O artista, que usa tapumes e outros materiais da engenharia civil, estabeleceu relação visual entre a malha urbana e os diversos tecidos de origem animal e vegetal

Mud Slides, 2015, acrílica sobre tela, da coleção de Cristina e Rodrigo Rocha Monteiro de Castro

Mud Slides, 2015, acrílica sobre tela, da coleção de Cristina e Rodrigo Rocha Monteiro de Castro

Parece-se mais com um chiste. A fotografia que abre o livro Henrique Oliveira, extenso panorama da obra que este artista iniciou na virada do século, não tem traço do material cujo uso ele notabilizou: o tapume. A primeira imagem do livro registra uma concepção espacial estéril e de linhas retas, um corredor branco muito próximo do que seria uma sala de hospital, iluminado por luz ainda mais branca. Não está ali a expressão orgânica que, algumas páginas adiante, revelará de fato o universo cheio de curvas, cores e formas estranhas de Oliveira.

A imagem foi, sim, extraída de uma de suas obras, Transarquitetônica (2014), que ele concebeu para o prédio ocupado pelo Museu de Arte Contemporânea, em São Paulo. Era uma imensa instalação de túneis feitos com tapumes, só que havia a antessala desse ambiente asséptico, um contraponto em relação ao que Oliveira havia criado até então. O visitante passava por ela e, conforme andava rumo ao interior da obra, o trajeto se transmutava gradualmente, do minimalismo ao barroco. Revelavam-se, primeiramente, o rejunte entre os tijolos, depois o reboco; e, no final, os túneis ganhavam a característica de artérias e raízes. Ao mesmo tempo que faz antítese com o universo de Oliveira, a imagem da sala branca nos avisa: devemos prestar atenção no que está por trás das superfícies. O livro configura, nas primeiras páginas, a evolução cronológica do que Oliveira criou, não como uma sequência marcada apenas pelo tempo, mas como camadas de tecidos sobrepostos. Por trás da fachada limpa, encontraremos a complexidade estrutural dos compensados de madeira e variações.

Publicado por uma parceria entre Sesi-SP Editora, Cosac Naify e Galeria Millan, o livro, com sua introdução de ordem cronológica, explicita que a obra de Oliveira partiu de um sentido bidimensional para, aos poucos, ganhar volume. A ocupação espacial que deriva de suas criações, porém, mantém relação com a pintura mais do que com a escultura, como fica evidenciado tanto no texto de Agnaldo Farias como na entrevista que Oliveira concede a Aracy Amaral. Em paralelo com o trabalho realizado com os tapumes (e depois também com outros materiais), o artista se dedicou à pintura, tendo a acrílica como técnica preferida.

Os suportes escolhidos por Oliveira raramente independem do contexto em que estão, tem origem na ideia de site specific, mantendo relações abertas também com o entorno para ressignificar espaços, o que leva Farias a afirmar, por exemplo, que uma das obras de Oliveira, Tapumes (2003), se situa entre a pintura, o relevo, a instalação e a arquitetura.
Mais adiante, o curador aponta que se trata de “uma obra que sinaliza muito bem o envolvimento da experimentação com a ação política sobre um mundo que varre para debaixo do tapete sua lógica de acumulação”, estabelecendo na natureza do material sua vocação para o descarte (quando usado pela indústria da construção) e para o uso permanente (na construção precária das favelas). “O compensado é um material poderoso, um amálgama de matérias e de tempos”, diz Farias, introduzindo essa faceta do tapume e o que o livro vai expor depois.

Passada a fase de trânsito entre a exploração do bidimensional e da volumetria, Oliveira amplia seu vocabulário de significados e figurações. Começam a aparecer, em obras como Xilonoma Chamusquius (2010), as formas que remetem a tecidos animais e também ao câncer. “Em certo momento, quando minhas obras passaram a sugerir formas orgânicas que aludiam a tumores, recorri a livros de patologia”, ele conta na entrevista a Amaral.

A conversa é longa e minuciosa quando passa a contemplar o estudo de Oliveira sobre os materiais. A trajetória do artista tem início com a descoberta do potencial do tapume ainda na época em que ele estudava Artes na ECA (USP) e, com seu próprio carro, circulava procurando compensados de madeira em caçambas de São Paulo. Muitas vezes, conta, o material de uma obra era utilizado em um trabalho seguinte. Com o passar do tempo, Oliveira também estudou a combinação de mais de um suporte, aplicando tintas à superfície das madeiras. E, por fim, explorou o uso de materiais correlatos usados na engenharia, latarias, espumas, PVC e arame.

Muitas das experiências e da busca de Oliveira são carregadas de histórias prosaicas. “A obra Litossoma (págs. 96-7), por exemplo, foi assim. Primeiro construí o volume, depois colei uma manta de estuque encontrada em uma caçamba, uma malha de fibra natural embebida em gesso que foi parte do teto de alguma casa. Ela era branca e estava enrolada como um cobertor, dentro de uma caçamba. Toda quebradiça, craquelada. Mas, na obra, pintada com cimento, esse material assumiu um aspecto de couro”, ele conta, durante a entrevista.

A obra de Oliveira surge, assim, sempre em uma relação entre o material utilizado e o espaço que ele vai ocupar. O zelo com a metodologia tem como outro exemplo uma obra mais recente, Adenocalcinoma Poliresidual (2014), intervenção nas paredes da galeria Arthur Ross, nos Estados Unidos. Oliveira conta que utilizou papelão, areia e cola. Queimava um pouco o material e “ia pintando” até chegar a um resultado que se parece com mofo. “Era como se a entrada da galeria estivesse meio embolorada, descascando”, diz. Mais discreta do que muitas de suas obras, ainda é sobre a epiderme e as superfícies que o artista parece falar.

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