A afirmação, sobre Antonio Cândido, é do escritor Milton Hatoum. Em depoimentos, a professora e ensaísta Walnice Nogueira Galvão, o jurista Fabio Konder Comparato e a cientista política Maria Victoria Benevides falam sobre o legado do professor e crítico literário

Foto: Reprodução/Youtube

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O professor e crítico literário Antonio Candido é uma das poucas unanimidades no Brasil. Mesmo seus adversários o respeitavam profundamente. Formado em Filosofia, doutor em Sociologia, sempre pela USP, onde foi professor titular de Teoria Literária e Literatura Comparada, é tido como o maior intelectual brasileiro dos últimos 70 anos.  Ganhou quatro prêmios Jabuti, e também os prêmios Camões, Machado de Assis, Juca Pato e Alfonso Reyes, entre outros.  Formou gerações de críticos literários e professores. Militante socialista, ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores, do qual sempre foi uma das maiores referências. Casado com a professora e ensaísta Gilda de Mello e Souza (1919-2005), a quem conheceu nos tempos da importante revista Clima (1941-1944), teve três filhas: a escritora e editora Ana Luísa Escorel (da Ouro sobre Azul, que vem lançando a obra do pai), e as historiadoras Laura de Mello e Souza e Marina de Mello e Souza.

Walnice Nogueira Galvão, uma das maiores críticas literárias do País, foi assistente de Antonio Candido na USP. Ela destaca três de seus livros, cada qual representando uma vertente diferente em sua obra: o propriamente literário Formação da Literatura Brasileira, Os Parceiros do Rio Bonito, mais sociológico e antropológico, em que analisa as relações entre literatura e sociedade a partir da poesia caipira, e Teresina Etc., de história política, sobre a socialista italiana Teresina Carini Rocchi e sua atuação no Brasil. Em depoimento dado nessa sexta a Brasileiros, ela resume a importância do amigo e tutor:  “Ao longo do tempo, Antonio Candido foi definindo um método, que ele chamava de método integrativo, que procura escapar da especialização e compartimentação dos saberes. Isso implica em mobilizar na crítica literária a estética, a sociologia, a história, a linguística, a psicologia e a psicanálise, e assim por diante. O que resulta disso é uma crítica literária aberta a todas as contribuições e, no caso dele, a busca incessante de uma escrita de grande clareza, avessa a todo tipo de jargão profissional.”

O jurista Fábio Konder Comparato classifica Candido como o maior crítico literário do seu tempo. “Em homenagem à memória de sua pessoa, e não apenas à sua obra, quero ressaltar que ele foi também o protótipo do homem cordial, no sentido em que Ribeiro Couto pela primeira vez empregou a expressão, logo em seguida retomada por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. Antonio Candido fascinou todos os que tiveram a felicidade de conhecê-lo, pela nobreza de sentimentos, a lhaneza do trato e uma clareza permanente de atitudes”.

A cientista política Maria Victoria Benevides enaltece o “espírito público” de Candido: “Mestre, no melhor e mais pleno sentido da palavra, Antonio Candido fará uma falta ​tão grande que só de pensar dói profundamente. Com tantas  qualidades, destaco a inteligência ​​clara, a erudição fértil em vários campos, o respeito a todos,  a generosidade constante  do intelectual socialista comprometido com o desenvolvimento pleno do Brasil, com a política ética e o espírito público, ​com os direitos humanos de todos, inclusive o direito à literatura. E ainda tinha um senso de humor encantador, uma conversa sempre ‘imperdível’…Quanta saudade! Quanta gratidão!”

O escritor Milton Hatoum também conviveu com Antonio Candido, a quem devotava grande admiração. Para ele, Candido “foi mais do que um crítico literário, foi um pensador humanista que pensou o Brasil em toda sua complexidade através da literatura. A obra dele pode ser vista sob vários ângulos, o de grande leitor, professor, historiador e intérprete da literatura, e do militante político de postura ética de enorme dignidade e grandeza. Formou gerações de leitores e grandes críticos literários, como Davi Arrigucci, José Miguel Wisnik, Walnice Nogueira Galvão, Roberto Schwarz e João Luís Lasetá, entre outros, sem contar os mais jovens. Acho que formou pelo menos três gerações de professores. Tinha uma escrita poderosa que traduz com aparente simplicidade coisas muito complexas. Era acessível. Fazia questão disso. Privilegiava a escrita com clareza, porque achava que a elite escreve de modo empolado, cifrado. Estive na casa dele algumas vezes. Ele sabia tudo. Sempre fui louco pelo Graciliano Ramos e ele me mostrou vários aspectos do escritor. Ele tem esse livro, Confissão e Ficção, sobre o Graciliano, que é maravilhoso. Adoro também um livro dele chamado O Discurso e a Cidade, em que escreve também sobre autores estrangeiros, como no ensaio maravilhoso sobre o Joseph Conrad. É um dos grandes livros da crítica no Brasil. O legado ético e intelectual que deixa é enorme. É raro um intelectual desse porte num país que caminha para o fascismo tupiniquim, como dizia o Graciliano. Antonio Candido, aliás, sempre falava da importância de combater o fascismo. Era um socialista convicto, nada dogmático, com uma mente muito aberta ao diálogo, sempre visando a fraternidade entre as pessoas e povos.”

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  • Cadu Ortolan

    Uma pequena correção, no que suponho seja um erro de digitação: o crítico e professor citado por Milton Hatoum é João Luís Lafetá.