Em Mensur, livro produzido ao longo de sete anos, Rafael Coutinho utiliza de suas experimentações gráficas e mudanças pessoais para falar sobre as várias faces da violência que permeiam as relações humanas

Mensur de Rafael Coutinho

Mensur

Um dos artistas mais criativos e talentosos do quadrinho brasileiro, Rafael Coutinho, acaba de lançar Mensur (Quadrinhos na Cia.), resultado um de projeto que demorou sete anos para ficar pronto (2010-2017). Em mais de duzentas páginas em preto e branco, Rafael conta a história de Gringo, um andarilho que viaja por várias cidades procurando por trabalho, respostas, respiros e um pouco de paz. Tudo isso enquanto tenta lindar com fantasmas de seu passado e com sua obsessão pelo mensur, uma luta de espadas surgida na Europa do século XV e incorporado na vida acadêmica de algumas universidades no século XIX. Através da saga pessoal de Gringo, o quadrinista discute intimamente, através de suas experimentações nos desenhos e na narrativa, questões como ética, honra, vingança, hierarquias, machismo e todo tipo de violência inerente às relações humanas. Após a leitura de o Cultivo do Odeio, um ensaio sobre a violência no século XIX, do historiador alemão Peter Gay, de uma viagem a Ouro Preto, onde conheceu repúblicas e fraternidades universitárias, Rafael iniciou uma busca por discutir em um quadrinho aspectos da agressividade humana, classes sociais, ódio e, até mesmo, o limite (ou falta dele) nos quadros, nas artes plásticas em projetos editoriaise e na história de cada um. Sensível, maduro e ambicioso, Mensur dialoga com os tempos atuais e discute a agressividade humana e o ódio que permeia as classes sociais, além de chamar a atenção pela beleza dos traços. Em entrevista à CULTURA!Brasileiros, o autor falou de seu processo de criação, inspirações e conflitos.

CULTURA!Brasileiros: Como foi o desenvolvimento de roteiro? Ele ficou pronto desde o inicio do processo ou durante os sete anos você foi modificando ele? Quais foram as suas principais referências nessa parte?

Rafael Coutinho: Pois é, foram sete anos. Muita coisa aconteceu, tudo que você pode imaginar em matéria de desenvolvimento de roteiro. Parei, retomei, fragmentei, joguei tudo fora e comecei outro. Puxei pedaços de ideias antigas e enxertei outras dinâmicas dentro do roteiro que tinha a ver com a minha vida em diversos momentos. Foi uma montanha russa. Fiquei um ano pesquisando a luta em si e tudo que eu pudesse achar relacionado a prática do mensur. Descobri que o que eu procurava no livro não estava na cartilha de construção de roteiros tradicionais e sim em uma relação entre o livro e a minha vida que mudou muito. Nesse tempo tive dois filhos, mudei de casa, mudei de estúdio e fiz muitos projetos diferentes do que eu vinha fazendo até ali. Então, acho que foi nesse diálogo íntimo de me manter sensível ao que estava acontecendo ao meu redor que me fez conseguir construir o enredo e entender os personagens. Tive muitas influências, eu nem saberia dizer tudo. Eu fui beber em muitas fontes nesse período. Alguns filmes me marcaram e me orientaram bastante, principalmente filmes que tinham a temática da violência e do protagonista solitário buscando algum tipo de conexão e afeto, como por exemplo O Profeta (Jacques Audiard/2009), que amo e mexeu muito comigo.

E na parte do desenho? Você foi experimentando e mudando muita coisa?

Eu sou bem sistemático, um pouco até demais. Então antes de concluir uma etapa eu não consigo começar a outra. Fiquei o primeiro ano todo no roteiro e os dois seguidos nos thumbnails, que são uns estudos de páginas bem reduzidos onde você consegue ter noção do tanto de roteiro que vai caber no livro realmente. Depois, parti para os esboços e não sei quanto tempo fiquei neles, mas foram alguns anos fazendo só isso. A arte final foi feita nos últimos anos, mas no meio disse eu fui enxertando pedaços na história. Não foi algo tão linear.  Quando eu terminei o Cachalote (Cia das Letras) em 2010, eu acho que eu dei um ponto final num tipo de estrutura de desenho que eu vinha praticando e ali eu já pensava muito e sentia muito a necessidade de buscar algo novo. Eu já vinha descobrindo soluções na relação entre os quadros e as imagens desenhadas e a possibilidade de tirar o quadro e deixar que os desenhos de cada cena se intercalassem e construíssem uma narrativa própria, isso já me interessava bastante. Durante o Mensur, eu fiz outros três livros que são da série O Beijo Adolescente (NarvalComix – 2011/2014), onde pude experimentar muito disso, inclusive perder a mão e fazer coisas que depois eu achei que não funcionavam, mas que foram experimentações livres que me levaram a encontrar soluções. Então o Mensur tinha que ser o encontro entre O Cachalote e o O Beijo Adolescente e foi exatamente isso. Ele acabou sendo o encontro dessas duas linguagens narrativas que me atraem bastante. O tradicional preto e branco aliado a uma experimentação mais solta, menos rígida nas páginas e com algumas coisas de artes plásticas que pra mim fazia sentido aplicar no desenho. O raciocino plástico para cada página me abriu muitas portas e me fez compreender outras possibilidades pro meu desenho.

