Para Luís Augusto Fischer, professor de Literatura Brasileira da UFGRS, na obra do escritor gaúcho, morto nessa terça-feira (28), o sentido se faz por revelação, não por raciocínio ou relato

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Morto na última terça-feira (29) aos 70 anos, o escritor gaúcho João Gilberto Noll, autor dos mais celebrados e premiados no País, foi cremado e enterrado na noite de ontem no cemitério João XXIII, em Porto Alegre, sua cidade natal.

Colaborador da revista CULTURA!Brasileiros, o escritor, ensaísta e professor de Literatura Brasileira Luís Augusto Fischer faz a seguir uma análise da obra de Noll, autor de, entre outros, O Cego e a Dançarina (1980), Hotel Atlântico (1989), O Quieto Animal da Esquina (1991) e Solidão Continental (2012).

Leia o depoimento de Luís Augusto Fischer        

A primeira coisa admirável na obra do Noll é a coerência: que sujeito reto, teimoso, obstinado, firme! Desde o começo ele tinha clareza de não querer frequentar a praia da narrativa realista miúda, de costumes, de registro das coisas triviais. O negócio dele era ir logo para o núcleo da coisa, para o miolo do problema, que podia ser algo relativo à afirmação do indivíduo contra a família ou, mais ainda, à trajetória de alguém que se recusava a ter trajetória comum, alinhada com o progresso, com a visão classe-média da vida. 

Outra coisa que me parece notável é que em sua obra, como em poucas outras (especialmente entre escritores homens), tudo passa pelo corpo, ou nele começa, ou para ele se dirige. O Noll tinha algo de religioso: ele queria com sua literatura encontrar e proporcionar (ou impor) o momento, o “ictus magicus”, aquele ponto em que o sentido se faz por revelação, não por raciocínio ou por relato. Sua vida civil foi, de certo modo, uma consequência disso, me parece: aceitou ou escolheu uma severa austeridade material cotidiana, condizente com esse sentido de busca pela transcendência, que, no entanto, como já mencionei, envolvia o corpo. 

De sua formação como cantor lírico, na juventude, ele mesmo dizia ter restado um forte sentido de que a arte não é, ou não deve ser mimética, não deve estar a serviço de um sentido a ser encontrado discursivamente — e, no entanto, paradoxo dos paradoxos, seu meio expressivo eram as palavras em prosa. Ele escolheu acho que conscientemente essa aporia, esse beco-sem-saída, de que sua obra está povoada. 

 

Luís Augusto Fischer é escritor, ensaísta e professor. Autor de, entre outros, Machado e Borges (Editora Arquipélago) e Literatura Gaúcha – História Formação e Atualidade (editora Leitura XXI), desde 1985, leciona Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS)    

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