Depois de escandalizar a corte, Domitila viveu 38 anos em São Paulo, onde se reinventou. Hoje devotos visitam seu túmulo

Domitila de Castro Canto e Melo, que chamava D. Pedro I de “Demonão” – Foto: Reprodução

Domitila de Castro Canto e Melo, que chamava D. Pedro I de “Demonão” – Foto: Reprodução

Domitila de Castro Canto e Melo entrou para a história do Brasil como a amante de D. Pedro I que escandalizou a Corte e fez sofrer a imperatriz Leopoldina. Essa, no entanto, era apenas uma das facetas da Marquesa de Santos. Irreverente, manipuladora e nepotista, Domitila foi também uma bem-sucedida mulher de negócios. Como se não bastasse, depois de ser dispensada pelo imperador, ela se reinventou de tal forma em São Paulo que hoje chega a ser venerada como santa.

No túmulo da marquesa, no Cemitério da Consolação, em São Paulo, há placas agradecendo graças alcançadas e um aviso instigante: “Proibido acender velas e depositar objetos”. É que, devido à fama de santa casamenteira de Domitila, acontece de devotas mais afoitas deixarem calcinhas sobre a lápide. Outra crença é que, para alcançar dádivas no campo amoroso, as pessoas devem completar três voltas em torno do túmulo enquanto fazem o pedido.

Para alguns, os milagres da marquesa extrapolam o campo amoroso. Era o que acreditava o acordeonista italiano Mario Zan, autor do Hino do IV Centenário de São Paulo, um dos mais fervorosos devotos de Domitila. Durante décadas, o acordeonista cuidou do túmulo da marquesa, uma construção singela de mármore e alvenaria, tombada pelo patrimônio histórico. Na lápide, só não confere a informação de que ela doou as terras do cemitério. Na verdade, Domitila ajudou na construção da antiga capela.

Antes de morrer, em novembro de 2006, Mario Zan comprou o próprio túmulo, quase em frente ao da marquesa. Nascida em dezembro de 1797, Domitila foi uma mulher à frente de seu tempo. Demorou, mas conseguiu a separação oficial do primeiro marido, de quem levou duas facadas, por supostamente traí-lo. Três anos depois do episódio de violência doméstica, ela conheceu D. Pedro, que tinha viajado do Rio de Janeiro para São Paulo. O irmão caçula de Domitila estava na escolta do então príncipe regente.

No Rio, Domitila ganhou um palacete perto da Quinta da Boa Vista, a residência da família real. Ganhou também títulos. Antes de se tornar marquesa, ela foi Viscondessa de Santos. A escolha teria sido uma forma de D. Pedro I alfinetar os irmãos Andrada, seus desafetos, nascidos em Santos. O mais proeminente deles, José Bonifácio de Andrada e Silva, sentiu o golpe, como registrou em carta: “Quem diria que a michela (prostituta) Domitila seria viscondessa da pátria dos Andradas. Que insulto desmiolado!”. 

Domitila, que em bilhetes ardentes chamava D. Pedro I de “Demonão”, nunca foi aceita pelos aristocratas do Rio. Com a prematura morte da imperatriz Leopoldina, as notícias em torno dos maus-tratos a que ela tinha sido submetida, e a dificuldade de encontrarem uma nova esposa para D. Pedro I na Europa, em 1829 ele decidiu despachar Domitila de volta para São Paulo.

Na cidade, a marquesa viveu mais 38 anos, durante os quais conquistou reputação de caridosa, por ajudar escravos e prostitutas. Ela também quebrou o provincianismo da capital paulista, ao levar o estilo da corte para o solar onde morava. Nas festas e saraus que promovia, muitas moças encontraram marido. E assim começou a fama de casamenteira.

O túmulo da marquesa, que foi preservado por décadas pelo acordeonista Mario Zan – Fotos: Luiza Villaméa

O túmulo da marquesa, que foi preservado por décadas pelo acordeonista Mario Zan – Fotos: Luiza Villaméa

 

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  • Paulo Rezzutti

    “Domitila, que em bilhetes ardentes chamava D. Pedro I de “Demonão” Ela não chamava D. Pedro de Demonão, aliás, se chamava não restaram registros, pois são raros os bilhetes dela para ele que sobreviram. Ele, d. Pedro, é quem assinava as mensagens para ela como “Demonão”..