Em cartaz no MAM, “Anita Malfatti – 100 Anos de Arte Moderna” aponta valores das obras da pintora para além da imagem de artista-mártir

Anita Malfatti - Grupo dos Cinco 1922 - Romulo Fialdini

GRUPO DOS CINCO (1922)


Efemérides são boas ocasiões
para revisitar obras fundamentais. Se muitas vezes essas homenagens servem apenas como um lembrete da importância de determinado artista ou obra, há casos em que o evento celebratório abre espaço para uma releitura mais ampla e completa, agregando novas perspectivas de análise e fruição. É o caso, por exemplo, de Anita Malfatti – 100 Anos de Arte Moderna, em cartaz no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) para celebrar o centenário da exposição polêmica da pintora, que acabou se tornando um dos marcos fundadores do Modernismo no País. Com 70 obras, a mostra não se atém àquele momento preciso. Pelo contrário, traça um rico panorama da produção da artista, explicitando suas principais escolhas e contrapondo-se de maneira clara à versão oficial, ainda repetida nas salas de aula, que reduz Anita a uma espécie de mártir do movimento, uma estrela de brilho intenso porém efêmero, que teria se deixado abalar pela crítica incisiva de Monteiro Lobato, publicada por ocasião de sua exposição de 1917, expressando-se escandalizado com o estrabismo das escolas rebeldes como o Expressionismo, ao qual ela teria aderido.

Trabalhada ao longo de um ano de pesquisa pela curadora Regina Teixeira de Barros e proveniente de diversas coleções públicas e particulares do País, a seleção se debruça sobre os três grandes momentos em torno dos quais se aglutina a pintura de Anita: os anos de vanguarda, marcados pelas viagens à Alemanha e aos Estados Unidos e pelas exposições de 1914 e 1917,  realizadas numa ainda pacata e conservadora São Paulo; a produção dos anos 1920, vividos em parte na França e na qual se nota uma forte tendência ao retorno à ordem e uma sintonia com o que vinha sendo produzido pela escola de Paris; e finalmente os anos 1940 e 1950, marcados por um evidente interesse da artista pela arte primitiva, pela cultura popular e as festas de interior. “Há sempre uma nova Anita”, afirma Regina. “Ela nunca se acomoda, está sempre se reinventando”, acrescenta, lembrando que o Modernismo não é uma rota de caminho único e que até mesmo ao resgatar as tendências realistas, buscando um diálogo entre o passado e o presente, ela mostrou ser radical. A observação direta das obras e os próprios testemunhos da pintora confirmam isso: “Agora coragem, aprompte-se, vou dar-te uma notícia ‘bouleversante’.
Estou clássica! Como futurista morri e já fui enterrada”, escreve ela a Mário de Andrade em 1924.

A mostra enfatiza os dois gêneros mais potentes da produção de Anita: as paisagens e os retratos. Bastante sóbria, a montagem coloca lado a lado ícones de sua produção e obras menos conhecidas. Propositalmente evita tratar dos temas polêmicos em torno da sua biografia. E vai além, ao tentar iluminar nexos entre diferentes grupos de obras, como os potentes núcleos dedicados aos estudos de nu e a bela série de paisagens realizadas em Monhegan (EUA). Merecem também destaque as poéticas aproximações entre obras afins, como o diálogo entre dois retratos de mulheres num balcão – Chanson de Montmartre, de 1926, e A Mulher do Pará, do ano seguinte –, tema que evidentemente remete ao Balcão, de Manet, demonstrando na prática como ela era sobretudo uma pesquisadora da pintura, que se debruçava com tenacidade e resistência sobre determinadas questões ou aspectos da pintura, tanto no que se refere às várias possibilidades de construção do espaço pictórico como à importância maior que a cor tem em toda sua produção, seja nos contrastes mais gritantes do período expressionista, seja nos tons mais rebaixados como os usados em Retrato de A. M.G.

Em vários momentos é possível notar como a artista se mostrava atenta à produção de seus contemporâneos, ecoando em seus próprios trabalhos o que descobria em seu entorno, revelando interesse pelo trabalho de figuras como Marquet, Vuillard, Bonnard e, evidentemente, Matisse, cuja influência fica clara em telas como Interior de Mônaco, de 1925. Como sintetiza Ana Paula Simioni no catálogo da exposição, “mais do que responder aos pleitos e à agenda de seu grupo de origem, Anita procurou trilhar um rumo diverso, assentado no internacionalismo, no modernismo temperado, no diálogo com a tradição pictórica ocidental”.

Tal processo também explica sua produção tardia, em que vemos despontar um interesse pelos temas populares, pela simplificação na construção do espaço, em sintonia evidente com o crescente interesse nacional pela arte primitiva, no que Regina Teixeira de Barros chama de “simplicidade deliberada,” e que na época teria sido frequentemente confundido com mais um sinal de decadência da pintora. Se parece ter sido perturbador para a crítica da época – marcada por uma visão mais unívoca e ascendente da arte moderna – entender como uma mesma artista realiza obras tão díspares como Vida na Roça e o Farol, consolida-se, cem anos depois, a noção de que o fato de não romper incansavelmente os modelos estabelecidos (muitas vezes ela optou por entendê-los e absorvê-los) não a transforma obrigatoriamente numa mártir, sacrificada em prol da modernidade. Anita foi bem mais do que isso, como provam as obras atualmente em exposição.

Serviço – Anita Malfatti: 100 Anos de Arte Moderna
Até 30 de abril
Museu de Arte Moderna
Av. Pedro Álvares Cabral,   Parque Ibirapuera, São Paulo, SP
11 5085 1318

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