A mostra apresenta olhares de diferentes artistas sobre a história da principal avenida da cidade de São Paulo

Edu Garcia, Demolição do Palacete Matarazzo, 1996. Acervo O Estado de S. Paulo

Edu Garcia, Demolição do Palacete Matarazzo, 1996. Acervo O Estado de S. Paulo

Nos últimos dois anos, o Masp olhou para o seu passado. Exposições icônicas como Playgrounds e Mão do Povo Brasileiro foram montadas novamente; e o legado de Pietro Maria Bardi e sua mulher, Lina Bo Bardi, retomado. Os famosos cavaletes de vidro desenhados por Lina, por exemplo, foram novamente colocados em ação.

Neste ano, porém, o museu decidiu mirar no seu entorno. O tema da primeira exposição de 2017 é a Paulista, com todas as contradições e embates que a avenida – endereço do museu – carrega.

“Essa mostra traz uma ruptura. Queremos agora criar coisas novas que não estejam necessariamente lastreadas nos projetos da Lina e na própria trajetória do Masp”, comenta Tomás Toledo, um dos seis curadores da mostra. Composta por cerca de 150 obras de 57 artistas, a exposição apresenta olhares distintos sobre a avenida.

Os trabalhos estão divididos em dois núcleos. O primeiro deles exibe produções já existentes, entre aquarelas, performances e fotografias históricas. Já o outro eixo é composto por obras de 17 artistas contemporâneos, feitas especialmente para a exposição. Mesmo menor que o primeiro, é este núcleo que dá o tom da mostra.

Toledo explica que o objetivo da exposição é abordar as ambivalências da avenida: “Ao mesmo tempo que a Paulista remete ao ideal de progresso, essa mitologia do bandeirante, ela também carrega signos de pobreza e violência. É nesse conflito, e não no símbolo de cartão-postal, que estamos interessados”, afirma.

A primeira parte da exposição adota ordem cronológica, iniciando-se com uma aquarela de Jules Martin, feita em 1891, tida como a primeira representação iconográfica da cidade. Seguem registros dos antigos palacetes da Paulista, imagens da verticalização da avenida, fotos de protestos. Outro destaque é o registro das ações do coletivo 3nós3, que atuou nos anos 1970 e 80 fazendo intervenções no espaço público.

“É um núcleo bem diverso que vai desde fotografias históricas até obras do grupo Santa Helena e uma tela de Ferreira Gullar, que pintou o Lula discursando no vão livre do Masp, em 1979”, comenta o curador.

O tom politizado permanece na segunda parte composta pelas obras comissionadas. A gaúcha Rochelle Costi, por exemplo, apresenta um trabalho feito em parceria com Renato Firmino, artista de rua que mora no vão livre do Masp. Costi conheceu Firmino enquanto caminhava pela Paulista no ano passado e logo se encantou pelo homem que morava dentro de um carrinho, onde expunha suas telas e objetos pessoais.

Em entrevista à ARTE!Brasileiros, Costi conta que demorou oito meses até convencer Firmino a participar da mostra. Nesse processo, ela também filmou outros artistas presentes na avenida. O vídeo está exposto na mostra dentro do carrinho de Firmino, junto com as pinturas que ele realiza sobre pedaços de madeira coletados na rua.

A artista ressalta que a presença da arte popular dentro do museu não é um dado novo. “O próprio Pietro Bardi trazia obras de desconhecidos para o Masp. Não é uma ação original, mas foi o que me pareceu mais genuíno para essa exposição. Queria dar visibilidade para aqueles que são ignorados pela sociedade”, afirma Costi.

Outra obra produzida coletivamente é a série de desenhos e pinturas dos índios Ibã Huni Kuin, Bane Huni Kuin e Mana Huni Kuin, da comunidade Aldeia Jordão, no Acre. Os três criaram representações da avenida que se destacam pelas cores vibrantes e principalmente a quantidade de carros em desequilíbrio com o número de pedestres.

Para Toledo, o interessante da série é que ela apresenta uma perspectiva pouco usual da cidade: “Os desenhos invertem a lógica dos pintores viajantes que vieram da Europa e retrataram as terras nativas a partir da chave do exótico. Inversamente, os índios apresentam um olhar sobre um lugar que também lhes causa estranhamento”.

A instalação Stand Center, de Marcelo Cidade, também representa a Paulista a partir de uma perspectiva pouco usual. O trabalho reproduz as estruturas das barraquinhas do comércio informal da avenida. São várias estruturas colocadas uma dentro da outra. No centro, em destaque, há um ovo localizado numa base giratória.

A obra é uma referência às inúmeras vitrines localizadas na Paulista e ao desejo insaciável gerado pelo consumo. A escolha do ovo como objeto é um recurso irônico: “Por ser um objeto do cotidiano, o ovo desconstrói essa ideia de valor do que está na vitrine”.

Cidade também faz uma crítica às instituições culturais que expõem obras como produtos de consumo. “Quando um trabalho é colocado na estrutura do cubo branco, ele é fetichizado, tornando-se inacessível. Sem dúvida essas estratégias de mercado também são adotadas pelo próprio sistema da arte”, afirma.

A paulistana Graziela Kunsch, por sua vez, apresenta um vídeo que retrata uma das manifestações contrárias ao aumento da tarifa de ônibus, realizada em 2013. A obra tem como locação o túnel que conecta a Paulista com a avenida Dr. Arnaldo. Na primeira sequência do filme, diversos carros fazem um retorno irregular dentro do túnel. A razão dessa ação é explicada em seguida, quando o vídeo mostra uma manifestação que vem de encontro ao congestionamento.

Para Toledo, a obra tem um grande impacto por mostrar os veículos quase acuados pela manifestação. “É muito bonito porque um local que costuma ser totalmente ocupado por carros é invadido pela população. O impacto disso é ainda maior numa cidade como a nossa, que prioriza o transporte individual em detrimento do coletivo”, afirma.

O transporte público também é uma referência central no vídeo S, do gaúcho Luiz Roque. Filmada na linha verde do metrô, a ficção científica retrata três homens que vivem no subsolo, isolados do restante da sociedade. Nesse local um tanto sombrio, eles se comunicam apenas a partir da linguagem corporal.

Inicialmente, Roque queria fazer uma produção sobre a prostituição no Parque Trianon. Porém, acabou optando por filmar uma distopia num local marginalizado. “O filme é um comentário sobre essas hierarquias, quem está acima ou abaixo na sociedade. Essa ideia também está na própria localização do trabalho, que fica no subterrâneo do museu. O vídeo tem um pouco de tensão sexual, falando sobre desejo e violência, algo com que a comunidade LGBT convive muito de perto.”

Roque afirma que o trabalho possui um tom pessimista e que dialoga com a situação política do País: “A história é cíclica. Quando fazemos uma análise, vemos que há ondas liberais de direitos humanos seguidas de períodos sombrios e conservadores. Infelizmente, estamos vivendo um momento que não é dos mais esperançosos”.

Além das obras citadas, a mostra conta com produções comissionadas de mais nove artistas. Em comum, os diversos olhares revelam as contradições em torno da avenida, como enfatiza o curador: “É evidente que aqui é um local de disputa e que existe um movimento para que a cidade seja ocupada não só pelas classes dominantes, mas por outras parcelas da população. A exposição trata desse fenômeno”.

Link curto: http://brasileiros.com.br/qNo7f
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