O angolano Ondjaki tem residência no Rio de Janeiro, mas mantém o olhar na capital angolana – cenário de muitos de seus livros e histórias de família

O escritor angolano Ondjaki durante passagem rápida por São Paulo para o lançamento de O Assobiador. Foto: Diego Rousseaux

O escritor angolano Ondjaki durante passagem rápida por São Paulo para o lançamento de O Assobiador. Foto: Diego Rousseaux


Acostumado a escrever sobre personagens reais de sua infância em Luanda, Ondjaki desconhece a origem do protagonista de seu último livro lançado no Brasil, O Assobiador, narrativa sobre um homem misterioso que, com um assobio mágico, muda a vida e as perspectivas dos moradores de um pacato vilarejo em Angola. “A questão não é quem ele é, mas o que ele faz. Talvez ele funcione um bocadinho como espelho. Quando assobia, as pessoas são capazes de sentir, se autorizam a sentir elas mesmas”, explica o escritor em entrevista à CULTURA!Brasileiros durante uma rápida passagem por São Paulo para o lançamento da obra, publicada em 2002 e reeditada este ano com anotações do escritor. “Gosto dele porque é um livro que não entendo bem, e gosto de não entendê-lo.”

A sensação de desconhecido, revela em tom particular, é mais comum às poesias que escreve e por isso, talvez, as publique com menos frequência. “Elas vêm de um lugar de sensação, de pele, textura, intensidade”, afirma, citando como referências da poesia “verdadeira” os também angolanos Rui Duarte de Carvalho e Ana Paula Tavares; os portugueses Antonio Ramos Rosa e Sofia de Mello Breyner; e os brasileiros Adélia Prado e Manoel de Barros. “Sei quando meus contos e novelas estão prontos. A poesia é muito mais uma partilha de momentos que não entendo bem. Publico para partilhar, para mostrar um bocadinho onde é que estou e em que momento da minha vida está minha caminhada.”

Com 40 anos, 17 deles dedicados à literatura, Ondjaki – que significa em umbundu aquele que enfrenta desafios – tem 22 livros publicados e cerca de dez prêmios, entre eles o Jabuti, com o romance AvóDezanove e o Segredo do Soviético, e o José Saramago por Os Transparentes. Com uma trajetória que impressiona pelos números e pelo ritmo das produções, ele parece ter como principal ambição contar histórias envolventes, como as de sua avó Agnette, que reinventava para o neto as narrativas da família em noites compartilhadas pelos dois. Mãe de sua mãe, foi ela quem plantou a semente de prosador no neto. Cercada de outros estímulos, ela brotou com força, como se viu.

Não que sua casa fosse cheia de livros, nem que os pais fossem ávidos leitores, apesar de a mãe ser professora de Português e ele “bater” em uma máquina Hcesar as provas que ela escrevia à mão. Para Ondjaki, a inspiração veio de pessoas e situações ao redor: da infância no bairro da Praia do Bispo, onde morava Agnette, à casa de um tio intelectual e sua “vastíssima” biblioteca. “Acho que houve uma construção inconsciente do universo de contar. O contexto Luanda e as personalidades de algumas pessoas em volta facilitaram o aparecimento do universo literário na minha vida.”

Biblioteca do Tio Joaquim
Aos seis anos, ao entregar uma redação sobre o Sol, o menino que queria se livrar das aulas de Português para jogar bola provocou a ira da professora Angélica – com quem Ondjaki fala até hoje e cuja filha, Romina, é uma das personagens do livro Bom Dia, Camaradas. A professora queria entender quem havia feito aquele texto, se era um primo, os pais do garoto ou a irmã mais velha. “E eu, desesperado, achando que a bronca era por ter feito a redação às pressas”, conta, com um jeito fácil de prosador, a respeito do que ele lembra ser um dos primeiros vestígios de sua ligação com a escrita.

O namoro com as letras ficou mais sério aos 13, quando o tio Joaquim, um ex-padre casado com a irmã de sua mãe, abriu ao sobrinho sua recheada biblioteca e ofereceu como presente de aniversário dois exemplares: A Náusea, de Jean Paul-Sartre, e Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. O segundo, que considerou chato e confuso, só foi realmente lido muitos anos depois, quando descobriu não só o colombiano como outros escritores latino-americanos.

Na escola, já estudava Manuel Rui Monteiro e o moçambicano Luis Bernardo Honwana e, em casa, via na televisão novelas baseadas em obras brasileiras como Gabriela, O Bem-Amado e Roque Santeiro. “Quando volto a encontrar o García Márquez e as loucuras – quando falo loucuras, falo realismo -, começo a ver Angola dita pela boca dele. Penso ‘não, não é possível, esse cara está a falar de Angola’. E não, ele fala da Colômbia”, conta, rindo, ao lembrar que em Angola existe uma cidade chamada Macondo, cenário fictício para a história épica de García Márquez. “De repente, olho para trás e vejo minha família, minha avó, meu tio ex-padre, meus pais – que se conheceram na guerrilha -, o marido da minha avó, que percorreu o país todo no tempo dos portugueses. Sendo escritor, era impossível não brotar a semente com tanto material a minar.”

