A ordem que durante muitos anos consistiu em uma alternância entre dois partidos, em que às vezes um presidente socialista tinha que governar com uma maioria de deputados de direita e vice-versa, hoje se desordenou

Benoit Hamon

Benoit Hamon e François Fillon não são os únicos protagonistas do pleito deste ano Fotos: Reprodução

As eleições presidenciais na França se aproximam a grandes passos. Cada dia traz o seu lote de surpresas, momentos decisivos, viradas dramatúrgicas e de casaca.

Já na hora das eleições internas dos dois grandes partidos, (o Republicano – de direita – e o Socialista – de esquerda moderada), os candidatos designados não eram os favoritos. François Fillon, número 2 do governo Sarkozy venceu Alain Juppé graças a seu discurso de uma direita rigorosa, austera financeiramente e dura nas questões de segurança. Do outro lado, o candidato Benoit Hamon, que representava a ala mais progressista de um partido que se alinhou demais com o pensamento liberal para continuar sendo considerado realmente de esquerda, venceu Manuel Valls, o durão do governo Hollande. Ninguém esperava por isto, mas finalmente os eleitores de esquerda expressaram assim que a questão da ecologia e da proteção social lhes importa mais do que tudo.

Só que esses dois candidatos não estão sozinhos no painel que a oferta política francesa propões para estas eleições! A ordem que durante muitos anos consistiu em uma alternância entre dois partidos ”razoáveis”, em que às vezes um presidente socialista tinha que governar com uma maioria de deputados de direita e vice-versa, hoje se desordenou. A extrema direita de Marine Le Pen veio ganhando pouco a pouco o terreno popular, seduzido por seu discurso populista, nacionalista e perigoso. À esquerda, o candidato Jean-Luc Mélenchon vem também alargando o seu eleitorado com aqueles que não encontram mais no Partido Socialista respostas às suas fragilidades. E ao centro, o candidato “livre” sem partido Emmanuel Macron, antigo dirigente do banco Rotschild, antigo ministro da economia de François Hollande criou um movimento batizado de “Em marcha” onde a idéia de um mundo empreendedor e descomplexado pode se expressar sem amarras.

Mas como estamos em uma minissérie, cheia de reviravoltas dramáticas, revelou-se há um mês atrás um caso de corrupção da parte do candidato de direita François Fillon, batizado de Penélope Gate. Sua mulher, Penélope, recebeu durante anos um salário por um emprego fictício que ela nunca ocupou. A justiça vem fazendo seu trabalho de enquete, e enquanto isto o candidato vai perdendo toda a credibilidade que tinha, baseada na reputação de homem direito e confiável, o que ele não é. Para onde irão os votos que ele arrebataria? Para Marine Le Pen ou Emmanuel Macron? François Fillon não desiste de ser candidato, ele se agarra à idéia de que a base que votou por ele nas eleições internas do partido não o abandonará. Mas seus colegas estão, um a um, retirando seu apoio a este candidato queimado. Será que Alain Juppé vai tomar o seu lugar? Cenas dos próximos capítulos: neste domingo Fillon pretende reunir na Praça do Trocadero seus fiéis eleitores. Mas e se a Praça ficar vazia…?

Do outro lado, o candidato socialista Benoit Hamon vive momentos dificílimos. Durante duas semanas ele tentou convencer os outros partidos de esquerda a se aliarem à ele. Seria a única chance da esquerda entrar no páreo do segundo turno. O Partido Verde topou. Mas o candidato Mélenchon do movimento A França Rebelde não aceitou desistir de sua própria candidatura em nome de uma aliança de esquerda. Ou será que foi Benoit Hamon que não cedeu? Hamon, eleito dentro do Partido Socialista, não podia simplesmente entregar a camisa para Mélenchon que é radical, esquentado, mal-educado e anti-Europa. Por outro lado, suas posições progressistas sobre a transição energética, o salário universal, a agro-ecologia, etc são radicais demais para a grande ala do Partido Socialista que se alinhou há anos com os regimes liberais. Resultado? Hamon está isolado. E muito socialistas estão declarando se aliar com Emmanuel Macron.

Mas quem é este Macron? Que se declara nem de esquerda nem de direita. Que pretende renovar toda a classe política do pais. Que não tem tradição diplomática nem experiência das instituições, de quem se diz que é um homossexual não assumido, um banqueiro disfarçado e que não revela quem o apóia (empresários sedentos de liberdade e flexibilidade, que pregam o fim das “entravas” sociais).

Marine Le Pen, acusada de corrupção enquanto deputada européia, viu ser retirada há dois dias sua imunidade parlamentar. Isto promete novas e emocionantes viradas no roteiro destas eleições. O que não seria nada mal, pois o perigo de vermos a França governada por uma versão feminina de Donald Trump dá frio nas costas!

É uma pena que a França não esteja pronta para alinhar-se com o projeto de mudança de paradigma que o projeto de Benoit Hamon propõe. Seria lindo se o pais dos Direitos Humanos desse o exemplo de que um novo sistema baseado na justiça social e na preocupação com o planeta é não somente viável como portador de fomento econômico. A reforma global do nosso modo de vida na Terra é a única solução e ela é maravilhosa. Mas, pelo visto, nem todos já o compreenderam.

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