Pesquisa mostra que 60% rejeita o enunciado, em especial mulheres, pessoas de alta renda e religiosos praticantes

Foto: Agência Brasil

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A maior parte dos cariocas discorda do bordão “bandido bom é bandido morto”, segundo dados da pesquisa realizada pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) da Universidade Candido Mendes (Ucam), divulgada nesta quarta-feira (5).

O índice de rejeição à frase é de 60%, enquanto 31% a apoia integralmente, 6% concorda parcialmente e 3% são neutros.  Apesar de ainda ser considerada alta, a taxa de aprovação do enunciado chama atenção por ser mais baixa do que a registrada na média nacional, diz Ignacio Cano, um dos coordenadores da pesquisa “Olho por olho“.

O estudo, realizado entre março e abril de 2016, tem como foco os moradores da cidade do Rio de Janeiro e busca investigar que ideias, percepções e valores alimentam a ideologia do justiçamento, além de traçar os perfis dos indivíduos e segmentos sociais mais aderentes a esta ideia. É a primeira pesquisa do tipo a ser feita no Rio.

As variáveis que mais impactam nas opiniões são renda e sexo: pessoas de renda alta rejeitam mais a frase. Curiosamente, o mesmo não se percebe entre pessoas de alto nível de instrução. Homens (42%) tendem a aceitar mais a frase “bandido bom é bandido morto” do que as mulheres (35%). Além disso, religiosos que frequentam cultos regularmente, em sua maioria evangélicos, formam a parcela que mais rechaça a frase (73,4% discordam do enunciado).

O fato de a polícia brasileira ser uma das que mais matam no mundo é percebido pela maioria dos entrevistados, assim como a atuação mais violenta do Estado contra negros e em favelas. Apesar disso, os jovens negros moradores de favelas, principais vítimas, têm uma opinião semelhante à do resto da população com relação ao bordão “bandido bom é bandido morto”.

Para a surpresa dos pesquisadores, 73% dos cariocas acreditam na ressocialização de criminosos. Este número salta para 86% no caso de religiosos praticantes.

Leia abaixo a entrevista completa com Cano:

Revista Brasileiros – O resultado foi surpreendente? Vocês imaginaram que 60% dos cariocas discordariam da frase “bandido bom, bandido morto”?

Ignacio Cano - Foi a primeira pesquisa desse tipo feita no Rio de Janeiro. Outras pesquisas mostraram 44% de aprovação no Brasil (Secretaria Nacional de Direitos Humanos, 2012), o Datafolha recentemente encontrou 50 e poucos por cento de aprovação. Então 37% está abaixo, mas temos dúvidas se é diretamente comparável, por causa das [diferenças de] metodologia. Foi uma pequena surpresa, no sentido de que o Rio tradicionalmente está associado a esse tipo de bordão, tem políticos aqui que claramente apoiam essa frase, tem muitos casos de execução sumária. A percepção popular é de que o Rio seria pelo menos tão inclinado quanto o Brasil, se não mais. E o dado aponta na direção contrária. Mas mesmo assim, 37% é extremamente preocupante. Nós queríamos que fosse 0%.

E 73% dos cariocas acreditam na ressocialização de criminosos.

Isso sim foi uma surpresa! Esse apoio amplo à ideia de que é possível um criminoso se tornar um cidadão de bem contrasta com outras posições, por exemplo, contrárias aos direitos humanos.

Como vocês interpretam essas posições aparentemente contrárias umas às outras?

Em primeiro lugar, os enunciados não são propostas concretas. “Bandido bom, bandido morto” não é uma proposta. É uma expressão de um conjunto de elementos coletivos, emocionais, afetivos, de simpatias e posições, mas não expressa uma receita para a prática. Então “bandido bom, bandido morto” significa muita coisa diferente. Essas afirmações aparentemente não estão muito consolidadas, nem firmes. Parte das pessoas que acha que bandido bom é bandido morto defende que é melhor a polícia prender a matar. Parte das pessoas que discorda do “bandido bom, bandido morto” acha que a polícia tem que matar e não prender. Não há uma consistência muito grande nessas afirmações, elas são elásticas e apontam nessa direção de que os bordões não expressam um conteúdo único.

