Sócio-fundador da Choque Cultural, galeria pioneira na comercialização e difusão da arte de rua, Baixo Ribeiro vê o espaço público como plataforma de renovação da produção artística; tema será debatido por ele no Talks, clico de conversas promovido pela ARTE!Brasileiros em parceria com a SP-Arte

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Baixo Ribeiro. Foto: Alexandre Vianna

Quando o assunto é grafite em São Paulo, o nome de Baixo Ribeiro aparece grifado e colorido. O arquiteto é um dos fundadores da Choque Cultural, galeria pioneira no mercado de arte de rua. Conhecedor amplo do tema, Baixo defende que as intervenções urbanas conjugadas aos sistemas digitais criaram novas relações entre a produção artística e o público.

A rua e a internet estão desenvolvendo seus próprios sistemas de financiamento, produção e difusão artística, praticamente independente do sistema de mercado ligado à arte contemporânea convencional”, afirma.

Na recente polêmica com o prefeito João Doria (PSDB), que apagou diversos grafites da cidade, Ribeiro foi uma das vozes que saiu em defesa da arte urbana. “Não se espera de nenhum cidadão, artista ou não, alienação num momento desses”, afirma.

O arquiteto será um dos palestrantes do Talks, ciclo de debates que a ARTE!Brasileiros promove em parceria com a SP-Arte nos dias 6 e 7 de abril (a feira prossegue até o dia 9).O evento é gratuito, sendo necessário apenas fazer inscrição neste link.

Confira abaixo entrevista sobre alguns dos temas que o arquiteto tratará no Talks.

ARTE!Brasileiros – Neste ano, diversos artistas protestaram contra a eleição de Trump nos EUA, a crise dos refugiados e, mais especificamente, no Brasil, contra o atual governo federal. A arte pode ser uma forma de resistência? Como isso tem se dado nos últimos anos? 

Baixo Ribeiro – A arte reflete as tensões políticas que estamos vivendo, e os artistas têm papel importante na atualidade, inspirando reflexões, mobilizando, iluminando pontos obscuros, empurrando limites. A arte só faz sentido quando escapa das amarras do sistema de mercado e volta para a vida real, lidando com as urgências e gravidades do mundo desequilibrado no qual vivemos. Não se espera de nenhum cidadão, artista ou não, alienação num momento desses. Pelo contrário, espera-se que todos participem ativamente da criação coletiva do nosso futuro. Os artistas têm capacidade de dialogar com públicos amplos e diversos, numa esfera simbólica e sensorial. Nesse ponto, sim, as artes podem ser ferramentas para potencializar debates e ações.

Como a arte urbana se insere nesse contexto? 

A arte urbana e outras formas de expressão que dominam os ambientes públicos abriram novas portas de acesso a públicos que não participavam do mundo das artes. O contingente gigantesco e global de pessoas que praticam a arte urbana ou que produzem fotografia e vídeos para a internet é apenas um exemplo de como existe um novo acesso às expressões artísticas, antes restritas aos museus e outros espaços tradicionais da arte. A rua e a internet estão desenvolvendo seus próprios sistemas de financiamento, produção e difusão artística, praticamente independente do sistema de mercado ligado à arte contemporânea convencional. 

Quais são os desafios de gerir uma galeria focada em arte urbana? Há muitas diferenças entre uma galeria como a Choque e outras focadas em arte contemporânea?

A Choque Cultural é uma interface entre o ambiente convencional da arte contemporânea e os novos ambientes que florescem na sua borda. Por exemplo, pesquisamos novos formatos de financiamento para produções artísticas que têm propósitos sociais, desenvolvemos novas tecnologias que qualificam a experiência da arte no espaço público, criamos novas abordagens em relação ao colecionismo (colecionismo em rede, crowdfunding, investimento com finalidade social). A Choque é um laboratório de novas práticas educativas, sociais, institucionais e empresariais, e a arte é o nosso eixo.

A arte urbana pode apontar novas formas de uso e ocupação da cidade? 

As cidades estão mudando porque as novas gerações perceberam que os velhos modelos urbanos não vão funcionar no futuro. As cidades vão crescer muito: quase a totalidade da população da Terra viverá em grandes centros antes do final deste século. Como as transformações de escala urbana são lentas e demandam consensos e esforços grandiosos, os jovens entenderam que vão ter que se mexer imediatamente. Existe, hoje, um movimento pluridisciplinar que está discutindo, prospectando soluções, formando e mobilizando ativistas, criando um novo ambiente de permanente questionamento sobre o desenvolvimento das cidades. Dentro desse contexto de inovações tecnológicas e economia criativa, a arte deixa seus castelos institucionais e volta-se para a vida mundana e cheia de problemas a serem resolvidos.

 

Link curto: http://brasileiros.com.br/f6wGd
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