“Senão eu Atiro e Outras Histórias Verídicas” é o novo livro de Leusa Araujo. Editado pela Quelônio, reúne versões ficcionais de casos reais, colecionados durante anos pela própria escritora, que é também jornalista e pesquisadora

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Livro foi lançado no dia 19 de abril. Foto: Divulgação

Quando vi pela primeira vez – ainda que acordada e consciente – meu próprio corpo inerte no sofá, como um saco de ossos, pensei duas coisas distintas: aquele maldito Descartes estava certo quanto à separação corpo e alma; e a tal da paralisia do sono, mal que passou a me acometer nos últimos anos, atingira seu estágio máximo.

Pois a verdade é que eu acabara de transpor os limites da materialidade. Como não ficar assombrada com aquela visão? Meu próprio corpo encolhido, murcho, sem o tal do “sopro” ou sei lá que raios de enchimento costuma ser chamado de alma? A sensação de que eu (ou o que restou do não corpo) estava sendo sugada por um aspirador de pó, cada vez mais para o alto da sala, de modo que fui obrigada a me “agarrar” (não encontro verbo adequado para esse estranho estado gravitacional) a uma cortina improvisada pelos donos da casa – único meio de não escapar de vez. Sim, eu estava fora do meu corpo, da minha casa, da minha cama, do meu país, e isso é importante para entender os relatos que virão.

Meu pesadelo maior era ser obrigada a transpor a janela e continuar flanando pelos céus da Lisboa desconhecida. Eu acabara de chegar a Portugal, diga-se, depois de um voo internacional bastante atribulado para minha estreia em atravessar continentes. Na chegada, exausta, no início de uma noite de inverno, eu mal prestara atenção no trajeto percorrido entre o Aeroporto Internacional e Campo de Ourique, onde viviam meus amigos. Foi só o tempo de abraçá-los muito, aquecer o corpo, tomar uma refeição amorosa e deitar no sofá, num canto da sala reservado para meu repouso.

Tudo o que eu temia durante essa experiência de viajar sozinha para a Europa era gritar, agitada por um pesadelo, e fazer feio logo na primeira noite. Que maçada!, diria Hilda Hilst imaginando a chegada da morte. Que maçada! Morrer logo no primeiro dia em Portugal, sem nem ter percorrido a cidade. Que fiasco!

Pensei em tudo isso enquanto via – como que colada quase rente ao teto – as luzes lá fora. Num lampejo surgia a cidade iluminada e com ela a sensação de estar sendo puxada em direção à janela. Mas o pano árabe, oh! senhor, a bendita cortina improvisada, e meu enorme desejo de não fazer feio venceram, enfim, a força do aspirador – ou como pode ser chamada a força de atração, no campo em que eu me encontrava? Merda. Nunca estudei física para descrever cientificamente essa resistência diante do “vácuo”.

Enfim, retornei ao invólucro carnal! Ou melhor: fui, desajeitadamente, entrando na almofada da mulher vazia em que eu havia me transformado. Estar lá dentro, entretanto, não me livrou dos sintomas da paralisia.

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