Sob o olhar do curador Ivo Mesquita, obras retratam a relação do homem com os centros urbanos

Thomas farkas 5328

O mundo se tornou mais curto nas distâncias e mais vasto em suas representatividades depois da invenção da fotografia, mídia em torno da qual foram criadas novas ideias sobre a cultura, sobre a convivência nas cidades e a maneira de compreendermos o que está ao nosso redor. É nesta conceituação que se situa Um Imaginário de Cidades, mostra que, com curadoria de Ivo Mesquita, inaugura o Museu da Fotografia em Fortaleza.

Também foi Mesquita quem deu o tom curatorial para a coleção Paula e Silvio Frota, nos três  andares do museu (o quarto está reservado para o auditório). Durante um ano, ele observou e estudou a coleção de Silvio Frota: “Ela é muito ampla, tem várias vertentes da fotografia, do jornalismo, da moda, do retrato e da guerra”, comenta.

O formato do museu foi concluído em setembro do ano passado. Apenas 10% da coleção está exposta, ou seja, são 200 fotografias ocupando o espaço. O andar térreo, que será dedicado a exposições temporárias, tem foco em questões urbanas: “Pensei em mostrar a diversidade de olhares brasileiros e estrangeiros sobre a cidade”. Como lembra o curador, a invenção da fotografia em 1839, acompanhando a modernidade que se instalava, teve os centros urbanos como um de seus atores preferidos.

Não se trata de fotos de arquitetura e urbanismo exatamente, mas do retrato do homem no habitat que ele mesmo construiu. No texto que apresenta a exposição, Mesquita explica: “Um imaginário de cidades articula diversos grupos de fotografias que representam ou evocam a cidade, sua topografia, a vida no espaço urbano, lugares e personagens, arquitetura e história. Dispostas como um recorrido cinemático das imagens, sem uma cronologia ou hierarquia, elas apresentam flagrantes e fragmentos de ensaios como um imaginário específico legado pela fotografia: a câmera fotográfica, um dispositivo tecnológico, registra a paisagem urbana, apreende fragmentos do tempo, produz visibilidade e memória”.

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Depois, o texto prossegue: “Por outro (lado), pode ser visto todo um núcleo composto por uma fotografia de caráter abstrato, baseada na experimentação formal e técnica do meio e, a partir dos anos 1930, fortemente marcada pela experiência da arquitetura modernista e suas bases racionalistas, assim como pelas transformações que essa cidade moderna provocou na nossa percepção do espaço e das condições em que vivemos”. 

 Além da cidade, há uma outra perspectiva tendo em vista o caráter formador e pedagógico que tanto interessa a Silvio Frota e que privilegia a criança e seu universo. “Sobre crianças” se apresenta como um mosaico da vida infantil: junto às famílias, aos amigos, nas escolas.Também como retrato de vítimas de violência. “As fotos são apresentadas como fragmentos, evocações de um imaginário comum, a serem ordenados e interpretados pelos visitantes, em particular crianças e escolares com suas famílias, conforme a experiência e o histórico de cada um”, diz.

Já o primeiro andar é dedicado a novas aquisições: “Não há um ‘a priori’ curatorial, além da escolha, dentro da coleção, das obras em relação às representatividades de autores, de nacionalidades e de gerações”, diz Mesquita.

O segundo andar é dedicado aos fotógrafos e fotografias do Nordeste. Nada mais natural do que a coleção Paula e Silvio Frota ter em seu acervo inúmeras imagens da região e também do Norte: “Constitui um amplo repertório de referências – fotógrafos, artistas, temas, arquivos – que informam sobre o fundante papel da fotografia no desenvolvimento de uma visualidade local moderna e de uma identidade cultural inscrita e ressonante no imaginário nacional, sobretudo a partir da segunda metade dos anos 1940”.

Desta maneira, fotos de Pierre Verger, Marcel Gautherot, Jean Manzon e José Medeiros nos apresentam um recorte da fotografia brasileira e do Brasil. Atravessam a forma como essa região tão rica ficou conhecida pelos brasileiros a partir dos anos 1940 e 1950 e muitas vezes pelas páginas de revistas como O Cruzeiro e Manchete.

O grande homenageado, com uma sala especial, não poderia deixar de ser Chico Albuquerque (1917-2000). Reconhecido como o primeiro fotógrafo de publicidade no Brasil, em 1948, Seu Chico, como ele era conhecido, também foi fotógrafo de cena do filme It’s all True (É tudo verdade), de Orson Welles, de 1942. Também foi mentor de um grupo de fotógrafos  que se tornou referência no Brasil, como Celso Oliveira, Tiago Santana e Ed Viggiani, no começo dos anos 1980, quando ajudou a formar uma equipe de fotojornalismo para o jornal O Povo, em Fortaleza. Uma bela homenagem – neste ano, comemora-se o centenário de nascimento de Seu Chico.

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