Coordenador do Centro de Estudos Judaicos da UFRJ, Michel Gherman responde às críticas a Gregório Duvivier feitas por Salem Nasser

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Já está virando um hábito. Quando alguém do campo progressista brasileiro faz uma viagem a Israel-Palestina, passa a ser considerado suspeito. No retorno ao Brasil, a depender de suas impressões, torna-se herói, se assume cânones de uma certa esquerda, ou traidor, se busca alternativas a eles.

Assim foi com Paulo Abrão e Jean Wyllys e assim foi com Caetano Veloso. Gregório Duvivier é a última vítima desse processo: de figura central do humor engajado, passa a ser considerado, em alguns círculos, simplório, arrogante, traidor e, talvez… apenas inocente.

A mim impressiona como as conclusões são rápidas. Sobre Duvivier, falou-se, nesta revista, que foi acometido por uma “cegueira”; que deveria “calar sobre o que não conhecia”; que não passa de um autocentrado que não consegue entender fenômenos que acontecem longe dele.

Mas o pior vem no final. Para o autor do texto, as opiniões de Gregório sobre a questão palestina o desqualificam para falar sobre qualquer outra injustiça. Sem muita cerimônia, interdita Duvivier, justamente em um momento que o campo progressista mais precisa de gente como ele.

A ideia de que a discordância em relação aos métodos desqualifica o interlocutor é assustadora. Pois vejamos: Gregório Duvivier não defendeu o governo do Estado de Israel; não apoiou a ocupação dos territórios palestinos; sequer foi contra pressões políticas para o fim dos injustificáveis assentamentos. Gregório apenas se colocou contra o boicote a tudo o que for israelense, e procurou compartilhar impressões sobre o que vira na viagem.

Em um debate saudável, Gregório Duvivier seria visto como alguém que tem discordâncias pontuais com o autor do texto. Mas não é esse o caso. O debate sobre a questão palestina não parece ser saudável. É um debate de absolutos. Se o Duvivier discorda em algum ponto, passa a ser inimigo. Ele passa a ser cego, um inocente útil na mão de sionistas mal-intencionados.

Pronto, aqui está o mundo divido entre “nós” e “eles”, entre o “bem” e o “mal”, entre os “pios” e os “impuros”. O problema é que esse discurso não é exatamente da esquerda. A ideia de divisão absoluta, a noção de “nós” e “eles” graça justamente na extrema direita, e todos nós temos sido vítimas dela. Claro, a noção de que aqueles que discordam de nós são “cegos”, também nos é conhecida: ela surge do discurso sectário, religioso, que divide o mundo entre filhos da luz e filhos da escuridão. Nesse sentido, não surpreende que o autor do texto tenha chamado a atenção para o “pecado maior” de Duvivier.

Tudo isso seria impressionante o suficiente se Gregório Duvivier tivesse conhecido Israel pelas mãos do governo israelense, se tivesse feito a viagem guiado por forças reacionárias, por gente que defende a ocupação. Não foi o caso.

Duvivier participou de um seminário na Universidade Hebraica de Jerusalém. Desse seminário, participaram acadêmicos palestinos (da Universidade de Al Quds, inclusive), ex-ministros da Autoridade Palestina, além membros do atual governo de Mahmoud Abbas. Todos eles rechaçaram a ocupação e eram, ao mesmo tempo, contrários ao boicote total a Israel.

Gregório Duvivier esteve em Belém e, guiado por um palestino, conheceu um campo de refugiados (Palestinos expulsos de Israel em 1948), viu o muro de separação e entendeu as dificuldades diárias que um palestino enfrenta diante das barreiras policiais israelenses. Só que ele, o palestino, não achava que o boicote acadêmico era adequado.

Por fim, Duvivier esteve com o diretor do Centro Minerva para Direitos Humanos, também palestino, que denunciou as tentativas de judaização de Jerusalém e, ao mesmo tempo, se disse contrário aos boicotes acadêmico e político.

A canonização do boicote pode transformar todos – intelectuais palestinos, professores palestinos, militantes palestinos e ministros palestinos – em traidores. O discurso sectário faz isso. Solitários na montanha da ética e da bem-aventurança ficariam os puros e os bons de espirito. Do outro lado, nós, que “cegamente” buscamos refletir sobre a situação.

Lembro que Duvivier luta cotidianamente contra as ameaças do fundamentalismo religioso no Brasil. Nada mais coerente, portanto, do que se colocar contra todos os fundamentalismos, seja do Hamas, seja do Likud, seja daqueles que perpassam uma suposta esquerda brasileira.

Hoje, Duvivier é mais necessário do que ontem.

*Michel Gherman é coordenador do Centro de Estudos Judaicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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