 

Como foi a criação do personagem Gringo?

Acho que foi em pedaços. Eu partir do lugar meio arquetípico, talvez um tanto meio genérico, de um personagem solitário e obcecado com a prática do mensur e por um período de seu passado que ele não consegue se desvencilhar. Aos poucos eu fui entendo um pouco mais de quem ele era e o que ele queria. Foram sete anos conversando com esse sujeito né, então a cada ano ele me dizia um pouquinho mais como ele se sentia e foi ficando mais complexo. Ele é um sujeito que é moralmente rigoroso. Mas quem é moralmente rigoroso não é o tempo inteiro. No mundo real as pessoas ficam constantemente negociando esse status moral e por vezes chegam a conclusões contraditórias e eu acho que eu entendi que ele era um pouco fruto disso. Um desacordo entre a forma que ele acreditava que tinha que viver e como de fato ele tinha que viver pra existir na sociedade, para criar relações afetivas, se apaixonar, se entregar e pra se encaixar. Eu sinto também que as coisas que eu vivi nesse período me ajudaram e me deram mais ferramentas pra eu não julgar os personagens com tanta rapidez e compreender que eles poderiam fazer coisas contraditórias e não dimensionais e que eu não precisava necessariamente explicar todas as ações deles e nem concordar com o que eles poderiam fazer. Acho que isso veio com esse período de maturidade, de entender que a minha vida não era nada linear e que vivemos numa época onde a compreensão da realidade é muito difícil. Tinha muito a ver também com o estado de violência que a gente vive continuamente e como a gente é muito incapaz de entender e reagir aos acontecimentos.

Foi melhor lançar o quadrinho agora do que sete anos atrás? O que você vai levar do Mensur?

Pra mim foi sim. Mas eu não tenho controle de como ele vai ser interpretado. Com certeza tem mais a ver com agora do que quando eu comecei. É muito bom quando você conclui uma obra e recebe o retorno das pessoas. Foram muitos anos em silencio. É gostoso, mas eu confesso que existe um lugar que não diz respeito à relação com o leitor. Um lugar meu que diz respeito a eu conseguir concluir e tirar esse livro da frente, chegado a um lugar satisfatório e conseguir concluir. Foi uma relação muito difícil. Parecia que eu não ia conseguir terminar nunca. Os personagens de certa forma me rondavam. Mas, o principal foi entender que eu sou um autor mesmo. Entender que é algo que vou fazer pro resto da vida. Foi uma jornada.

E como foi falar sobre as várias faces da violência, entre elas a violência contra a mulher?

Uau, isso foi um capítulo a parte. Aconteceu que no período de facção do quadrinho o feminismo brasileiro ganhou essa dimensão que tem hoje e foi justo o momento onde a internet e as redes sociais passaram ser a principal forma de falar sobre o machista em suas formas mais variadas de expressões. Então foi um período pra mim de perceber que eu fazia parte disso e que estamos todos muito mergulhados nessa merda toda. O livro parte da premissa de uma luta feita só por homens e muito orientada por uma estrutura machista, um ritual de violência que cria uma passagem da juventude para a fase adulta. No século XIX tinha um significado absolutamente diferente do que tem hoje e era exatamente ai que eu queria encontrar o Mensur, a ponte onde a expressão do machismo em sua forma mais aguda se encontraria como mensur nos tempos atuais. Foi meio que tentar encarar aspectos de um estado contínuo de violência, onde as mulheres são as maiores vitimas. Foi muito importante falar sobre a violência, que é algo que me atinge de uma forma muito intima. E são questões que me incomodavam e me acompanhavam há muitos anos. Coisas que me deixavam horrorizado e concluir essa reflexão ficcional sobre esses assuntos foi muito importante. Foi meio catártico entender todos os aspectos nos quais eu mergulhei a cerda da violência no Brasil entre as pessoas que fazem parte da sociedade em que a gente vive. 

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