Museu de Arte do Rio de Janeiro exibe mostra dedicada ao delírio; curadoria reuniu trabalhos de Arthur Bispo do Rosário, Fernando Diniz e Geraldo Lucio Aragão, entre outros


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“De Onde Eu Te Vejo Você Não Me Olha” (2016), de Carlos Bevilacqua


Dois anos atrás, o então diretor cultural do Museu de Arte do Rio, Paulo Herkenhoff, idealizou uma mostra partindo da hipótese de que existe uma linha tênue entre razão e loucura, o senso e o dissenso ou mesmo o nonsense.

A seu convite, Tania Rivera, psicanalista e curadora cuja tese de doutorado na Bélgica foi sobre a psicose, desenvolveu, ao longo desses dois anos, uma pesquisa que coloca em diálogo obras produzidas por pacientes psiquiátricos e criações de artistas consagrados cujas obras recusam vias tradicionais de representação ou questionam o que é chamado de loucura.

O corolário desse percurso é a exposição Lugares do Delírio, que fica em cartaz até 18 de junho. A mostra apresenta mais de 150 trabalhos, entre instalações, performances, pinturas, esculturas e desenhos. Estão presentes obras de Fernando Diniz, Raphael Domingues e Geraldo Lucio Aragão, do Museu do In­­cons­ciente, criado em 1952, no então denominado Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro, pela psiquiatra Nise da Silveira, que considerava a esquizofrenia um dos “estados inumeráveis do ser”.

O que há de delirante na arte e o que há de reflexão sobre a arte na loucura foram questões que orientaram a pesquisa. Outra determinante foi tentar romper o confinamento da produção dos pacientes psiquiátricos e discutir sua representatividade em paralelo com a arte exposta em circuitos tradicionais de galerias e museus.

“A arte parece sempre querer fugir à norma, ou seja, ao hábito e às regras que delimitam nossa realidade compartilhada. Ela abre janelas na vida cotidiana e nos convida a construir novos mundos”, diz a curadora. “A intenção é colocar em suspenso a delimitação entre o normal e o dito ‘louco’. A arte e a loucura têm em comum a força de transformação da realidade”, diz.

“Acabei fazendo um recorte na obra do Bispo do Rosário, por exemplo, ligado a sua produção com barcos. No mar precisamos de barcos para não afundar”, diz, associando a palavra “mar” às iniciais do museu onde a exposição é realizada (MAR).
Tania lembra que barcos são frequentes no imaginário da loucura, a exemplo de passagens que Foucault dedicou à sua História da Loucura na Idade Clássica, um estudo sobre a exclusão e perseguição do “não igual”.

“É para o outro mundo que parte o louco em sua barca louca; é do outro mundo que ele chega quando desembarca. Essa navegação do louco é simultaneamente a divisão rigorosa e a passagem absoluta. Num certo sentido, ela não faz mais que desenvolver, ao longo de uma geografia semirreal, semi-imaginária, a situação liminar do louco no horizonte das preocupações do homem medieval – situação simbólica e realizada ao mesmo tempo pelo privilégio que se dá ao louco de ser fechado às portas da cidade: sua exclusão deve encerrá-lo; se ele não pode e não deve ter outra prisão que o próprio limiar, seguram-no no lugar de passagem. Ele é colocado no interior do exterior, e inversamente. Postura altamente simbólica e que permanecerá sem dúvida a sua até nossos dias, se admitirmos que aquilo que outrora foi fortaleza visível da ordem tornou-se agora castelo de nossa consciência”, edição Perspectiva S.A. 1978 (Foucault, pág. 17, 1972).

Ao lado dos barcos de Arthur Bispo do Rosário (1911-1989) – paciente psiquiátrico diagnosticado como esquizofrênico-paranoico que ficou internado por 50 anos na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro, e deixou uma obra inestimável, hoje no acervo do Museu do Inconsciente – contracena a instalação de Bernardo Damasceno, o Mar Vai Virar Sertão, fazendo um jogo de palavras com sua obra original O Sertão Vai Virar Mar, exposta no Dragão do Mar, em Fortaleza. Juntos, os trabalhos aludem à frase “O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”, atribuída ao líder religioso Antônio Conselheiro. O delírio de um e a fantasia do outro se encontram na mesma linguagem conceitual.

Na obra Razão/Loucura (1976), Cildo Meireles, que a refez especialmente para a exposição, chegou a quebrar algumas varas de bambu ao tensioná-las. A obra é um díptico. Em Razão, há uma chave presa a uma corrente fora do alcance de um cadeado. Em Loucura, a corrente alcança o cadeado e consegue transpassá-lo e, portanto, abri-lo. 

Outro eixo para pensar a exposição foi a importância de discutir a segregação do artista que é paciente psiquiátrico em relação ao mercado. “A ideia de por que Clovis (paciente e artista do ateliê Gaia) seria segregado por ser um paciente psiquiátrico, pobre.” Para ele, suas esculturas são vivas. Uma das suas obras tem a topologia de um carro, embora para Clovis ela não o seja. Para o artista, “o carro é um coração”. O Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea abriga o Ateliê Gaia, onde pacientes ocupam um espaço de criação e geram renda com a venda das obras.

Luiz Carlos Marques, outro paciente do Gaia, mostra seu trabalho em cadernos e fala sobre a obra como uma provocação. “Veja, ele (o caderno) começa de um jeito e, depois, vira, e você vê as mesmas imagens de ponta-cabeça”, diz. “É uma página virada, uma provocação.” Desenhos e trabalhos de alunos e pacientes do educador francês Fernand Deligny, que influenciou autores como Gilles Deleuze e Guatarri, conversam na diagonal do salão com as teias do artista Carlos Bevilacqua. Os vídeos da psicanalista Miriam Chnaiderman, Dizem que Sou Louco, produzidos em 1994, e de Dora Garcia, Maioria Desviante – de Basaglia ao Brasil (2010), mostram o cuidado e a amplidão da pesquisa.

Obras de Lula Vanderley, Leonilson, Ana Linnemann e Laura Lima estão lado a lado com as esculturas de Clovis, Luiz Carlos Marques e Fernando Lima, pacientes do Gaia e do Centro de Apoio Psicossocial de Belém (Caps). Razão, intenção, expressionismo, imagens do neoconcretismo e delírio construtivo aparecem contaminados. Todos no mesmo barco, eles emocionam e trazem ar fresco à ideia de inclusão.

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