Munido dos casos contados pela avó e das publicações presenteadas pelo tio, aos 15 anos Ondjaki se mudou para a casa de uma tia em Portugal, um pouco para fugir da rotina de Luanda, um pouco para descobrir coisas novas. Ao morar na casa de uma tia tradutora, com milhares de livros e cinco gatos, estreitou seus laços com a escrita e, mesmo optando pela faculdade de Sociologia, não se afastou do que já parecia um caminho certo. “Fiz dois anos de escola em Portugal e tinha muito tempo livre para ler porque era muito mais fácil que o ensino em Angola, difícil demais. Em Portugal era ridículo de fácil.”

A escolha da faculdade veio menos de um interesse genuíno e mais pela escolha de um curso menos exigente, sem aulas de manhã ou aos sábados. Dos anos na universidade não lembra muita coisa, a não ser dos rascunhos dos textos que escrevia durante as aulas e de aprender a reconhecer os próprios preconceitos. “Não se passa incólume por um curso de Sociologia. Aqui no Brasil tenho meus preconceitos políticos, mas também sei a origem deles. Tenho tendência a preferir tudo de esquerda, assim treino-me para ter a capacidade de ouvir e tentar entender o que as pessoas de direita têm a dizer”, conclui. 

Uma cidade aparentemente encantadora
Assim como decidiu deixar Luanda, Ondjaki resolveu retomá-la como ca­sa. Depois de cinco anos em Portugal, voltou para a vida em família e às histórias locais, transitou entre Itália e Angola para concluir um doutorado e, aos poucos, engrossou o número de livros publicados, como Bom Dia, Camaradas, E Se Amanhã o Medo e Os da Minha Rua. Ao lado do amigo e documentarista angolano Kiluanje Liberdade, produziu o documentário Oxalá Cresçam Pitangas, sobre moradores da capital angolana. Pela primeira vez, o escritor saiu do papel de contador e deu voz para que cada personagem fosse narrador da própria vida. A experiência, trabalhosa e dolorosa (considerou difícil o trabalho a quatro mãos), rendeu boas memórias e a vontade de continuar. “Hoje não tenho tempo, mas gostaria muito de contar outras histórias na ficção. Sei também que Angola tem outras prioridades, e que não tem política definida para o cinema”, comenta.

Apesar de ser Angola o principal cenário de seus livros, o escritor vive desde 2008 no Rio, por escolha pessoal e não política, como faz questão de frisar. No Brasil, fez família, amigos e vive de perto as desigualdades que antes só vivia em seu próprio país. “Geograficamente e fisicamente o Rio é uma cidade encantadora. Só que quando uma pessoa mora numa cidade ela não olha só para o maravilhoso”, comenta. “O Rio – e aí me estendo ao Brasil – tem tantos problemas sociais, políticos e de racismo. Como é que vou dizer que o Rio é uma cidade maravilhosa?”. Contido ao falar dos problemas atuais do Brasil, Ondjaki evita assumir uma posição política mais ativa até mesmo em seu país de origem, onde, segundo ele, só se pronuncia “quando o silêncio é perigoso”.
Ao ver com distância os atuais acontecimentos da política brasileira, o escritor acredita que o País caminha para trás. “O que vamos ver agora é preocupante, não pela cor política através do golpe, mas pela série de regressões que parecem acontecer.” Quanto a Angola, ele é firme ao falar sobre a necessidade de consolidação de um processo democrático, mesmo que o governo vigente tenha sido eleito. “Democracia são práticas cotidianas, civis e sociais. Nesse sentido ainda há muito que percorrer.”
Além das questões políticas angolanas, ele se mantém atento às ebulições culturais de lá e se preocupa com o déficit literário do país, principalmente em literatura infantil. Autor de livros infantojuvenis, diz não se sentir obrigado a preencher esse espaço da escrita para crianças, e que “só dá luz às ideias que brotam”. E continua: “Angola tem cumplicidade com o ato de contar o cotidiano, com a ficção cotidiana e o vício da teatralidade. Lá não sabemos muito bem as fronteiras da palavra verdade. Manuel Rui já dizia: ‘Não quero escrever, eu quero oratura’”.
Quanto ao próprio estilo de escrita, Ondjaki hesita se autorrotular, já que considera estar no que seria o meio do caminho de sua trajetória literária. “Quando olho para trás o que vejo nos meus livros são pessoas, pessoas, pessoas… e fico feliz com isso.”

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