Nos 50 anos do movimento liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil, ouça uma seleção de artistas e trabalhos que também sintetizaram o chamado “Som Universal”

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Detalhe da capa do álbum A Banda Tropicalista do Duprat. Lançado em 1968 pelo maestro, o LP amplificou as experiências feitas por Rogério Duprat com artistas como Caetano, Gil, Gal Costa e Os Mutantes. Foto: Divulgação / Philips

Noite de 21 de outubro de 1967, sábado. O Brasil literalmente está diante da TV, para conferir o embate entre os finalistas da segunda edição do Festival de Música Popular Brasileira da Record. Fenômeno de audiência, o confronto, visto por 94% dos telespectadores do País, foi retratado no documentário Uma Noite em 67 (2010), de Renato Terra e Ricardo Calil. Vitoriosos, com Ponteio, Edu Lobo e o poeta Capinam suplantaram, respectivamente: Gilberto Gil, com Domingo no Parque; Chico Buarque, com Roda Viva; e Caetano Veloso, com Alegria, Alegria. “Derrotadas”, a segunda e a quarta colocadas, no entanto, entraram para a história como estopins de uma influente corrente estética no âmbito da música, a Tropicália.

Neste 2017, que marca a passagem de meio século desde que foi “inaugarado o movimento”, não serão poucas as reflexões sobre a herança deixada pelo “Som Universal” defendido por Caetano e Gil. Engordam o gancho da efeméride, claro, a convergência, naquele mesmo ano, de afluentes estéticos de outras expressões artísticas: no cinema, Terra em Transe, de Glauber Rocha; no teatro, a oswaldiana O Rei da Vela, de Zé Celso Martinez Corrêa; nas artes visuais, a instalação Tropicália, de Hélio Oiticica, por exemplo.

Artífices intelectuais da faceta musical da Tropicália, Gil e Caetano costumam dizer que o movimento “morreu” no ano seguinte, com o recrudescimento dos caminhos nebulosos iniciados com o golpe civil-militar de 1964. Nascimento e morte do tropicalismo compreendem, para eles, a aparição das duas canções no festival da Record, o lançamento de Tropicália ou Panis et Circensis (o álbum-manifesto lançado por eles, Tom Zé, Nara Leão, Capinam, Torquato Neto, Os Mutantes e o maestro Rogério Duprat) e a estreia, em 28 de outubro de 1968, exato um ano após o rebuliço no festival da Record, do programa Divino, Maravilhoso na TV Tupi.

Dirigido por Fernando Faro e Antonio Abujamra, apresentado por Gil e Caetano, o programa teve como convidados alguns chapas indissociáveis dos baianos, como Jorge Ben, Gal Costa e as bandas Os Mutantes e Os Bichos. Na edição de 30 de outubro do jornal Folha de S. Paulo, a atração televisiva foi avaliada pelo crítico musical Adones de Oliveira, grande entusiasta de Caetano e Gil, como “um novo conceito estético, radicalmente desvinculado do passado e integralmente integrado no presente – não no futuro”. Parágrafos a seguir, a resenha fala em “mau-comportamento total, caótico nos sons e nos gestos. Alucinação”.

Em 23 de dezembro, dez dias depois de sancionado o Ato Institucional n° 5 e na antevéspera do Natal, foi ao ar o último episódio de Divino, Maravilhoso. Nele, Caetano cantou a natalina Noite Feliz, com um revólver apontado contra a própria cabeça. Para o temido general Médici, então no comando do País, a afronta do baiano cabeludo, de roupas extravagantes, foi a gota d’água. Três dias depois, Caetano e Gil foram presos em Salvador, para, em julho de 1969, serem obrigados a saírem do País e iniciarem um período de dois anos de exílio em Londres.

