Em parceria com a produtora Filmes da Diaba, Luiza Lian lança um projeto conceitual classificado de “álbum visual”. Misto de filme de ficção e trilha sonora, “Oyá Tempo” é inspirado na orixá dos ventos e das tempestades

Senti um frio na barriga por estar fazendo algo que nunca tinha feito, e não por estar criando algo diferente do que é feito por aí”, conta Luiza. Foto: Bruno Moya Fenart/Divulgação

“Senti um frio na barriga por estar fazendo algo que nunca tinha feito, e não por estar criando algo diferente do que é feito por aí”, conta Luiza. Foto: Bruno Moya Fenart/Divulgação

Dois anos depois de lançar seu álbum de estreia homônimo, a cantora e compositora paulistana Luiza Lian traz à luz um novo projeto. Desta vez, suas canções vêm em formato inusitado: ao mesmo tempo que fecham o conceito de álbum, são embaladas como trilha sonora de um média-metragem, de 24 minutos, dirigido por Camila Maluhy e Octávio Tavares. Intitulado Oyá Tempo, o trabalho é, no conceito do trio, um “álbum visual”. 

Em conversa com a reportagem de CULTURA!Brasileiros, Luiza explica que o cruzamento de linguagens de Oyá Tempo não foi algo premeditado. Segundo ela, a ideia surgiu em meio a um outro projeto, uma performance baseada em poemas de sua autoria, mas as proposições, no entanto, confluíram organicamente para que tudo tomasse um novo formato à medida que Luiza foi mostrando suas ideias para amigos e parceiros de trabalho. Naturalmente ela acatou algumas sugestões e chegou ao consenso de que deveria apostar nesse formato incomum. Além de reunir poemas que compõem a performance, o álbum, que contém oito faixas, é formado de composições inspiradas em pontos de umbanda – daí o título, uma referência à divindade da mitologia Yorubá, também conhecida como Iansã, que controla ventos, raios e tempestades – e traz influências nítidas de funk carioca e trip-hop.

Nos registros de estúdio as composições de Luiza foram revestidas de uma teia instrumental criada por Charlie Tixier (Charlie e os Marretas /Holger) e Gui Jesus Toledo, também responsável pela mixagem e masterização do trabalho. “Me colocar nessa nova posição foi uma maneira de me orientar”, diz Luiza.

A celebração a Oyá está presente de forma subjetiva em sequências do filme, e também em elementos sonoros das canções, repletas de efeitos lisérgicos e distorções, que remetem às intempéries climáticas. A atmosfera do média-metragem, em alguns momentos, é pesada e lúgubre, e sua narrativa se dá de forma fragmentada. “Queria mostrar a ideia do tempo como destino. Um tempo que não é linear”, explica Luiza.

Camila Maluhy, que toca a quatro mãos com Octávio Tavares a produtora audiovisual Filmes da Diaba, já havia demonstrado interesse em produzir um videoclipe da compositora. Oyá Tempo estava previsto para ser lançado no final de 2016, mas, como o trabalho ganhou esses novos contornos, só agora o álbum visual chegou ao mercado. A produção também marca a primeira parceria entre o selo fonográfico de Luiza, o RISCO, e o Filmes da Diaba.

A despeito das experimentações que culminaram na obra, Luiza pondera e diz que não teve a pretensão de trazer à tona algo inovador. “Senti um frio na barriga por estar fazendo algo que nunca tinha feito, e não por estar criando algo diferente do que é feito por aí”, defende.

O elenco do filme conta com a participação da cantora Nina Oliveira, que Luiza conheceu durante a gravação de um videoclipe da amiga Camila Garófalo, e do rapper MC Diggão. A identificação com Nina, segundo ela, foi imediata: “Nos conectamos e decidi apresentá-la para Camila e Octávio, porque achei que ela se encaixava muito bem no que procurávamos”. Já o MC foi descoberto casualmente pelos diretores quando eles perambulavam por Ubatuba e pediram a ele informações para construir o roteiro, que teve a praia do litoral norte de São Paulo como uma das locações. 

Oyá Tempo também culminou na produção de um novo site para a cantora (luizalian.com.br), com projeto gráfico desenvolvido por Rafael Trabasso, conhecido como Dedos, com quem Luiza fez graduação em Artes Visuais. Inusitada como o álbum visual, a página virtual tem conteúdo de rolagem exclusivamente vertical e iconografia que remete à estética do longa-metragem.    

No palco, com a proposta pouco usual deste trabalho, Luiza receava que o público recebesse os estímulos com certo estranhamento, mas ela conta que as reações têm sido muito positivas: “Algumas pessoas saem chocadas, emocionadas, se perguntando ‘o que foi aquilo?!’”, comenta feliz.

Oyá Tempo foi lançado virtualmente no final de março e pode ser assistido, ouvido e baixado no site da cantora ou apenas visto diretamente em seu canal do YouTube. O projeto foi apresentado recentemente na Matilha Cultural e na programação de uma ocupação na Casa do Mancha, espaços alternativos sediados em São Paulo. A apresentação na ocupação também contou com a performance que foi o ponto de partida para o trabalho.

Inquieta, Luiza já prepara o sucessor de Oyá Tempo. Recentemente se trancafiou com seus músicos no estúdio Canoa, no bairro do Sumaré, na zona oeste da capital, para gravar o novo disco, previsto para ser lançado pelo selo RISCO em setembro próximo. Até lá continuará a fazer apresentações regulares, que poderão alternar o repertório de seu álbum de estreia e o de Oyá Tempo. No dia 29 deste mês, no Audio Club, em São Paulo, Luiza fará o show de abertura do cantor e compositor escocês Paolo Nutini.

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