Livro de estreia de Elena Ferrante chega ao Brasil. “Um Amor Incômodo” traz a história de uma complicada relação entre mãe e filha. Quem narra é esta última, após a misteriosa morte da mãe

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A dicotomia presença/ausência a­den­­­­­­­­tra seus enredos desde o primeiro livro, Um Amor Incômodo (L’Amore Molesto), que acaba de ser lançado no Brasil. Foto: Reprodução

Sob o pseudônimo Elena Ferrante, uma autora – assumiremos aqui que seja mulher – vem publicando algumas das obras mais interessantes da literatura contemporânea. Cercada de inúmeras especulações, sua identidade permanece misteriosa desde sua estreia literária, há 25 anos. A hipótese hoje mais aceita é aquela que conecta a escritora a Anita Raja, tradutora de Franz Kafka, Christa Wolf e outros. Em suas entrevistas, concedidas sempre por escrito, Ferrante argumenta que pretende “chamar atenção para a unidade original entre autor e texto e para a autossuficiência do leitor, que poderia deduzir dessa unidade tudo aquilo que lhe fosse necessário”.

No poema Assenza, Attilio Bertolucci escreveu que a ausência é a forma mais aguda de presença. Ferrante parece concordar: “Estou presente, tanto nos meus romances como nas respostas às entrevistas. O único espaço onde o leitor deveria procurar e encontrar o autor é o da sua escrita”. Em carta a seus editores, datada de 1991, Ferrante escreve: “Acredito que os livros, uma vez que tenham sido escritos, não têm qualquer necessidade de seus autores. Se eles têm algo a dizer, cedo ou tarde encontrarão leitores”.

A dicotomia presença/ausência a­den­­­­­­­­tra seus enredos desde o primeiro livro, Um Amor Incômodo (L’Amore Molesto), que acaba de ser lançado no Brasil. Após a entusiasmada recepção da Tetralogia Napolitana, composta por A Amiga Genial, História do Novo Sobrenome, História de Quem Foge e de Quem Fica e Storia della Bambina Perduta (ainda sem edição brasileira), o interesse pelo trabalho de Ferrante cresceu e seus livros anteriores passaram a ser traduzidos ao redor do mundo. Antes de Um Amor Incômodo, foram publicados por aqui Dias de Abandono e A Filha Perdida.

Um Amor Incômodo tem apenas 173 páginas, mas muita densidade. É o romance mais psicanalítico de Ferrante. Narrado em primeira pessoa, retrata uma complicada relação entre mãe e filha sob a perspectiva da filha Delia, uma mulher de 45 anos. Começa da seguinte forma: “Minha mãe se afogou na noite de 23 de maio, dia do meu aniversário”. A morte da mãe no aniversário da filha não poderia ser mais simbólica.

Após o luto, Delia volta a Nápoles, cidade em que nasceu – um cenário que Ferrante retomaria em todos os seus livros, de uma forma ou de outra. Ao voltar para o bairro e para a casa onde passou parte importante de sua infância, retorna também para o dialeto napolitano, para o idioma materno. Delia é tragada pelo passado enquanto tenta descobrir o que aconteceu com a mãe. Ferrante dedica o romance à própria mãe.

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Um Amor Incômodo, Elena Ferrante. Tradução de Marcello Lin. Instrínseca, 176 páginas.

Em um trecho de Frantumaglia (al­go que a autora define como “fragmentos de memória”), uma coletânea de cartas, ensaios e entrevistas ainda inédita por aqui, a autora se dedica a pensar na “imagem da mãe” e faz um gancho com a psicanálise. Conta que o primeiro contato que teve com a obra de Freud foi aos 16 anos e que ficou muito impressionada: “Eu amo Freud”, afirma. Na sequência, menciona Melanie Klein e Luce Irigaray, pensadora belga cujos trabalhos transitam entre filosofia, linguística e psicanálise. Conta que o título L’Amore Molesto faz referência a um texto de Freud, Sexualidade Feminina (1931) – mais especificamente à fase que antecede o Édipo das mulheres, quando mãe e filha vivem uma relação intensa, uma espécie de indissociação. Nesse momento, segundo Freud, o pai (ou a figura paterna, quem quer que desempenhe essa função) é para a menina apenas um “rival incômodo”.

Ferrante comenta que, na época do lançamento, a editora italiana chegou a propor algumas sugestões de títulos, quando se lembrou da frase de Freud. Pensou em Rivale Molesto (Rival Incômodo), mas a referência à figura paterna lhe pareceu equivocada. Então, no que considera uma virada importante, chegou ao título atual. Na tradução brasileira, o artigo indefinido um me parece fora de lugar. Afinal, Ferrante está nos dizendo que não se trata de um amor incômodo, mas do amor incômodo primeiro, originário – o que pediria a ausência de artigo ou o artigo definido, tal qual ocorre no título italiano, L’Amore Molesto.

Passamos a vida nos equilibrando entre duas forças opostas que, no entanto, não se excluem: o desejo e o temor de se misturar e se perder no outro. Enquanto buscamos autonomia e identidade, também somos atraídos pela ideia de retorno a algo que seja anterior ao eu. Em última instância, do retorno à mãe. Essa ambivalência nos constitui e movimenta; haver-se com ela é trabalho de uma vida.

Embora a clareza da escrita de Ferrante nos dê a impressão de que a leitura fluirá sem dificuldades, é com nossas próprias dificuldades internas que vamos nos confrontar ao lê-la. As histórias de Ferrante despertam nos leitores – especialmente nas mulheres – uma identificação profunda. Entre seus livros, Um Amor Incômodo é o de leitura mais custosa – o que não é demérito algum do romance.

Freud dizia que, durante o percurso analítico, estaríamos nos dispondo a acordar os demônios que habitam nosso subsolo, uma jornada sem garantias. Do mesmo modo, os livros de Ferrante nos confrontam com algo originário do feminino e, embora encontremos pra­­zer em sua companhia, dificilmente escaparemos impunes. Para Kafka, um bom livro é aquele que funciona como um machado capaz de partir os mares gelados dentro de nossa alma. Não poderia pensar em uma imagem melhor para ilustrar a aventura que é ler Elena Ferrante.

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