Robert Redeker avalia que o candidato de centro vai vencer Le Pen, que considera demagoga, mas não vai conseguir administrar a raiva coletiva contra a globalização

robert redeker

Para o filósofo e escritor Robert Redeker, o vencedor da eleição presidencial será o centrista Emmanuel Macron. No entanto, o líder do movimento Em Marcha! “decepcionará porque quer agradar a todos”. Mais: “Ele não saberá administrar a raiva coletiva” contra a globalização que favorece os endinheirados. Redeker, alvo de ameaças de islamitas radicais em 2006, após ter publicado um artigo no diário Le Figaro, e desde então sob escolta policial, crê que este pleito representa o fim do século XX para a França. Motivo: as siglas tradicionais, o Partido Socialista e o conservador Os Republicanos, que se alternam no poder desde 1958, não chegarão ao segundo turno. Diz Redeker: “É paradoxal e ilusório o fato de o candidato por excelência da ‘globalização feliz’ ser, por ora, o favorito”. A seguir a entrevista com Robert Redeker, autor de Le Progrès? Point Final e Egobody: La Fabrique de L’homme Nouveau, entre tantos outros, que lança agora Bienaventurada Vejez, na Colômbia, pela Luna Libros.

Brasileiros – Acredita que Emmanuel Macron será o único candidato capaz de vencer a extrema-direita no segundo turno, dia 7 de maio?
Robert Redeker – Macron é o candidato que pode derrotar Marine Le Pen. Seria mais complicado para Jean-Luc Mélenchon e François Fillon derrotar Le Pen. Eles são identificados com, respectivamente, a esquerda e a direita. Encarnam formas de radicalismo político. Macron obterá, além do voto centrista, aqueles dos moderados de esquerda e de direita. Demagoga, Le Pen atrai eleitores de todos os campos.

Macron, ex-banqueiro e ministro da Economia, Indústria e Informática sob o presidente socialista François Hollande, sustenta que sua candidatura é apartidária. Não deveria assumir que é centrista?
A política francesa está em fase de decomposição. Isso teria parecido uma loucura um ano atrás: os dois maiores partidos que se alternam no poder desde 1958 poderão estar ausentes do segundo turno. É como se uma bomba atômica tivesse caído no campo político. A França é um país de revoluções e movimentos sociais poderosos. A expulsão das duas principais siglas é uma espécie de insurreição nas urnas, não na rua. Sim, multidões se manifestaram, sem violência, a favor de grandes movimentos de raiva coletiva. Mas Macron decepcionará seus eleitores. Ele quer agradar a todos. E não poderá administrar essa raiva coletiva. Surgiu na França um sonho romântico e intelectualmente vazio, no sentido político. Macron e Le Pen tentam capturá-lo. É paradoxal e ilusório o fato de o candidato por excelência da “globalização feliz”, do sistema econômico e financeiro, do conformismo liberal-libertário ser, por ora, o favorito. A globalização feliz não existe.

Mélenchon não poderia ter feito uma aliança com Benoît Hamon, o candidato socialista, da mesma forma que o centrista François Bayrou fez com Macron?
Mélenchon é um tribuno de alto nível. Faz parte de uma tradição extravagante que remonta à Revolução Francesa. Como Jaurès (Jean Jaurés, 1859-1914, político socialista), Mélenchon é um intelectual. Também tem o lirismo republicano e popular de Victor Hugo. Diante da mediocridade dos políticos neste país, Mélenchon é uma exceção. Mas as ideias dele estão ultrapassadas. Hamon, por sua vez, deveria desaparecer atrás de Mélenchon. Hamon, contudo, é o representante de uma máquina de poder obesa e arrogante, o PS. O PS crê que a esquerda só pode existir sob a sua liderança. Ademais, as vozes das siglas não estão em sintonia: eleitores radicais nunca votarão no PS. E mesmo se os dois se aliassem, a esquerda não ganharia. Ela representa apenas 30% do eleitorado. Os partidos Comunista e Socialista estão em vias de extinção. Este pleito é, para a França, o verdadeiro fim do século XX.

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