A historiadora e professora da USP Marisa Midori Deaecto, lembra das conversas com o grande crítico literário e de suas posições contra o conservadorismo no Brasil

“Simbolicamente, era como se houvesse uma ligação profunda entre a aclamação de agora e aquele texto de 1936 [Raízes do Brasil], segundo o qual só a transferência de poder às camadas espoliadas e oprimidas poderia quebrar o velho Brasil da iniquidade oligárquica.”
(Antonio Candido, 1982)

A paisagem intelectual brasileira perdeu toda a sua graça, nesta última sexta-feira, 12 de maio de 2017. Desbotou, ficou muda, o horizonte se perdeu. Sempre imaginei que o Professor Antonio Candido tivesse o dom da ubiquidade, pois embora já fosse aposentado quando ingressei na Universidade de São Paulo, em 1992, seu nome, seus livros e suas posições políticas sempre muito francas, particularmente nos momentos mais polêmicos, estavam por todas as partes e funcionavam como um luzeiro entre os jovens militantes da FFLCH. 

Florestan Fernandes e Antonio Candido figuravam no nosso panteão imaginário. Em um discurso duro e certeiro, proferido em 1994, do qual participavam o reitor, diretores, professores, alunos e funcionários da Universidade, Florestan rememorava a história daquela instituição, a qual, em certo sentido, perfazia a sua própria jornada: “Hoje a USP não é a Universidade de 1934; nem é a Universidade em que Antonio Candido pontificava na crítica literária, e outros professores subiram no cenário intelectual brasileiro e mundial. Também não é a universidade dos ditadores, nem é a universidade para nossos dias. A universidade que devemos querer agora é aquela que se volte para a conquista do futuro”.

Entre perdas e ganhos, continuamos a buscar a universidade para nossos dias. O que não descartava, certamente, a utopia de um Brasil mais justo e mais igualitáriopara a conquista do futuro. O primeiro se foi muito cedo, não teve tempo de vivenciar as vitórias e as debacles dos tempos futuros. Mas o professor Antonio Candido se manteve firme e constante no seu apoio irrestrito à democracia, à igualdade e aos movimentos sociais. Não escrevia e não se expressava em demasia. Tudo nele era justo e temperado.

Esse traço sereno de seu temperamento foi por ele notado em uma conversa, não faz muito tempo. Ao recordar as noites de vigília no prédio da ruaMaria Antonia, nos anos de chumbo, comentou com um sorriso jovial que os alunos adoravam suas conversas. Sim, ele era um prosador exímio e não conseguia se alterar, perder a paciência, embora reconhecesse que o momento era dos mais críticos na história da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Vale lembrar que ele conhecera a ditadura Vargas e se tornara voz ativa contra o regime instaurado entre 1937 e 1945.

Nasceu de sua pena uma das análises mais precisas do caráter conservador de nossa sociedade: “pois à medida que o tempo corre verifica-se que um dos traços fundamentais da mentalidade e do comportamento político no Brasil é a persistência das posições conservadoras, formando uma barreira quase intransponível”. Nesse escrito de 1988, ele identifica algumas vozes dissonantes: Joaquim Nabuco, no interstício (e só nele!) da campanha abolicionista; Manoel Bonfim, nas formulações sobre o Brasil; e Sérgio Buarque de Holanda, “o primeiro intelectual de peso a fazer uma franca opção pelo povo”. A análise se encerra em 1936, quando o ensaio Raízes do Brasil irrompe com seu programa aberto contra o Brasil passadista, agrário e patriarcal. Sabemos bem que outras revoluções possíveis viriam despontar na paisagem intelectual brasileira.

No artigo Radicalismos,demonstra de forma eloquente a astúcia do intelectual: ele aponta o traço marcadamente conservador do pensamento e da praxis política brasileira, de modo a atribuir ao povo a única via de transformação possível. Naqueles idos de 1980, quando a intelectualidade era chamada a tomar partido, nosso intelectual maior, um socialista por temperamento, como gostava de dizer, não titubeou ao participar da fundação do Partido dos Trabalhadores, talvez, o radicalismo possível na paisagem política do Brasil. Mas, certamente, como nos ensina Antonio Candido, um veioabertopara a militância do intelectual desenraizado de sua classe.

Saudades, Professor.

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