A enfermeira canadense que criou um programa de uso supervisionado de drogas afirma que a solução para São Paulo vai na contramão da proposta do prefeito Doria, que exige exame toxicológico para acessar a reabilitação

Foto: Aaron Vincent Elkaim

Foto: Aaron Vincent Elkaim

Há 23 anos, Liz Evans, 51 anos, criou um hotel para dependentes de drogas em situação de rua. A novidade era acolher as pessoas sem que fosse exigida abstinência, numa das modalidades de terapia conhecida como “redução de danos”. Localizado em um bairro extremamente pobre de Vancouver, o lugar lembrava a região da Luz apelidada de “cracolândia”, em São Paulo.

O projeto incluiu outras instituições, transformou o conceito de dependência de drogas, mudou o jeito de os vizinhos se relacionarem com usuários e ajudou a salvar a vida de centenas de pessoas. Hoje, Liz é uma das maiores autoridades do mundo em uso de drogas em ambientes supervisionados e coordena dois dos mais importantes programas de redução de danos dos Estados Unidos, em Nova York e Washington.

Brasileiros – O que fez você optar pela terapia de redução de danos em vez da abstinência?
Liz Evans – Percebi que não estávamos cuidando de nenhuma das questões de fundo, das vulnerabilidades sociais das pessoas. Elas não tinham onde morar e não seriam aceitas por outros serviços porque muitas usavam drogas injetáveis, tinham comportamentos extremos e passagem pelo sistema carcerário. Eram simplesmente odiadas pelos moradores da comunidade, vistas como lobos – os outros seriam as presas. Para aquela sociedade, era necessário estar “limpo” para receber ajuda. Algumas histórias eram inacreditavelmente difí- ceis e cheguei a pensar: meu Deus, tudo o que eu quero que você faça é que fique vivo.

Que tipo de traumas os dependentes de drogas em situação de rua tinham?
Por exemplo, cuidei de uma mulher que viu o marido matar a filha de 7 anos. Ele também a violentou. Ela tinha 40 anos, usava todos os tipos de drogas e trabalhava no mercado do sexo. Vinha à minha sala sob efeito de drogas, me abraçava como se eu fosse sua filha, e chorava, chorava, chorava. Percebi que eu poderia me relacionar com ela mesmo assim.

Entendi que tudo o que eu poderia contribuir tinha pouco a ver com o que aprendi como enfermeira. Eu precisava levar humanidade. Essa abordagem gerou segurança. Passamos a oferecer seringas limpas, a treinar a equipe para casos de emergência, mudamos a filosofia para o que chamamos de “empatia permanente”, compramos Narcan (droga antagonista de opioides).

Descobrimos que estar com as pessoas honestamente, construindo relações, é algo muito poderoso. Não significa tolerar incidentes violentos. Significa sempre recebê-las de volta. Acolher é um mecanismo muito potente ao longo do tempo. Porque o que você está dizendo é: “Eu gosto de você, eu te enxergo e você não pode colocar uma faca em mim, mas pode voltar amanhã”. Algumas pessoas que nunca tiveram um lar mudaram-se para lá. Era a primeira vez na vida que tinham um teto, uma casa estável, um mesmo endereço por mais de seis meses.

O que mudou?

A primeira coisa que vi melhorar é elas terem se acalmado. Tiveram um profundo sentido de pertencimento e aceitação. Foi o suficiente para que começassem a pensar que talvez a vida delas importe um pouquinho.

O que essas pessoas têm em comum?

O sentimento que as caracteriza enormemente é a sensação de que são inúteis, que a vida delas não importa. O argumento de que chegariam sozinhas em um ponto de compreensão em que decidiriam parar de usar drogas porque “aprenderam a lição” não funciona.

Eu estava cercada de pessoas morrendo com esse tipo de política. Esse pensamento apenas enxerga a droga, não os seres humanos. A maioria desses dependentes químicos relata traumas. Traumas causam danos. Forçar a abstinência é retraumatizar as pessoas, é como se disséssemos: “Sim, você é um inútil pedaço de merda mesmo”.

Em termos de investimentos econômicos, o que é mais eficiente?
O custo de abrigar é bilhões de dólares menor do que o de deixá-los na rua. Um estudo mostrou que estamos economizando quatro dólares para cada dólar gasto. O resultado é que a expectativa de vida na região aumentou uma década e dois grandes presídios foram fechados.

Depois de 12 anos com esse trabalho, criamos uma rede de hotéis com 20 abrigos. A primeira política pública que conquistamos demorou dez anos. Houve uma mudança importante na cidade, com olhar sobre a prevenção e a redução de danos. As pessoas estavam vivas e trabalhando sem ter de parar de usar drogas.

O atual prefeito de São Paulo, João Doria Jr., sinalizou que vai intervir em um programa semelhante ao que você criou, o De Braços Abertos, para ampliar outro, o Recomeço, do governo do estado, que exige abstinência.
Todas as vezes que eu venho ao Brasil, vejo esse prédio enorme do Recomeço sempre vazio. Vou à tenda do De Braços Abertos e está sempre lotada. O De Braços Abertos simboliza tudo o que construí em 23 anos. É um trabalho duro que pode ser aniquilado. Os moradores da “cracolândia” estão nervosos, sem saber o que vai acontecer. Sem o acolhimento, ser um dependente de drogas em situação de rua significa morrer.

No Brasil temos que enfrentar o crack como um problema de saúde, justiça ou segurança?
É um problema de direitos humanos e sociais. Lidar com dependentes de drogas em situação de rua é tratar de dignidade? Sim (se emociona)… Porque é muito mais fácil virar as costas para quem você não enxerga como pessoa. O problema é que todos esses corpos jogados nas ruas (chora) não são bichos, parasitas. São gente. A sociedade precisa mostrar que essas pessoas têm valor. É tudo o que temos. Se não nos tratarmos com dignidade, o que sobra?

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