Há 20 anos eu ganhei a árvore da felicidade da mãe de um amigo como presente para celebrar nova fase no meu antigo consultório

Foto: Flávio Magalhães

Foto: Flávio Magalhães

Há 20 anos eu ganhei a árvore da felicidade da mãe de um amigo.

Foi presente para celebrar nova fase no meu antigo consultório.

“Desejo muita sorte para você e seus pacientes”.

Vaso de barro, 50 centímetros de altura de vitalidade insuspeita.

Por vários meses deixei-a assim, à porta de entrada.

A cada intervalo entre atendimentos trocava com ela olhar fraternal. As plantas e os humores precisam de atenção e carinho, dizem.

Primeiro eu nutria sólida expectativa, meu plano daria certo:

Transplantaria a árvore para o jardim do fundo da casa assim que passasse a ocupar minha nova sala. Acompanharia então seu crescimento frondoso que, libertando-se da restrição do vaso, viveria nova fase luminosa tão merecida.

Troquei de sala, transplantei-a e acompanhei minuciosamente sua desenvoltura.

Sim, cresceu. 75 milímetros.

Depois veio a realidade, quase sempre mais econômica que a idealização, cumprir o seu destino e ensinar-me, cobrando caro, a dosar melhor o que ainda espero da árvore. E da felicidade.

Tive que que sair daquela bela casa e deixar meu grupo de colegas e meu jardim.

Na ocasião escrevi para os meus amigos:

“Ainda sob a tristeza de deixar minha caverna que há tanto tempo me abriga, nutre, paga as contas, nos dá condições, muito boas, aliás, para ajudar quem nos procura com alguma dor. A dor agora é nossa também, dor de quem deixa a casa e sabe que para nunca mais voltar. O progresso chegou, prédio com shopping, mil carros blá blá blá… Tenho, nessas últimas duas semanas olhado os pinheiros, os cafés, o pé de romã, a mangueira, aquela jibóia que está ali desde o jurássico, e penso: eu vou achar uma nova caverna, e elas? Será que uma retroescavadeira vai cortar a mangueira pela raiz? A motosserra vai destroçar a jibóia em um milhão de pedacinhos?

Eu vou fazer limonada desse limão. Construirei um caminho solo, para onde eu possa ir a pé, atender quem me procurar e, quando tiver sede, beber da limonada enquanto rumino meus demônios e saboreio a novidade misturada à memória dos tempos vividos, e bem vividos, juntos”.

Garimpei uma nova casa, peguei meus móveis, quadros e livros e transplantei novamente a árvore para o antigo vaso, onde continua firme até hoje no atual consultório. Bebo sucos variados e continuo vagamente feliz. Tenho agora a Ângela, uma vizinha que conhece plantas como eu julgo conhecer gente, e me despertou novamente irresistível e pretérita esperança, vê-la crescer finalmente.

Explicou-me que esse tipo de árvore funciona como as pessoas, elas se desenvolvem melhor quando formam um casal. Se eu plantasse no mesmo vaso uma fêmea, mesmo com o espaço novamente restrito, eu me surpreenderei, segundo ela, com o ânimo da transformação.

Confiante, espero sexta-feira chegar, o dia da feira em frente à casa e, pergunto à Dona Maria, da banca de flores, “tem árvore da felicidade fêmea?”, “só vende o casal”, sem chance de negociação pelo tom enfático da resposta. Se eu juntar mais um casal à minha árvore, o que aconteceria com a herética composição? Pergunta que a Ângela e a Dona Maria não arriscaram responder, mas constrangidas, insinuaram, sem se comprometer, que eu realizasse a experiência.

Em relação ao amor o cronista costuma ser bastante generoso, ainda mais com o louvável intuito de florescer a felicidade novamente.

Já encomendei o novo casal.

Enquanto não chega, tenho observado, por obra do acaso ou dos bons fluidos, que a árvore está mais imponente, ereta no esplendor dos seus 51 centímetros. Seus franzinos  galhos sustentam folhinhas de um verde vivo que se esparramam em todas as direções, inclusive a parte de seu caule e raiz, embaixo da terra, que  também estariam, por lógica dedução, com igual imponência e ereção.

Para não terminar subitamente como música árabe ou ejaculação precoce, ocorreu-me uma duvidosa mas também bela e recatada frase do lar:

Alegria tem que ser catada na sensualidade contida das presenças invisíveis.

Se não for exatamente a verdade serviria pelo menos para o início de um poema.

Ou para o fim.

 

 

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  • Auro Danny Lescher

    *Psiquiatra da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), coordenador do Projeto Quixote e psicoterapeuta