Se a democracia, tal qual ela existe, nos leva a eleger seres como Berlusconi, Donald Trump, Vladimir Poutine, Le Pen e outros ditadores financeiros disfarçados, é que, talvez, tenha chegado a hora de pensarmos juntos um outro jeito de partilharmos o privilégio de estarmos todos nesta Terra


Passei o dia das eleições em uma pequenina cidade do sul da França, um vale abençoado na Região de Carcassone, o Val de Dagne, para os lados da Espanha, numa cordilheira que produz um vinho delicioso, LesCorbières.

A minúscula cidade de Villar en Val conta com uma prefeitura em miniatura onde se expressariam, durante o dia, 24 dos 29 votantes inscritos. Logo ao lado da mini-prefeitura, uma pracinha exibia os posters dos 11 candidatos à presidência bem alinhados, comportadamente, sob o olhar da estátua de Nossa Senhora segurando o menino Jesus. A paisagem verdejante e ensolarada era de um bucolismo enternecedor.  Fracamente, nada tem o mesmo sentido visto dali, longe da agitação da cidade grande.

Bastião do Partido Socialista, a Região Occitanie onde fica Villar en Val, desta vez hesitou, como todo o resto da França. Estávamos todos febris naquela manhã de domingo, pois às 20h saberíamos quem, do lobo ou do cordeiro, passaria para a segunda fase das eleições.

O almoço transcorreu sob a sombra de uma árvore, na entrada da sala comunal da prefeitura de uma outra cidadezinha do vale, Montlaur, onde haveria logo em seguida a projeção do filme de Alice Diop, jovem cineasta de origem senegalesa. O almoço era oferecido pela associação l’Abribus para os participantes e organizadores do festival de cinema documentário que rodou três dias de (mini) cidade em cidade.

Daniel Lepine, um homenzarrão de olhos de jabuticaba e sorriso faceiro, antigo professor primário, militante comunista, resistente e defensor da cultura e da convivência entre as pessoas, orquestrava mais este encontro. Só se falava da eleição, havia ainda esperança de que a esquerda via Jean-Luc Mélenchon se classificasse para o segundo turno. Daniel nos contou que seu filho lhe mandara naquela manhã a música de Jean Ferrat, “Ma France”. Como um hino de amor ao país, Ferrat canta com toda a melancolia de que a França é capaz, palavras de consolo e de luta. Colocamos no Youtube para escutarmos juntos, e aquele foi um lindo momento de comunhão, entre o sol e a sombra das folhas da árvore que nos abrigava.

A projeção do filme de Alice Diop caiu como uma luva para o dia da eleição, pois conta a história de um rapaz negro que mora na periferia de Paris e segue em segredo, sem contar para a família nem para os amigos, um curso de teatro muito disputado na capital. Só que por ele ser negro, os papéis que lhe dão na escola são sempre os de empregado, negro americano ou “negro primitivo” africano. Acontece que o sonho dele é fazer o papel de Danton, o herói da Revolução Francesa. Com isto, nem sonhar –lhe respondem os responsáveis da escola. Steve, o rapaz da periferia é e sempre será estigmatizado. Menos no filme de Alice, em que ele termina recitando o texto de Danton. De arrepiar !

Marine Le Pen usa o ódio ao estrangeiro como combustível eleitoral. Nós todos sabemos disto e temos medo. A noite vem chegando, e voltamos para Villar en Val para nos inteirarmos do voto na cidadezinha (o encerramento da eleição era as 19h e 20h nas cidades grandes). Como um retrato da França, o voto que nos desvenda a prefeita da cidade é conforme à proporção nacional, salvo para François Fillon que não recebeu nenhum voto e BenoîtHamon, que recebeu 4 por ser do Partido Socialista tradicionalmente implantado ali. Quatro votos para Macron (centro-liberal), quatro para Mélenchon (esquerda insubmissa), três para Marine Le Pen (extrema-direita), 3 para Jean-Lasalle (um figura do meio rural, homem do povo), 2 para Dupont-Aignan (no lugar de Fillon – direita), e um voto para NathalieArthaud (operária anti-capitalista). Tudo ainda pode acontecer à nível nacional, então bebemos um espumante juntos na sala da prefeitura.

As 20h cai o veredito : Emmanuel Macron com mais de 23% e Marine Le Pen que chega aos 21% serão os candidatos da segunda fase da eleição. Um choque ? Talvez, mas um choque previsto, se não ditado, pelos institutos de sondagem. Na televisão desfilam os políticos profissionais num valha-se quem puder alucinante. Os dois grandes partidos tradicionais da 5a República francesa explodem nos ares. Fini o Partido LesRepublicains de François Fillon e o PS do François Hollande que traiu seu próprio candidato, BenoîtHamon. Quem pedirá a seus eleitores o voto para Macron contra Marine Le Pen ? Que Alianças serão feitas nestas duas próximas semanas ? Jean-Luc Mélenchon faz um discurso ressentido, de quem acreditava chegar ao 2° turno. Ele não pede o voto para Macron. Anti-liberal ferrenho, ele deixa um flou para seu eleitorado (quase 20%) que poderá não votar contra Marine Le Pen…

O povo de esquerda do Val de Dagne está triste. Como escolher agora entre votar Macron para impedir Marine de chegar ao poder ou votar em branco ? Como escolher entre o “Mal” (a extrema direita racista) e a “causa do Mal”, o ultra-liberalismo ?

O que será dos pássaros e das vinhas, da terra fértil, do lagarto azul turquesa e das flores dos campos se continuarmos destruindo o que temos de mais precioso, se continuamos a pensar que o cada um por si é o que move o mundo, quando está provado que a felicidade é muito mais no estarmos juntos ? Emmanuel Macron é um representante da elite, não é um representante do povo.

Se a democracia, tal qual ela existe, nos leva a eleger seres como Berlusconi, Donald Trump, Vladimir Poutine, Le Pen e outros ditadores financeiros disfarçados, é que, talvez, tenha chegado a hora de pensarmos juntos um outro jeito de partilharmos o privilégio de estarmos todos nesta Terra. Arregacemos as mangas, o homem é sim capaz de criar um novo sistema político mais consciente e empático.

 

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