Com curadoria de Fernanda Pitta, mostra na Pinacoteca aponta contradições na recusa de ornamentos, entre outros preceitos modernos

Sinfonia Tropical VI, Ana Maria Tavares

Sinfonia Tropical VI, Ana Maria Tavares

No Lugar Mesmo – uma Antologia de Ana Maria Tavares, na Pinacoteca até 10 de abril, traz uma seleção de trabalhos da artista com curadoria de Fernanda Pitta, 35 anos depois de sua primeira individual, denominada Objetos e Interferências, realizada na mesma instituição.

A artista propôs elaborar a mostra a partir da ideia de instalação e intervenção no edifício que guarda mais de 160 obras de vários períodos distribuídos por sete salas do primeiro andar, corredores, lobby e octógono.

Essa interferência resulta em um ambiente denso, que aglutina e encobre estratos das histórias da arte, do design e da arquitetura, fornecendo pistas para um jogo de avaliação histórica.

Está conectado a essa interferência, e pode ser experimentado pelos visitantes, um inventário das concepções e das visualidades que marcaram a elaboração do projeto moderno. Toda essa herança é revisada por um filtro sutil e irônico, quase ambíguo em seus efeitos: ao mesmo tempo que tudo seduz, nessa atmosfera, sensações melancólicas e claustrofóbicas se instauram. Os trabalhos conseguem dar a exata medida das incapacidades das promessas utópicas modernas.

Estão ali os seus símbolos mais emblemáticos: as grades e as transparências, a precisão tecnológica, a convergência entre arte, design e arquitetura, os materiais industrializados e sua consequente falta de marcas humanas, o projeto de construção de um mundo novo e o apelo das superfícies.

Todos esses elementos são, ao mesmo tempo, perpassados pela inutilidade, pela incapacidade de reter os índices do tempo, pelo esvaziamento de significados e pela organização dos corpos para a vida sem autonomia.

Parece ser o objetivo da exposição desdizer, em detalhes, aquelas utopias e suas permanências nos dias atuais. Em particular o conjunto de obras presentes no octógono, que provoca uma vertigem anunciada, parece inicialmente apontar para projetos expositivos de El Lissitzky e dos arquitetos italianos Edoardo Persico e Marcello Nizzoli, com grades que organizam o ambiente e deixam transparecer os elementos históricos do lugar no qual se instala.

Mas o que nesses artistas das vanguardas era ativismo político (comunista, no caso de Lissitzky, e fascista, no de Persico e Nizzoli) e diálogo entre linguagens e tempos diferentes, aqui, principalmente pelo uso dos espelhos, torna o visitante aprisionado em um Carceri d’Invenzione, de Piranesi, atualizado, mostrando a face dupla e desdobrada do projeto moderno.

O eixo da exposição é a instalação Bico de Diamante (1990), adquirida pela Pinacoteca em 2014 e que organiza a pauta histórica, institucional e conceitual para toda a nova instalação. Nela está presente a provocação reflexiva em direção ao visitante, que é submetido à ordem e ao mesmo tempo ao fascínio dos elementos visuais.

Em seu texto fundante do Modernismo, que posteriormente inspirou Walter Gropius em seus projetos educacionais e arquitetônicos, Ornamento e Delito (1908), Adolf Loos sentenciava que “a evolução da cultura é equivalente à retirada de ornamentos dos objetos usuais”.

Ao evocar os diferentes projetos modernistas nos quais a estrutura se coloca, em detrimento do adorno e da presença das subjetividades, Ana Tavares promete organizar um mundo de tecnologias e materiais industrializados e indica que não há um paralelismo de afinidades entre progresso tecnológico e evolução humana.  A expressão “no lugar mesmo” pode ser lida tanto pelo fato de a artista ocupar novamente o espaço institucional de maneira totalmente diferente dos anos 1980 quanto por demonstrar com seus trabalhos que, ao contrário do que Loos (e todos os modernismos) propunha – abolir os ornamentos e, portanto, aprimorar o progresso tecnológico e organizacional –, deixou a cultura no mesmo lugar e em lugar nenhum.

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