“Sempre que realizo uma obra com o corpo, o meu ou o de outra pessoa, acredito que a obra acarreta o significado e as metáforas do corpo de todos, da humanidade”, diz a artista

Anna Maria Maiolino

Anna Maria Maiolino (de preto) e a atriz Sandra Lessa, na performance In Atto

Uma mulher cujo corpo está imobilizado por ataduras se movimenta para abandonar aquela espécie de prisão. Uma extremidade da atadura, solta sobre o piso, vai arrefecendo aos poucos. Esta é uma síntese da performance In ATTO (veja vídeo abaixo), protagonizada por Sandra Lessa e que a artista Anna Maria Maiolino, autora da obra, apresentou na abertura de Lugares do Delírio, mostra que, com curadoria de Tania Rivera, cria campos comuns entre razão e loucura, em cartaz no Museu de Arte do Rio de Janeiro. Nesta entrevista, a artista localiza sua criação dentro da vasta cronologia de performances derivadas de seu olhar voltado para a experimentação de linguagens.

ARTE!Brasileiros – Como surgiu esse projeto?
Anna Maria Maiolino
Sou uma artista que utiliza diferentes mídias. Minha primeira performance foi  realizada em 1973: Construção/Jogo foi uma performance que, depois, foi transcrita em um audiovisual de 80 imagens. O material fotográfico é resultado de uma performance realizada no aterro do Flamengo, perto  do Museu de Arte Moderna no Rio de Janeiro com crianças e adultos. Foram utilizados quatro rolos de tecidos de cores diferentes de 90 cm por 30 m. Adultos e crianças participaram do jogo. Com os rolos de tecidos, armavam-se  construções das mais variadas no ar ou na grama em moto-contínuo. Envolvíamos nossos corpos individualmente e coletivamente com os tecidos, em um jogo de espacialidade.


Você diz que gosta de experimentar e parece ter feito uma nova virada agora…
A década de 1970 foi significativa no que concerne à experimentação e à utilização de diversas mídias que se apoiavam em duas produções poéticas paralelas: uma era o trabalho de ateliê propriamente dito, com seus suportes artesanais, especialmente o desenho; a outra, um olhar sobre o mundo, querendo entendê-lo por meio da arte, com os filmes e instalações, fotografias e performances. Estas obras com as novas mídias serão também uma forma de resistência à censura, do regime militar que vigorava no Brasil naquele momento. Logo, meu trabalho veio se construindo utilizando vários meios devido à minha grande curiosidade e pelos meus múltiplos interesses, que prevaleciam à experimentação mais do que uma busca formal. Portanto, a escolha de um material ou mídia não depende de uma preferência de meio, de técnica, mas é determinado em razão do que é mais adequado para aquela obra naquele momento, ou porque aquela preferência é a que mais me seduz naquele momento. A performance In ATTO,  que acabei de apresentar no MAR do Rio de Janeiro e que em 2015 havia exibido na Galleria de Raffaella Cortese, em Milão, foi elaborada por uma necessidade política minha, como resposta de vida sobre a morte.

Você está explorando novas linguagens com o corpo e, agora, com o corpo do outro?
Temos que ter em conta que o ser humano esta vivendo um momento de muita violência, mortes e de dor no mundo. É exacerbado com o bombardeamento ao qual somos submetidos dessas notícias trágicas pelos meios de comunicações. Com isso, nos encontramos expostos à dor coletiva, que passa a ser também nossa. In ATTO: é uma linguagem que expressa afecções. A performance se desenvolve entre as duas personagens: uma jovem, outra anciã, e com o público circunstante.  A obra se reveste de aspectos de rituais. Sandra realiza uma paisagem sonora de vocalizações e uma paisagem de movimentos do corpo para se livrar da bandagem que o mobiliza. Temos voz e um corpo que se movem com grande dose de improvisação. Anna, a mulher anciã, está por perto, atenta e solicita. Ela, metafórica e simbolicamente, é mestra e serva da jovem para a volta à vida. Em 1968, realizei um desenho ilustrativo onde um homem sentado prazerosamente em uma poltrona tenta desembrulhar uma mulher coberta com bandagem. Naquela ocasião, o desenho nos falava da questão do gênero e de como, em alguns casos, o masculino faz do corpo feminino um fetiche que ele utiliza para seu prazer.

O seu trabalho foi sempre muito mais ligado à matéria. Você já falou sobre seu encontro com a obra do filósofo Gilles Deleuze e sobre a diferença que ele estabelece entre esgotamento (onde a possibilidade parece já não existir) e o cansaço (onde ainda há um universo possível a ser descoberto). Este novo trabalho resulta de cansaço ou de um esgotamento? 
Minha obra se desenvolveu com a utilização de duas produções paralelas. Uma delas diz respeito ao trabalho artesanal, da mão, na qual também entra essa referência a Deleuze [sobre o esgotamento ou o cansaço da matéria]. A outra é uma reflexão sobre o mundo e o entorno, e é a esta modalidade que pertence a performance in ATTO. É claro que o desenho revela um significado bem diferente do corpo enfaixado da performance. Não acho que agora esteja me utilizando de nova linguagem, ou do corpo de outra pessoa. Sempre que realizo uma obra com o corpo, que seja o meu ou o de outra pessoa, acredito que a obra acarreta o significado e as metáforas do corpo de todos, da humanidade.

Como escolher a artista que vai desenvolver esse trabalho?
Para mim, a artista é um meio de construção da obra. Escolhi Sandra Lessa por conhecê-la. Ela trabalhava com a companhia de teatro de minha filha, Veronica Gerchman, e gostei da sua atuação.  Experimentei trabalhar com ela como experimento todo outro meio com o qual tento criar um trabalho. Somente a experiência poderá dar os meios necessários para a produção de um trabalho de arte. Ela já havia participado de outros trabalhos meus, como na performance João & Maria, de 2014, e em outra, sonora, na documenta 13.

De que você se lembra cada vez que ela se desata?
O ato de se desatar é libertário, é um renascer, é cura.

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