coisa do tipo e depois saem na rua e precisam lidar com os usuários ali ao lado da Pinacoteca. É doido porque se cria um fetiche por objetos feitos pelos usuários, pessoas vistas como zumbis pela nossa sociedade.”

O artista também comenta a relação da obra com o prédio: “O trabalho dialoga com esse edifício que historicamente oprimiu muita gente. A pergunta que fica é: quem são os nossos exilados hoje? É preciso olhar para o próprio entorno da Pinacoteca”.

Monumento às bandeiras (2016), Jaime Lauriano

Monumento às bandeiras (2016), Jaime Lauriano

 Revisão histórica

No segundo eixo da exposição, destaca-se a escultura Templo de Minha Raça, de Victor Brecheret, datada de 1921. A obra retrata a figura dos bandeirantes. “A escultura tem essa preocupação com o movimento, o deslocamento da população, um tema que era muito caro ao artista”, afirma o curador.

Em frente a esse trabalho, em uma posição de confronto, há uma escultura de Jaime Lauriano. Trata-se de uma réplica, em pequena escala, do Monumento às Bandeiras, de Brecheret, feita a partir das munições da Polícia Militar e das Forças Armadas. A obra chama a atenção para parcelas da população que não se reconhecem nos símbolos da cidade, ainda muito associados à origem bandeirante.

Chiarelli fala sobre o diálogo entre as produções: “Quando eu exibo uma obra de Brecheret e na frente dela coloco outro trabalho, que é um arma de ataque feita por um jovem artista, eu ressignifico esse monumento. Aponto para outras possibilidades de compreensão do trabalho. E o papel do museu é justamente mostrar como cada geração analisa as obras de arte de uma maneira diferente, muitas vezes distante do sentido original”.

O tema dos monumentos também aparece na obra Projeto São Paulo, de Fernando Piola. A instalação é composta por uma série de caixas de mármore, que lembram urnas. Dentro de cada caixa, há imagens e informações sobre projetos de edifícios e monumentos que, mesmo tendo sido aprovados pela prefeitura, não foram realizados. Entre os casos citados, há referências à Galeria de Cristal, complexo arquitetônico de 1890 que incluía nove galerias interligadas no centro da cidade.  Na instalação também estão citados o projeto original do Museu Paulista e do Plano de Avenidas, do prefeito Prestes Maia (1896-1965), entre outros casos que não saíram do papel.

O artista comenta que a obra funciona como um arquivo de um futuro não concretizado. “Eu apresento uma espécie de dossiê desses casos, é uma homenagem a esses projetos. Ao mesmo tempo, a obra não deixa de ter esse caráter de mausoléu, falando da morte. No fundo, a instalação trata dessa construção da identidade paulista meio mal resolvida, com vários projetos interrompidos”, pontua Piola.

Cartografias afetivas

Montanha mais alta da cidade, o Pico do Jaraguá é a terceira referência da mostra. Chiarelli comenta que as obras escolhidas para esse núcleo tratam da “relação entre o céu e a terra”, além do tema da cartografia. O fotógrafo Caio Reisewitz, por exemplo, apresenta uma série de imagens, coloridas e em pequenos formatos, que retratam a montanha, entre outros pontos da cidade. Já Marcelo Moscheta cria um diário ficcional com anotações e desenhos de um explorador sobre o Trópico de Capricórnio, que passa no Parque Estadual do Jaraguá.

Os trabalhos mais politizados de Renata Felinto e Moisés Patrício poderiam parecer deslocados desse núcleo. Porém, o curador enfatiza que ambos produzem o que chama de “mapas afetivos da cidade”, refletindo sobre a presença do corpo negro no espaço público.

No vídeo White Face and Blonde Hair, Felinto apresenta uma performance que realizou em 2013. Com uma peruca loira e uma roupa elegante, a artista percorre a rua Oscar Freire, principal endereço das lojas de luxo da cidade. O vídeo é uma crítica ao estereótipo da mulher sexy.

“Tem um recurso do teatro que sempre me incomodou, que é o blackface, por ele estereotipar e ridicularizar o negro. Nesse vídeo, eu quis fazer o inverso, ridicularizando esse ícone de sucesso: a mulher branca, alta, loira e rica que passa as tardes consumindo”, afirma Felinto.

O vídeo também trata da experiência da própria artista na metrópole. “Eu mesma já sofri preconceito na Oscar Freire. Lembro que fui visitar uma galeria junto com amigos e as pessoas nos olhavam com cara de ‘o que vocês estão fazendo aqui?’. Foi muito desconfortável, era como se, mesmo sendo paulistanos, aquele lugar não nos pertencesse”, afirma.

Na série Aceita?, Moisés Patrício também trata da exclusão dos negros na metrópole. São cem fotos que o artista postou, ao longo de três anos, no Instagram. Todas as imagens retratam a sua mão direita segurando objetos que encontra pelas ruas da cidade, desde placas até brinquedos e artigos de jornais. Esses utensílios representam situações que Patrício viveu ou testemunhou, muitas delas de preconceito. “A série conta um pouco do desafio de um jovem negro que insiste em circular nos espaços simbólicos e culturais da cidade”, conta.

Segundo Chiarelli, a presença de artistas jovens, como Patrício e Felinto, é central para a mostra: “Para uma instituição, é muito mais fácil apostar no certo e só expor artistas bem-sucedidos. Mas um museu que pretende ter arte contemporânea, e essa é uma posição política da Pinacoteca, precisa se arriscar e mostrar os novos valores que estão surgindo na cidade. Poder uni-los com obras já consagradas é algo maravilhoso, um encontro que pulsa muito mais do que eu imaginaria”.

Em sua última exposição como diretor da Pinacoteca, Chiarelli afirma que pretende “batalhar” para que as obras que não pertencem ao acervo sejam adquiridas. “Não sei o que vai dar, é um trabalho longo de conversar com patrocinadores, patronos e a equipe curatorial do museu. Essas obras enriqueceriam nossa coleção, trazendo novos olhares.”

Chiarelli acredita que seu sucessor, o curador Jochen Volz, também terá um olhar voltado para as novas produções: “Ele está muito atento às questões sociais, raciais e de gênero que marcam a contemporaneidade”.

Metrópole: Experiência Paulistana
Até 18 de setembro
Estação Pinacoteca
Largo General Osório, 66 – Luz, São Paulo, SP
11 3335-4990

 

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