Cinquenta anos depois, a “morte” simbólica ou a aparente falta de continuidade da Tropicália enquanto influência estética para a produção dos anos 1970 – período consagrado como a década da MPB, que capitulou a sigla MPM (Música Popular Moderna) – é dessas lacunas que precisam ser revistas. Afinal, a despeito de estrelas como Caetano, Gil, Bethânia, Gal, Chico e Milton – o tal panteão da MPB – terem feito a cabeça de toda uma geração de ouvintes, nas entrelinhas do sucesso midiático desses artistas muita gente boa ficou obscurecida e ainda precisa ser colocada em seu devido lugar histórico.

Pensando nisso, convidamos você, leitor, a ouvir, na íntegra, 25 álbuns que dialogam com o tal “Som Universal” proposto por Caetano Veloso e Gilberto Gil. Talvez o fato de esses artistas não terem se autodenominado artífices de movimentos ou signatários de manifestos, cada um correndo na sua, transando seu som, tenha feito com que eles permanecessem dispersos na espiral do tempo. Mas, com o advento do compartilhamento de arquivos de áudio na internet, seja em plataformas de download ou streaming, e graças a dedicação de alguns pesquisadores, desde início dos anos 2000 é cada vez mais fácil estabelecer tais conexões e evidenciar que o tropicalismo reverberou fortemente nos anos 1970, e não somente em manifestações mais tardias, como o Mangue Beat recifense dos anos 1990.

Majoritariamente nordestinos, atestando certa vocação da região para os procedimentos antropofágicos, os artistas e grupos listados aqui vêm de estados como Pernambuco, Paraíba, Ceará, Piauí e Bahia, mas também do eixo Rio/São Paulo. Na alquimia de sons experimentada por eles cabe de tudo: rock, baião, coco, folk, psicodelismo, forró, maracatu, jazz, soul, funk e blues. Em suas composições, rabecas ancestrais flertam com sintetizadores; pífanos são embebidos em solos de guitarras repletos de microfonia e loops de pedais wah-wah. A lista está ordenada cronologicamente e por regiões do País, com estados de origem dos artistas entre parênteses. Boa viagem!

Daminhão Experiênça – Planeta Lamma (Bahia, 1971)

 
  
 Manduka – Brasil 1500 (Rio de Janeiro, 1972)
   

Rubinho & Mauro Assumpção – Perfeitamente, Justamente Quando Cheguei (Rio de Janeiro, 1972)

Quinteto Violado – Quinteto Violado (Pernambuco, 1972)

Lula Côrtes e Laílson – Satwa (Pernambuco, 1973)

Pessoal Do Ceará – Meu Corpo, Minha Embalagem, Todo Gasto Na Viagem (Ceará, em 1973)

Fagner – Manera, Frufru, Manera (Ceará, 1973)


Marconi Notaro – No Sub-Reino dos Metazoários (Pernambuco, 1973)

Arnaud Rodrigues – Murituri (Pernambuco, 1974)

 Flaviola e o Bando do Sol – Flaviola e o Bando do Sol (Pernambuco, 1974)

Ave Sangria – Ave Sangria (Pernambuco, 1974)

Rodger e Teti – Chão Sagrado (Ceará, 1974)

Belchior – Mote e Glosa (Ceará, 1974)

Edy Star – Sweet Edy (Bahia, 1974)

Zé Ramalho & Lula Côrtes – Paebirû (Paraíba e Pernambuco, 1975)

Amelinha – Flor da Paisagem (Ceará, 1977)

Ednardo – O Azul e o Encaranado (Ceará, 1977) 

Clodo, Climério e Clésio – São Piauí (Piauí, 1977)

Hugo Leão Filho – Paraibô (Paraíba, 1978)

Cátia de França – 20 Palavras ao Redor do Sol (Paraíba, 1979)


Ronnie Von – Ronnie Von (São Paulo, 1968)

Rogério Duprat – A Banda Tropicalista do Duprat (Rio de Janeiro, 1968)

Paulo Bagunça – Paulo Bagunça e a Tropa Maldita (Rio de Janeiro, 1973)


Perfume Azul do Sol – Nascimento (São Paulo, 1974)  

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