A terapia interrompe pensamentos ruminativos que alimentam quadros depressivos. Estudo norueguês mostrou sucesso de até 80%, mesmo 6 meses após o tratamento

Indivíduos deprimidos “não precisam se preocupar e ruminar pensamentos”, diz o professor Roger Hagen, do Departamento de Psicologia da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia (NTNU). “Percebo que isso é libertador para muitas pessoas”. Roger trabalha com a terapia metacognitiva (MCT), um tratamento criado exclusivamente para tratar a ruminação. 

A ruminação depressiva é caracterizada por um círculo vicioso de pensamentos negativos e tem sido especificamente abordada na psicologia como um elemento que alimenta e mantém o comportamento depressivo. Hagen e colegas abordaram a questão e o tratamento com a abordagem metacognitiva no periódico Frontier in Psychology. 

Hoje, a terapia cognitivo-comportamental (TCC) é o terapia padrão para o controle da depressão e ansiedade. Na TCC, os pacientes analisam o conteúdo de seus pensamentos para tentar mudar o padrão em que ocorrem. Já a terapia metacognitiva, o terapeuta tenta conter uma análise excessiva que pode ser um gatilho para o pensamento ruminativo. 

A depressão pode afetar a todos em qualquer fase da vida. Foto: CC0/Domínio público

O controle sobre os pensamentos é um dos focos da terapia cognitiva. Eles não precisam ser reais.  Foto: CC0/Domínio público


No estudo, 39 pacientes foram escolhidos aleatoriamente. Parte recebeu a MCT e a outra parte ficou em lista de espera. Enquanto 70%-80% dos pacientes que participaram da terapia melhoraram, apenas 5% dos que ficaram em lista apresentaram melhora.  Pacientes foram analisados logo depois da terapia e seis meses depois, quando o mesmo índice de melhora foi observado. O próximo passo, dizem os pesquisadores, é comparar a MCT com outras terapias usadas, como a TCC. 

O estudo mostra que aprender a reduzir a ruminação é muito útil para pacientes com sintomas depressivos. “Algumas pessoas experimentam seu pensamento ruminativo persistente como completamente incontrolável, mas digo que indivíduos com depressão podem ganhar controle sobre ele “, diz Hagen.


O funcionamento da terapia metacognitiva 

A ansiedade e a depressão muitas vezes se retroalimentam. Se, por acaso, um evento específico gerou um desconforto, os pensamentos excessivos sobre ele ao longo do tempo vão criando ainda mais ansiedade e eventos depressivos. E o que a abordagem metacognitiva faz é justamente abordar esses processos de pensamento que alimentam o ciclo depressivo. Ela os coloca sob controle. 

Um dos passos da terapia, diz Hagen, é o indivíduo tomar consciência do que acontece quando começa a ruminar; ou seja, mais ansiedade e depressão. É quando percebe que o pensamento ruminativo mais atrapalha que ajuda, que o indivíduo começa a assumir o controle.

Uma maneira de conter a ruminação é não identificar o pensamento com a realidade.Haagen chama esse processo de atenção destacada e explica como ele funciona: 

“Em vez de reagir repetidamente ruminando e pensando ‘como me sinto agora?’ Você pode tentar observar seus pensamentos com o que chamamos de “atenção destacada”. Você pode ver seus pensamentos como apenas pensamentos, e não como um reflexo da realidade.”

“A maioria das pessoas acredita que o que pensam é verdade. Por exemplo, se eu acho que sou estúpido, isso significa que eu devo ser estúpido. As pessoas acreditam fortemente que seus pensamentos refletem a realidade. “

“Os pacientes vêm pensando que vão falar sobre todos os problemas que têm e chegar à causa deles ou resolvê-los”, diz Hagen, “mas, em vez disso, tentamos descobrir como funcionam os processos mentais e de pensamento. Não dá para controlar o que se pensa, mas é possível ter controle sobre como você responde ao que pensa.”

A terapia metacognitiva surgiu na Universidade de Manchester, na Inglaterra, e vem sendo usada nos últimos 20 anos. Estudos menores nesta universidade mostraram que o tratamento MCT tem tido grande eficácia no tratamento da depressão. O estudo norueguês foi um dos primeiros a usar um grupo controle no método. 

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Referência:

Hagen, Roger and Hjemdal, Odin and Solem, Stian and Kennair, Leif Edward Ottesen and Nordahl, Hans M. and Fisher, Peter and Wells, Adrian. Metacognitive Therapy for Depression in Adults: A Waiting List Randomized Controlled Trial with Six Months Follow-Up. Frontiers in Psychology. Disponível em: http://journal.frontiersin.org/article/10.3389/fpsyg.2017.00031

Link curto: http://brasileiros.com.br/Fjcdk
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