Realizado pela Arte! Brasileiros, em parceria com a SP-Arte, Talks reuniu curadores e pesquisadores durante a 13 ª edição do festival

Giancarlo Latorraca, Lissa Carmona e Maria Cecília Loschiavo em Talks sobre o design no Brasil. Crédito: Divulgação

Giancarlo Latorraca, Lissa Carmona e Maria Cecília Loschiavo em Talks sobre o design no Brasil. Crédito: Divulgação


Em um momento de proliferação
de suportes, mídias e ideias, período em que a arte se abre para a multiplicidade de interfaces em áreas correlatas como o design e toma as ruas das cidades por meio do grafite, sua relação com o espectador parece carecer de um elemento básico: o tempo. Foi em torno desse paradoxo que se abriu o ciclo de debates Talks, realizado pela SP-Arte em parceria com a Arte!Brasileiros, durante a 13ª edição da maior feira do gênero da capital paulista. O evento aconteceu entre 6 e 9 de abril no Pavilhão da Bienal, em São Paulo. 

No primeiro dia de palestras, o curador de programação e eventos do Instituto Moreira Salles, Lorenzo Mammì, a curadora e editora Ana Paula Cohen e o editor da revista Frieze, Dan Fox, debateram o papel da arte como forma de resistência, com mediação de Patricia Rousseaux, educadora e publisher da ARTE!Brasileiros. Mammí apontou ruídos entre a natureza da arte (de assimilação e compreensão mais lentas) e a velocidade imposta pelas novas mídias.

Ele  lembrou também que analisar o passado sempre foi uma prática presente nas produções artísticas e que é preciso refletir sobre o tempo dos processos artísticos e de suas rupturas. Para Mammì, impõe-se hoje recuar e observar o passado para dar o passo adiante. “Acho que perdemos a capacidade de focar o salto, e isso está ligado a uma dificuldade em estabelecer certa distância sobre quais são nossos modelos”, disse. Mammì elencou quatro qualidades para que a arte cumpra o papel da resistência: além de falar da lentidão, ele mencionou a ambivalência (ou a capacidade de passar mensagens abertas e ambíguas), a precisão na expressão da verdade e, por fim, o estímulo à reflexão.

A curadora Ana Paula Cohen também encontrou em referências do passado exemplos de resistência e resposta aos momentos políticos e sociais, citando em sua fala a artista Lygia Clark, a obra Falha, de Renata Lucas, e Cildo Meirelles, com suas notas de dinheiro estampadas com a frase Quem Matou Herzog. Segundo Cohen, a arte opera muito mais na esfera da micropolítica, em que a percepção do que não é dito pode adquirir protagonismo.

Com o olhar voltado para os cenários artísticos americano e inglês, Fox citou a vitória de Donald Trump e a aprovação do Brexit como assuntos urgentes a serem não só discutidos mas principalmente colocados em destaque pelos artistas. “Hoje não basta assinar um abaixo- assinado para atuar politicamente”, defendeu o editor da Frieze. “Se você quer ser útil, vai lá e proponha algo.” Enquanto cobrou um papel mais ativo dos artistas norte-americanos, Fox também chamou atenção para os riscos de a resistência voltar-se contra ela mesma em um contexto histórico imediatista e midiático.

Para ele, a indústria da publicidade incorporou diversas técnicas de expressão e conceitos, como individualidade ou até mesmo resistência. “Hoje em dia existe muito uso da não verdade para desvirtuar fatos. Os artistas não têm poder sobre todas as ferramentas da resistência”, afirmou Fox. Na contramão de seus colegas de debate, o editor afirmou que é preciso olhar adiante e não se prender a movimentos de resistência do passado. “Minha crença fundamental é que precisamos manter os atos de simbologia, de pragmatismo. Devemos continuar produzindo arte, indo a protestos.”

 Além dos muros

O potencial da arte de criar redes e engajar pessoas também foi tema do quarto e último Talks da semana. O curador e fundador da Choque Cultural, galeria pioneira na divulgação da arte urbana  no País, Baixo Ribeiro, dividiu a mesa com o filósofo Nelson Brissac e a jornalista Gabriela Longman para uma conversa sobre a cidade como espaço de arte e apontou o grafite como principal elemento agregador entre a arte e os moradores da cidade, enfatizando a relevância das artes de rua, mesmo sem o caráter permanente das obras de arte. “Se o objeto da obra não é permanente, o legado da obra do grafiteiro é”, afirmou Ribeiro, citando ainda o poder do grafite de engajar pessoas e criar redes. Criador do projeto Arte/Cidade, que desde 1994 promove intervenções no centro e nas áreas periféricas de São Paulo, Brissac foi além e pontuou as mudanças frenéticas das cidades e de como a arte de rua acompanha esse dinamismo. “Estamos vivendo uma iminência de colapso das condições urbanas que não pode passar sem ser percebido pela arte.”

Assim como o editor Dan Fox ressaltou a importância do contexto político na produção artística, Brissac também considerou que o ambiente desafiador e hostil das ruas faz com que o artista saia da sua zona de conforto e interaja com o que existe a sua volta. “Espaços institucionais, como museus e galerias, estabelecem padrões de percepção com os quais nos acostumamos facilmente. Quando as produções são deslocadas para a cidade, somos estimulados a rever nossos parâmetros, estabelecendo novas formas de olhar e interagir com os trabalhos.” Essa mudança, segundo o filósofo, pode estimular artistas a repensar seus procedimentos. ”A questão formal é essencial. Quando um artista se posiciona politicamente, não pode ser apenas um discurso, isso precisa estar na obra também, o que é bem mais difícil. A maioria dos artistas foge desse embate. Mas claro que há exceções. Regina Silveira, por exemplo, poderia estar aproveitando o seu sucesso em Paris, mas decidiu trabalhar conosco na zona leste.”

