“Que perca o melhor” – disse o jornalista da maior emissão matinal de rádio de França, Patrick Cohen, sobre a eleição do próximo domingo. O destino do mundo tem muito de tragédia grega.

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Daqui 5 dias, o primeiro turno das eleições presidenciais acontecerá, domingo que vem.
O céu pesado em Paris hesita entre sol e chuva. Os eleitores também. Menos o eleitorado de Marine Le Pen, que neste exato momento vocifera seu discurso no último meeting desta fase da campanha. Exemplo vivo do populismo de extrema direita, ela usa de um misto de incitação ao ódio (citando todos os nomes dos terroristas recentes cuja sonoridade é norte-africana) e de um discurso protecionista dirigido aos mais frágeis, trabalhadores, pequenos funcionários, aposentados.
Liberar a França do jugo da Europa, trazer a França de volta aos franceses – e eles gritam : On est chez nous! Estamos em nossa casa! A França é nossa!
Param o discurso da candidata para cantar a Marseillaise (o hino nacional) enquanto a loira e quase bonitinha Marine sorri e se deleita, vestida com seu paletó vermelho sobre o fundo azul do palco. As cores da bandeira nacional. Não lembra algo por aí ?
O que é extremamente perturbador, é que em seu discurso, ela mistura idéias de uma esquerda protecionista quando ataca os bancos e os grandes grupos, com toques de ecologia quando enuncia que a agricultura deve voltar para as mãos das pequenas propriedades familiares, diz uma frase pró-semita para disfarçar o passado antissemita do partido, numa técnica muito bem elaborado de edulcoração do ranço fascista de sua ideologia estrutural.
Mas chega a hora em que ela tira a máscara e passa 20 minutos designando a “imigração massiva” (que diga-se de passagem, não existe) como causa de todos os males da França…
Infelizmente, o eleitorado de Marine le Pen não é hesitante. Ele sabe que joga em casa.
Frente a candidata do Front National, a França está dividida… Entre dois candidatos de esquerda : Hamon e Melenchon. Entre confiar ou não no candidato de direita Fillon, depois de seus escândalos morais e financeiros, entre crer ou não crer no candidato Macron, que se diz nem de esquerda nem de direita, existe o votar ou não votar, pois tudo parece uma grande palhaçada.
Há menos de uma semana da eleição, as pessoas nos cafés discutem em cima das sondagens que apresentam Macron e Le Pen em torno de 22%, Fillon com 19%, e Melenchon logo atrás. Com as sondagens, o voto deixa de ser um ato de convicção e passa a ser um ato de cálculo, uma estratégia fincada em areia movediça. Um golpe de marketing.
Nestes tempos tão agitados, em que agoniza o mundo do cada-um-para-si (crescimento, consumo, poluição, exploração), o único candidato visionário, que não faz alarde mas tenta propor um caminho para a França recolhe apenas 8% das intenções de voto.
Traído por seus pares do Partido Socialista (muitos apoiam Emmanuel Macron, inclusive Manuel Valls que perdeu a eleição interna do PS para ele), Benoît Hamon não soube ou não pôde convencer os franceses. Dilacerado pela fidelidade ao partido que o propulsou à candidatura presidencial por um lado e por outro pelo egotismo do candidato dissidente deste mesmo partido (Jean-Luc Melenchon) que não quis se unir a ele, Hamon perdeu o elã de sua campanha nas primárias e espatifou-se em meio ao vôo.
“Que perca o melhor” – disse o jornalista da maior emissão matinal de rádio do país, Patrick Cohen. O destino do mundo tem muito de tragédia grega.

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