Os Estados Unidos são conhecidos por apoiar golpes de Estado, mas o que nem todo mundo sabe é que o próprio país já foi vítima de um golpe

Foto: Hélio Campos Mello

Foto: Hélio Campos Mello

Os Estados Unidos são conhecidos por apoiar golpes de Estado. Sobre isto até os joalheiros fornecedores de Melanie Trump têm ao menos uma vaga ideia. Foi assim no Brasil, no Chile, em El Salvador, no Panamá, em Granada, só para citar alguns países.

Pode ser que os joalheiros da primeira-dama americana não saibam que essa mania vem lá da Doutrina Monroe, política protecionista e expansionista criada por James Monroe, presidente dos Estados Unidos de 1817 a 1825, para defender o país dos europeus e que, mais tarde, foi, digamos, fortalecida pelo Corolário Roosevelt, de Theodore Roosevelt, presidente republicano de 1901 a 1909. Ele, num discurso, declarou que os Estados Unidos tinham o direito de intervir onde bem entendessem. O que ficou conhecido como a política do Big Stick (Grande Porrete).

Com certeza o que não é de conhecimento de todos, até porque isso não faria bem à imagem dos Estados Unidos, é que eles mesmos já foram vítimas de uma tentativa de golpe de Estado. Apesar de ter sido tema de livros e objeto de reportagens, o fato permanece nas sombras.

Exemplo recente é o excelente A Desordem Mundial, O Espectro da Total Dominação, de Luiz Alberto Moniz Bandeira, 644 páginas, editado no ano passado pela Civilização Brasileira, que reserva o primeiro de seus 24 capítulos ao episódio, que aconteceu em 1933, antes da Segunda Guerra Mundial, após o crash da bolsa de Nova York, em 1929.

Para combater a depressão econômica, Franklin Roosevelt tomou várias medidas para proteger os trabalhadores americanos. Limitou as horas de trabalho, estipulou salário mínimo, criou o social security, que existe até hoje, implantou órgãos para gerenciar os direitos ao trabalho, à moradia, à saúde. Tudo isto irritou os grandes empresários da época. Roosevelt, do Partido Democrata, que foi presidente de 1933 a 1945, já havia escapado ileso em 1933 de um atentado em que morreu o prefeito de Chicago.

Os empresários insatisfeitos, que se transformaram em empresários golpistas, estavam encantados com as histrionices marqueteiras de Mussolini e Hitler e achavam que suas políticas, fascista e nazista, poderiam tirar os Estados Unidos da crise. Alguns deles já colaboravam intensamente para o regime de Hitler, cujos males ainda estavam por vir à tona.

William Dodd, embaixador americano na Alemanha, alertou Roosevelt: “Um grupo de industriais americanos está determinado a trazer um estado fascista para substituir nosso governo democrático e está trabalhando intimamente com o regime fascista na Itália e na Alemanha. No meu posto em Berlim tive várias oportunidades para testemunhar o quão perto estão do regime nazista as nossas elites, as nossas famílias dirigentes”.

Entre eles estava a família Du Pont, das indústrias químicas, a família Remington, dos armamentos, a família de banqueiros Morgan, os Rockefeller, o presidente da General Motors, o avô de George W. Bush, Prescott Bush. O crème de la crème.

Os empresários escolheram um herói da Primeira Guerra Mundial, o general Smedley Butler, para liderar o golpe. O enviado dos golpistas para falar com ele foi Gerald MacGuire, que trabalhava para uma corretora de Wall Street encarregada de intermediar os empréstimos do Morgan’s Guaranty Trust para a Itália fascista. Por esses serviços, o dono da corretora, Grayson Mallet-Prevost Murphy, foi condecorado por Mussolini.

MacGuire era veterano da Primeira Guerra, assim como o general Butler, e, depois dela, havia sido comandante da Legião Americana, um bando de fascistas que andava distribuindo porretadas com tacos de basebol em quem não pensava como eles. MacGuire disse que o golpe seria apoiado pela mídia, e que ele, Butler, teria muito dinheiro e um exército de 500 mil soldados à disposição para derrubar Roosevelt e substituí-lo por uma ditadura fascista.

Deu tudo errado. O general denunciou o complô. Foi formado um comitê no Congresso para investigar, o McCormack-Dickstein Committee, que ouviu os envolvidos. Entre eles MacGuire, que delatou os mandantes, e o general Butler, que confirmou.

Roosevelt e o comitê, ao lidar com o problema, priorizaram a manutenção da precária estabilidade do país, já afundado numa tremenda crise econômica.
O comitê McCormack-Dickstein excluiu de seu relatório muitos dos nomes delatados por Gerald MacGuire e confirmados pelo general Butler. Roosevelt não ordenou a prisão de nenhum empresário, como os que foram citados da família Du Pont e o presidente da General Motors, com receio de provocar novo crash em Wall Street e agravar a depressão que já durava desde 1929.

O balanço final revela uma história exemplar de como lidar com um problema grave sem comprometer as empresas, os empregos, as indústrias, o país.
No Brasil, o momento e as circunstâncias são diferentes. Há, no entanto, lições a serem tomadas. A principal diz respeito a colocar os interesses do País como prioridade. É disso que trata a nossa capa, com suas 34 páginas. Ela mostra a falta de equilíbrio entre os três poderes, cujas prioridades, bastante questionáveis, estão a milhas de distância de privilegiar o País. Pelo menos nosso País.

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