Estamos inseridos num ecossistema econômico internacional que dita definitivamente as leis da compra e venda. A questão não é esta. A questão é o que cada um tem a dizer e não recua em relação a isso, e o que o outro tem a ver, refletir, comprar ou não

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Sem dúvida
, o circuito da arte sempre sofreu, sofre e sofrerá de uma certa esquizofrenia que, por incrível que pareça, cumpre parte da sua condição de existência.

Consome-se o consumo que denuncia, consomem-se obras que denunciam o valor de mercado e consomem-se artistas que ironizam o mercado enquanto suas obras estão cada vez mais valorizadas, até porque, certamente, expressam uma trajetória de trabalho firme. 

Estamos inseridos num ecossistema econômico internacional que dita definitivamente as leis da compra e venda. Ponto. A questão não é esta. A questão é o que cada um tem a dizer e não recua em relação a isso, e o que o outro tem a ver, ouvir, refletir, deletar, esquivar, comprar ou não.

Enquanto alguns artistas trabalham a matéria, pesquisam, arquivam, pintam ou esculpem, outros estão focados em dizer o que lhes importa como arte: denunciar, através de velhos e novos suportes ou mídias, o ecossistema onde estamos inseridos.

A documenta 14, o evento até hoje mais importante da arte contemporânea no mundo, espaço sempre utilizado para ver tendências e repensar o papel da arte no mundo e que acontece a cada cinco anos na cidade de Kassel, Alemanha, se estende, desta vez, a Atenas, na Grécia, justamente como parte da provocação, que questiona, segundo seu diretor artístico, o curador polonês Adam Szymczyk, “o conceito de identidade, pertencimento, raízes e propriedade em um mundo que está visivelmente em colapso”.

O filósofo e escritor Paul Preciado afirma em um texto que faz parte do Parlamento dos Corpos, um dos programas da exposição: “Como se pode produzir uma crítica dentro de uma megamostra em uma economia neoliberal globalizada? Somos forçados a abraçar contradições. Pode o museu ser usado contra seu próprio regime patriarcal e colonialista de visibilidade? Podem as tensões entre Atenas e Kassel ser usadas como um espaço crítico para pensar uma ação artística alternativa e projetos ativistas além do conceito de estado-nação e corporações? Como se produz ação através da cooperação? Vamos falir, mas vamos tentar”.

Estas são apenas algumas das diversas situações nas quais o pensamento artístico fala e traz à tona o lugar que a arte cumpre não só como um veículo para a mensagem política, mas sim como um ato de resistência em si mesma. Essa certa esquizofrenia permite estar dentro e de dentro poder falar. A arte serve para isso, para criar e semear, para permitir um contato com algo que ajuda a nos deslocar de imperativos na sociedade em que convivemos.

Que o digam, nesta edição, páginas e páginas sobre um movimento que não para.

Boa leitura. 

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