Para o professor da Sorbonne François Jost é fundamental ver o confronto entre os candidatos e isto a TV faz melhor que a Internet

Francois JOST Portrait foret

Na era da internet, a velha televisão ainda é o meio de comunicação preferido dos franceses para acompanhar a eleição presidencial. Segundo François Jost, professor de Mídia da Sorbonne, a TV reúne não somente todos os candidatos nos debates, mas também um público variado. Nessas emissões avaliamos a “honestidade” dos políticos, como reagem aos ataques adversários, etc. Mas Jost, de 67 anos, alerta: “Não se deve confiar nas aparências”. O título do quarto livro de Jost publicado no Brasil é Do Que As Séries Americanas São Sintomas (Porto Alegre: Sulina, 2012).

Brasileiros – O senhor alega que a TV não morreu. Isso se deveria ao fato de o sistema eleitoral francês ter mudado ao se americanizar com a introdução de primárias e, portanto, haver mais debates televisivos?
François Jost – A TV é o único meio de comunicação em que você reúne todos os candidatos, ao contrário da Internet, que fragmenta. Na França, as primárias foram introduzidas na escolha do candidato socialista em 2012. Nenhuma rede televisiva queria primárias. No entanto, em 2016 e 2017 as primárias do partido Os Republicanos e do Partido Socialista tiveram altíssimos níveis de audiência. A TV continua a ser a plataforma midiática de grandes eventos ao vivo.

O esquerdista Jean-Luc Mélenchon, líder do movimento França Insubmissa, tem feito, com sucesso, uma forte campanha através das redes sociais.
Mélenchon tem até um canal no YouTube. Mas as pessoas interessadas nessas emissões via Internet já votarão no candidato da França Insubmissa. Lembre-se que nesta eleição presidencial uma em cada três pessoas está indecisa. Queremos ver os confrontos entre candidatos, e não somente como debatem, mas como “brigam”, como reagem às objeções dos outros. Fazer monólogos na Internet não é suficiente para convencer.

A TV será um peso no voto dos indecisos?
Sem dúvida, terá mais desta vez do que nos pleitos anteriores. No entanto, ninguém ganha um pleito porque expõe com habilidade o seu programa em debates. Isso porque entendemos as posições de todos os candidatos através de outras fontes, não via TV. Em última análise, fundamental é a credibilidade da palavra dos candidatos. A TV nos incita a julgar os homens, sua sinceridade, etc. Mas veja como os recentes acontecimentos nos ensinaram a tomar mais cuidado com as aparências dos candidatos. Mesmo assim, a TV ainda é o único meio de comunicação que nos permite forjar uma ideia da sinceridade do locutor.

Por últimos acontecimentos o senhor se refere ao affaire François Fillon, o líder conservador acusado de corrupção…
Nos debates, Fillon me dava a impressão de ser um homem calmo e honesto. Descobrimos que ele é exatamente o contrário. E assim os jornais e revistas transformaram o affaire Fillon em uma novela para vender mais exemplares. Este caso é muito semelhante aos cenários das novas séries de TV. Gradualmente, você descobre que o herói tem um segredo, e esse segredo revela o “dark side” do homem.

Como vê a cobertura das eleições na França pela mídia francesa?
Dizem que muitos casos de corrupção têm impedido debates reais. Isso é falso. Nunca houve tantos debates, com tantos candidatos, e, sublinhe-se, antes do primeiro turno da presidencial. É óbvio que a mídia passa muito tempo falando sobre o “caso” Fillon, mas isso é normal: nós não elegemos apenas um político, escolhemos também um candidato se apreciamos o ethos, o comportamento moral dele. Mas, como se diz, não se deve confiar nas aparências.

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