Para Ribeiro, mais do que conquistar muros e ruas, ainda é preciso lutar contra a cultura do medo. Ele acredita que um dos grandes impasses das metrópoles brasileiras é o “discurso do medo”, que leva as pessoas a se ilhar nos espaços privados e se “esconder em seus veículos blindados”, o que ele chama de urbanismo de bolha e que impede a população de se apropriar dos espaços públicos. Ele lembrou intervenções que estimulam uma relação mais amigável com a cidade. “Há um movimento de poesia urbana que me interessa muito. Eles criam roteiros e vão espalhando frases irônicas pelo espaço público, que brincam com as placas e sinalizações.” Entre exemplos citados por ele estão os cartazes com dizeres como “Mais Brecht, menos Odebrechet”, “Não pise nos outros” ou ainda “Calma, porra!”.

Grafite é o novo jazz

“O grafite tem para o século XXI um papel tão importante quanto o jazz para o século XX”, disse a jornalista Gabriela Longman durante sua participação. Ela reforçou o papel da arte urbana na compreensão das mudanças frenéticas do mundo contemporâneo. “Os dois (a arte urbana e o jazz) nasceram da técnica e do improviso, sendo expressões fortemente associadas às populações marginalizadas. Ambos têm um viés irônico e, ao mesmo tempo, a representação do sofrimento. E, assim como o grafite hoje, o jazz já foi visto como um estilo menor.”

Ao lado de seu pai, o fotógrafo Eduardo Longman, Gabriela documentou no livro Labirintos do Olhar grafites em três grandes cidades: São Paulo, Nova York e Berlim. Para ela, o grande marco no processo de institucionalização do grafite foi em 2007, quando a Tate Modern convidou artistas para grafitar sua fachada. “Seja no museu, seja em outro lugar, o essencial é que o grafite dialogue com a cidade”, concluiu. Da relação entre as instituições e a arte urbana, Brissac acredita que falta “às instituições públicas apoiar a produção artística efêmera”. Efemeridade essa que ele acredita estimular o processo de experimentação na criação. “Enquanto nós saímos de casa para ver arte em um museu, um teatro, a arte no espaço urbano encontra a gente.”

Linhas paralelas

Pelo segundo ano consecutivo, o design ganhou destaque na SP-Arte, com setor exclusivo e mesa de debate no Talks. Na manhã do dia 7 de abril, o diretor do Museu da Casa Brasileira, Giancarlo Latorraca, a professora de Design da USP Maria Cecília Loschiavo e a diretora da Etel, Lissa Carmona, se reuniram, com mediação de Kristina Parsons, da plataforma Artsy, para resgatar a trajetória do design no Brasil e lembrar que arte e design andam juntos há tempos.  Cinco móveis da Etel feitos em parceria com o artista Carlos Vergara, que confirmam essa ligação, estavam à venda na SP-Arte. A reedição de peças icônicas da arquiteta Lina Bo Bardi também reafirma a ideia de que o design não caminha sozinho.  Para trazer de volta as peças Carrinho de Chá, Mesa Tríplice, Mancebos, Revisteiros, Escrivaninhas e Poltrona Tridente, Carmona contou que estudou a fundo o acervo de Lina Bo Bardi. “Há uma questão de ética muito importante aqui. Como trazer obras clássicas, atualizá-las e colocá-las no mercado? Não é algo simples”, comentou.

Além do cuidado em reeditar peças históricas, o grupo debateu outros dilemas do design contemporâneo e de como o design pode acompanhar o contexto atual. “Em tempos de incerteza e crise ambiental, o design pode ser protagonista, valorizando modos de vida pouco convencionais”, afirmou Loschiavo. Em sua palestra, a professora citou como exemplo pessoas em condição de rua que, a partir de materiais de papelão, criam estruturas de moradia. “São culturas de adaptação e que têm um enorme potencial”, afirmou.  Latorraca também falou sobre a influência do contexto histórico na formação do design brasileiro, citando, por exemplo, a vinda da família real para o Brasil em 1808 como um marco na sofisticação dos móveis brasileiros e também da cópia de modelos europeus. “A questão da cópia dos modelos de fora é um tema muito antigo. Ainda não resolvemos essa questão, para a qual Lina Bo Bardi foi figura imprescindível”. Para Latorraca, o Museu da Casa Brasileira é um bom retrato da trajetória do design brasileiro. “A coleção do Museu da Casa Brasileira tem matriz antropológica.”

Entre discussões sobre os caminhos da arte e do design no Brasil em tempos de crise, um casal de colecionadores explicou passo a passo como se mantém em contato direto com galerias e artistas e de que forma escolhe as obras de sua coleção. Donos da Hudson Valley Center of Contemporary Art, na cidade de Peekskill, ao norte de Nova York, Livia e Marcus Strauss contaram sobre a relação que criaram com jovens artistas e de como investiram na coleção, uma das cem melhores dos Estados Unidos segundo a revista Art & Antiques.

Colecionadores desde 1960, ele médico e ela doutora em estudos judaicos, eles também mantêm a galeria Marc Strauss em Lower East Side, em Manhattan, e afirmam comprar apenas peças que realmente gostam e apostam em novos artistas.

Link curto: http://brasileiros.com.br/qahB3
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