Se a gente desconsiderar as opiniões sobre esse bordão, a pesquisa indica que os cariocas apoiam a defesa dos direitos humanos ou não?

Não, porque 70 e tantos por cento, por exemplo, acham que [a defesa dos] direitos humanos atrapalha a luta contra o crime. Essa oposição entre direitos humanos e a luta contra criminalidade tem um apoio majoritário. Isso não respalda os direitos humanos como noção. No entanto, entre matar e prender, prender é muito mais forte do que matar. Quando você pergunta sobre situações concretas, as respostas tendem a ser mais legalistas.

Será que o termo “direitos humanos” é que carrega essa rejeição, mais do que a ideia por trás do conceito?

Possivelmente. O termo acabou concentrando em si uma rejeição forte, uma ideia de que direitos humanos são direitos de bandidos. Acho que mais de 60% acredita que direitos humanos só defende bandido.

Mulheres, pessoas de alta renda e sobretudo pessoas que assistem diariamente a cultos, em sua maior parte evangélicos, são os que menos concordam com o bordão. Vocês conseguem explicar o porquê de cada um desses grupos ter essa posição?

No caso das mulheres, elas em geral têm uma posição menos agressiva do que os homens, em diversas áreas. No caso da religiosidade, o que a gente interpreta é que as pessoas mais religiosas acreditam que só Deus pode dar e tirar a vida, qualquer interferência humana nesse processo seria indevida. E com relação à alta renda, é curioso que isso não aconteça também entre as pessoas de nível de educação mais alto. Talvez as pessoas de alta renda sejam mais cientes da incorreção política de afirmar “bandido bom, bandido morto”. A gente não tem uma explicação tão clara para isso.

A violação de direitos humanos de forma recorrente e banal no Brasil acontece porque as pessoas aceitam e apoiam isso ou elas aceitam porque isso já faz parte da realidade delas?

Acho que os dois caminhos funcionam. Se isso acontece muito, ninguém acha nada demais. Por outro lado, a atitude delas fortalece esses processos que resultam em violação de direitos humanos.  Quando a polícia age fora da lei, parte da responsabilidade está com esses setores sociais que apoiam uma polícia desse tipo. O policial está ouvindo cantos de sereia da população nessa direção. Fizemos uma pesquisa com policiais militares no Rio e o resultado foi que aproximadamente 40% aprova “bandido bom, bandido morto”, ou seja, muito parecido com o da população em geral. Quando as pessoas pensam nos abusos cometidos pelos policiais, a impressão que dá é que os policiais seriam particularmente inclinados a violar direitos humanos. É claro que isso acontece porque eles têm a força, mas a atitude deles não é muito diferente do resto da população. Temos que dialogar com a população como um todo. Para desfazer essa ideia de que direitos humanos é igual à defesa de bandidos, acho que o tema, direitos humanos, teria que fazer parte do currículo do ensino fundamental, para as crianças terem uma visão minimamente sofisticada sobre isso. Teria um impacto importante a longo prazo e a curto prazo também, ao questionar os pais.

Existem pesquisas que comparam esse tipo de opinião da sociedade brasileira com a de outros países?

Sim, mas não com essa formulação “bandido bom, bandido morto”. Essa formulação é mais do Brasil. Mas tem pesquisas que comparam o apoio a soluções extra legais e mostram grandes diferenças. Lembro que uma pessoa que coordenava uma dessas pesquisas me contou que quando fez a pergunta “se alguém atacasse um membro da sua família, você mataria essa pessoa?” na América Latina, os percentuais de apoio eram significativos, ainda que não majoritários. Na Europa, muitas pessoas ficaram ofendidas com a pergunta. Isso dá uma medida da diferença do imaginário popular na nossa região do mundo.

Qual o papel da mídia nessa naturalização da violência? Fico me perguntando como seria o noticiário caso as dez pessoas mortas nas chacinas na periferia de São Paulo nesta semana estivessem em algum bar da Vila Madalena. Por que existe essa diferenciação?

