Depois do risco de não ser realizado por problemas financeiros, maior evento das artes visuais em Porto Alegre é anunciado para 2018 por seu presidente, Gilberto Schwartsmann

Gilberto Schwartsmann, presidente da Bienal do Mercosul

Gilberto Schwartsmann, presidente da Bienal do Mercosul

Mais uma vez, a Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, correu o risco de fechar as portas. A crise está sendo superada, porém, diz o presidente da Fundação Bienal do Mercosul, o oncologista Gilberto Schwartsmann, que promete a inauguração da 11ª edição para abril de 2018. “Já temos alguns parceiros e outros a conquistar”, declara, otimista.

Oficialmente, a realização da Bienal em 2018 foi divulgada em 26 de março deste ano, junto às comemorações do aniversário da cidade, em meio a uma extensa programação na escadaria da Igreja Nossa Senhora das Dores, que incluía entre outras atrações um concerto da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, a projeção antecipada de algumas obras da 11ª edição e uma inesperada vaia para políticos presentes. Schwartsmann mostrou equilíbrio na ocasião, ao contrário de presidentes da Bienal de São Paulo que, na mesma situação, se irritaram com o público.

O episódio foi seguido pela projeção do vídeo com dezenas de imagens de pessoas feitas pelos artistas Leopoldo Plentz e Fernando Bueno e que acompanhou a música Paratodos, de Chico Buarque. “O conceito do vídeo era reunir gente de todas as caras, de todas as raças. Tem negro, branco, índio, uma diversidade étnica e cultural que tem a ver com a diversidade brasileira e com o tema da Bienal, O Triangulo do Atlântico”, diz Plentz.  

Os artistas surpreenderam a plateia ao incorporar os versos de Chico: “o meu pai era paulista/ meu avô, pernambucano/ o meu bisavô, mineiro…” afinal, o compositor tem sido rechaçado pela direita, neste momento político. Schwartsmann lembra que chegaram a aconselhá-lo a vetar a música, mas ele considerou o pedido um absurdo. “Chico é um grande artista brasileiro, e sua obra, nosso patrimônio”. Bueno, que tem veia cômica, comentou: “Se o Chico se fixar definitivamente na capital francesa até a abertura da Bienal do Mercosul no ano que vem, vamos projetar nossa obra na catedral de Nôtre-Dame de Paris”.

Para orquestrar esta edição de poucos recursos, Schwartsmann escolheu o curador Alfons Hug, atual diretor do Goethe de Lagos, na Nigéria, que propôs o projeto O Triângulo do Atlântico. Hug tinha um esboço pronto que falava da histórica rota dos escravos que partiam da África Negra pelas mãos dos europeus e eram enviados para a América em caravelas superlotadas.

A 11ª Bienal do Mercosul embarca nos registros e documentações desse tema tabu. “Li o projeto e me identifiquei imediatamente. Tinha pesquisado todas as edições da Bienal e vi que a arte africana quase não aparecia”. O recorte de Hug navega pelos mares a partir do século 15 e toca no fluxo migratório do Triângulo do Atlântico, o mar de Atlas, que separa a Europa da África e da América. “Dentro dessa proposta, os artistas vão percorrer o caminho histórico dos entrepostos de venda e negociação de escravos nos três continentes”, detalha Schwartsmann.

Hug, em sua primeira coletiva, explicou que pretende expor obras da coleção africana Olufemi Akinsanya, composta por esculturas de todas as regiões da Nigéria, além de exemplares das culturas locais Iorubá, Igbo e Urhobo, dependendo das questões financeiras e da logística. O presidente lembra que o orçamento-base da 11ª edição será R$ 3 milhões, menos da metade do dinheiro gasto na décima edição (R$ 7,7 milhões), valor inferior ao da 9ª (R$ 12,4 milhões).

Schwartsmann disse ao curador que quer uma Bienal enxuta. “Imagine vinte nomes chave do circuito de arte internacional, para realizar uma edição impecável, como se fosse para ser exposta no MoMA de Nova York. Não vamos trabalhar com quantidade e sim com qualidade”.

Além da parte expositiva, o presidente está interessado na versão digital completa da Bienal, somada a uma programação musical ou literária ligada ao tema da mostra. Apesar da África ser o vetor central da edição, também serão contemplados artistas da Europa, da América Latina, da Ásia e dos Estados Unidos. “Muitos já estão sendo contatados pelo curador, mas ainda é cedo para adiantar os artistas confirmados”, diz Schwartsmann.

A 11ª Bienal deve convergir para o centro de Porto Alegre, abrangendo o circuito do Margs (Museu de Arte do Rio Grande do Sul), o MAC (Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul) e o Santander Cultural, além das intervenções artísticas por vários pontos da região.

Link curto: http://brasileiros.com.br/dc7Wf
Tags: ,