Tudo começou com a produção de pincéis produzidos à base de biologia molecular

Rene e Simone Xavier, que há oito anos administram a Sigma

Rene e Simone Xavier, que há oito anos administram a Sigma

Simone Oliveira Xavier veio ao mundo em Pernambuco, onde o pai terminava um mestrado em Veterinária, mas deu os primeiros passos em Belo Horizonte, a capital mineira. Ninguém poderia imaginar que esses passos a levariam tão longe.

Ela cresceu no campus da Universidade Federal de Minas Gerais à espera do fim do expediente do pai professor. E lá, anos depois, ingressou como aluna de Veterinária. Com tanto a ser estudado diante dos olhos, Simone optou por mergulhar onde não era possível enxergar. A filha do veterinário cirurgião de grandes espécies começou a pesquisar a vida que existia em minúsculos seres. Especializou-se em uma bactéria chamada haemophilus parasuis, encontrada em porcos, capaz de dizimar populações inteiras em um curto espaço de tempo.

Há 18 anos, mudou-se para os Estados Unidos para tornar-se Ph.D. pela Universidade de Minnesota. A seu lado, estava o marido, Rene Xavier, engenheiro civil. Ele ingressou no mes- trado em Administração. Ela, já doutora, virou responsável pelo Laborat rio de Bacteriologia Molecular da universidade em 2005.

Envaidecidos pelas próprias conquistas, davam-se por satisfeitos. Simone viajava o mundo colecionando respostas sobre a ação da haemophilus parasuis. Analisava os animais infec- tados, propunha vacinas e testes de diagnósticos. Vez por outra a saudade do pão de queijo apertava e o casal voltava para a terra natal com as malas recheadas de encomendas. Entre os itens, maquiagem. “Em 1998 muitos produtos não estavam disponíveis no mercado brasileiro. Enxergamos uma oportunidade”, diz Simone.

No ápice de suas carreiras, decidiram compartilhar um recomeço. Criaram o site Sigma e entraram no mercado de vendas online em 2008. Simone e Rene compravam os produtos nas lojas, despachavam pelo correio e cobravam uma taxa de serviço. Eram batons, blushs e paletas de sombras coloridas que mexiam com

a cabeça das mulheres. Até que um dia Rene examinou de perto um pincel de maquiagem em suas mãos e disse: “É impressionante que um pincel como este custe US$ 50. Eu faria melhor por um preço menor”.

Não era exagero. Ele tinha trabalhado na gestão de uma fábrica de pincéis para pintura de paredes. Sabia como fazer e fez. Começou a desenvolver uma coleção que tornasse possível a qualquer mulher elaborar uma maquiagem com ares de profissional. Entrou em um mercado bonito. A beleza movimenta no mundo mais de US$ 425 bilhões por ano, cerca de R$ 1,5 trilhão. O Brasil é o terceiro maior consumidor, atrás dos Estados Unidos e da China, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos.

Os grandes fabricantes da área usavam, na época, pelos de animais, mas Rene tinha uma veterinária em casa. Simone sabia que as cerdas naturais acumulam bactérias, o que diminui a vida útil do produto. “Decidi abolir o uso dessa matéria-prima. Com a tecnologia de hoje nem há necessidade”, ela explica.

Solucionou a crise ética com ciência. No laborat rio, com técnicas de biologia molecular, desenvolveu modelos de pincéis testados no pr prio rosto. E, se a vida é busca pelo extraordinário, eles encontraram o caminho. Em oito anos, a Sigma produziu linhas de maquiagem e mais de uma centena de tipos de pincéis. É deles a primeira torre para secar as “ferramentas da beleza” e o “melhor pincel para aplicação de bases”. Possuem mais de 25 patentes nos Estados Unidos, Europa e China.

Investiram nas blogueiras endeusadas na internet, tanto que apenas um vídeo dos produtos da marca no YouTube já foi visto por mais de dois milhões de internautas. São objetos de desejo com preços que variam de US$ 9, um pincel, a US$ 400, um kit com acabamento em ouro ou cobre. Desfilam nas penteadeiras de celebridades e profissionais que embelezam estrelas como Emma Watson, Caley Cuoco e Miley Cyrus. A empresa faturou US$ 25 milhões em 2015, cer- ca de R$ 100 milhões.

As pinceladas de sucesso não mudaram a forma com que Simone enxerga o lucrativo mundo da vaidade: “Beleza mesmo vem da autoconfiança. Hoje uso maquiagem, mas minha dedicação e meu conhecimento são os fatores mais relevantes em mim”.

A sede, em Minnesota, tem cem funcionários e quase todos os cargos de liderança são ocu- pados por mulheres, o que s acontece em 5% das grandes empresas do planeta. Simone, que mal usava batom, virou referência em matéria de vaidade. “Minha visão crítica do mercado de beleza como pesquisadora me ajuda a identificar necessidades, tendências e soluções. Grande parte da pesquisa é a observação de comportamento”, ressalta. E assim ela continua cientista, sabendo que a maior beleza de todas é se reinventar.

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