Aí entramos em outra seara. A mídia brasileira é dirigida a setores de classe média alta, dialoga com esses setores. O que acontece com esses setores é mais importante, o que acontece na periferia é secundário. É claro que existe uma mídia também para as periferias, mas que não tem a mesma capacidade de mobilização, de discussão de política pública. A sociedade brasileira é marcada pela desigualdade. Além da questão de classe social, tem a ver também com a frequência – uma morte em um bairro nobre é notícia porque é inusitado. Enquanto que na periferia acontecem todos os dias e, se a imprensa desse destaque para isso, só falaria nisso. A questão é que tudo conspira para que a gente acabe prestando atenção em alguns mortos, em algumas vítimas e não para outras. E o pior é que a política pública é feita em função disso. O roubo de uma Mercedes do Romário gera semanas de debate. Uma política pública tem que ser feita baseada em indicativos objetivos e não no fato marcante do noticiário. E isso não acontece só com casos em bairros nobres. O caso da menina que foi morta [supostamente por bala perdida] dentro de uma escola nesta semana aconteceu no bairro do Acari, zona norte do Rio, mas teve uma grande repercussão. Isso porque era uma jovem dentro de uma escola, uma vítima que chamamos de escancaradamente inocente e por tanto uma morte não aceitável. É claro que é chocante mas não podemos fazer políticas públicas com casos isolados, temos que fazer com base no conjunto de informações.

Ao mesmo tempo em que essa menina foi morta dentro da escola, dois homens foram executados à luz do dia pela polícia, sem que isso tivesse a mesma comoção.

Porque ela é a não matável, a vítima inocente. Temos uma atitude muito hipócrita também. Se nós temos tiroteio todo dia, é claro que a probabilidade é total de que, mais cedo ou mais tarde, terá estudante ferido ou morto. Se tem troca de tiro na favela, vai ter morador ferido e morto. É uma consequência natural das políticas que são implantadas, no entanto a comoção só surge quando essas políticas, como se fosse uma grande surpresa, acabam vitimando uma pessoa que tem um perfil escancaradamente inocente.

A comoção seletiva é construída pela cobertura da mídia ou a percepção das pessoas de fato é que a vida de um pobre vale menos do que a de um rico? Ou a de que um negro vale menos do que a de um branco? 

Para muita gente, isso de fato acontece e faz parte da percepção de amplos setores sociais. A mídia estimula isso, mas não é invenção da mídia. Quando o ex-secretário de segurança do Rio, José Mariano Beltrame, diz que uma bala no Complexo do Alemão não é a mesma que em Copacabana, isso está no cerne das políticas. Você não pode trocar tiro no Leblon que o mundo acaba. A mídia não é inventora dessa diferenciação, mas ela certamente estimula e ajuda perpetuar.

De onde vem essa diferenciação?

Da estrutura brasileira, que é de casa grande e senzala, de uma separação brutal entre a elite e o povão, este com um valor inferior, de uma sociedade de origem escravocrata, historicamente oligárquica. Tanto é que um condenado por crime que tenha ensino superior tem direito a cela privilegiada. Isso não existe em nenhum outro país do mundo. Nenhum partido político propõe mudar isso nas eleições, isso não é um tema que se discute. Quando a gente discute desigualdade, não se discute isso porque está perfeitamente naturalizado. Os advogados querem que seus clientes que paguem bem vão para uma prisão melhor.

Essa percepção toma conta da população mais pobre e não só da que se beneficia dessa diferenciação.

Exatamente. Uma das surpresas da pesquisa é que, embora as pessoas achem que a polícia é mais violenta nas favelas, contra os negros, e que mata demais, os negros, jovens e favelados têm a mesma posição com relação a “bandido bom é bandido morto” do que o resto da população. A gente esperava que os coletivos mais vitimizados pela violência policial tivessem uma visão diferente.

Vocês tem alguma hipótese para explicar isso?

As pessoas interiorizam esses valores independentemente da classe social. Tem gente que fala que a elite opressora tem esses valores, mas não, esses valores são comuns a toda sociedade. E a outra explicação é que as pessoas que moram nesses locais têm um interesse mais forte de se diferenciarem dos bandidos, então eles acabam sendo mais duros, até para marcar diferença da posição dos bandidos.

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