A destruição de livros atravessou séculos como prática autoritária e agora se tornou desculpa para a saúde financeira de muitas editoras

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Cena de Fahrenheit 451, de François Truffaut. Foto: Reprodução

Nós vos pedimos com insistência:
Nunca digam – Isso é natural!”

(Bertolt Brecht)

 

A biblioclastia consiste na prática de destruição dos livros.

Poderíamos questionar as motivações de um biblioclasta. Talvez o medo, a intolerância, a inveja, a cobiça, a sede de poder e tantos outros vícios humanos estejam entre os principais motores da destruição dos livros. É preciso salientar que o discurso de um biblioclasta é sempre muito coerente. Queimam-se os livros hereges para salvar a alma humana. Destroem-se os livros proscritos, pois são um perigo para a ordem social. Livros eróticos devem ser banidos, porque representam um ataque à moral e, geralmente, aos valores familiares. Enfim, como vimos no filme brilhante dirigido por François Truffaut, Fahrenheit 451, baseado no livro homônimo de Ray Bradbury, o discurso de um biblioclasta de modo geral faz muito sentido. Há sempre uma razão justificável para a destruição dos livros e um séquito de pessoas que a acompanham cegamente.

Dentre as modalidades de biblioclastia já reconhecidas, nenhuma parece tão razoável como aquela praticada pelos gestores editoriais. Eles transformam naturalmente os livros em aparas de papel, sob o argumento de que exemplares sem saída representam custos altos de estoque. Autores recebem amiúde uma mensagem eletrônica do setor comercial de sua editora, a qual consiste em avisar que seus livros serão destruídos. Às vezes, esse pobre escriba tem a opção de adquirir a preço de custo os exemplares remanescentes, embora cada empresa entenda a seu modo o que significa “preço de custo”. Já me ofereceram por cada exemplar condenado à destruição o preço de capa em vigor. Negócio da China, sem dúvida! – para a casa publicadora.

Teimo em acreditar que o editor de verdade nada tem a ver com esse quadro melancólico. Desde o século XIX a distinção entre a figura do editor e a do publisher vem se acentuando, tal é a complexidade da cadeia produtiva do livro e o conflito de interesses observado entre seus agentes. Em países como o nosso, no qual o livro corresponde a uma moeda de troca sem grande valor, pois mesmo a venda de best sellers é bastante sofrível, a balança da razão pende para as decisões do publisher, esse destemido algoz da cultura – observadas as devidas e reconhecidas exceções!

Provam-nos os discursos veiculados pela media após o anúncio de que 400 mil exemplares da extinta editora
Cosac Naify seriam reduzidos a aparas de papel na virada do ano de 2016. Sim, houve sonhadores de toda sorte que se compadeceram com o mal destino dos volumes e dos autores. Mas também houve uma enxurrada não menos significativa de opiniões que buscaram comprovar, com cálculos e argumentos muito bem orquestrados, que não havia decisão mais razoável, ou mesmo inteligente, a ser tomada. Vão-se os livros, ficam as ideias e os textos. Vão-se os livros, preservam-se o patrimônio e a saúde financeira do editor. Gestores de alto nível vaticinaram, sem piedade: livros podem e devem ser destruídos. Isso é natural!

Mas os exemplares foram salvos. Venceu a palavra do editor, de seus autores e de alguns milhares de leitores, amantes de livro. Ficara provado que a solução defendida pelos gestores poderia ser a mais racional, mas era de longe a menos criativa. Venceu a inteligência. Resta esperar que a desinteligência não contamine as universidades. O que não seria nada natural…

*Professora da USP e autora de, entre outros, O Império dos Livros: Instituições e Práticas de Leituras na São Paulo Oitocentista, Prêmio Jabuti, 2012. Para ler mais, entre na página
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